Início Notícias Retalho

Retalho de moda em queda livre nos EUA

As vendas a retalho nos EUA registaram a maior quebra de sempre em março, com o vestuário a sentir o maior declínio, numa altura em que os consumidores estão a dar prioridade às compras de bens essenciais, como produtos alimentares e de saúde durante a pandemia de Covid-19.

No total, em março, as vendas a retalho nos EUA caíram 8,7% em termos ajustados em comparação com fevereiro e 6,2% em termos não ajustados face a março do ano passado, segundo o US Census Bureau, instituição equivalente ao Instituto de Nacional de Estatística em Portugal. A queda mensal é a maior alguma vez registada, ultrapassando a descida de 4,3% em novembro de 2008, ocorrida durante a recessão.

Março conta, contudo, uma história diferente para o retalho, já que as lojas de bens alimentares e bebidas registaram um aumento de 28% em relação a março de 2019, enquanto as lojas de vestuário e acessórios caíram 50,7% comparativamente ao mesmo mês do ano passado. Em termos mensais, as vendas em lojas de alimentação e bebidas subiram 25,6% face a fevereiro, ao passo que as de vestuário e acessórios baixaram 50,5%

O US Census Bureau acredita que a fiabilidade dos dados não mudou «significativamente», apesar de muitos retalhistas cujos negócios foram encerrados não estarem no escritório para responder aos resultados de vendas neste período. Reconhece, todavia, que a «capacidade [dos retalhistas] de fornecer informação precisa e a tempo ao Census pode estar limitada».

A descida surge numa altura em que o surto do novo coronavírus forçou restaurantes, bares e muitas lojas a fecharem temporariamente em todo o país, com as ordens de permanecer em casa a impactarem igualmente as vendas de combustível.

Vestuário é o mais afetado

Ken Perkins, presidente da empresa da consultora Retail Metrics, afirma que «centros comerciais inteiros fecharam em todo o país na segunda metade de março, com os segmentos de retalho discricionário a serem os mais prejudicados. A dor é excruciante para o retalho, especialmente para os atores mais débeis».

Não obstante, as vendas cresceram em lojas de mercearia e noutros retalhistas considerados «essenciais», compensando parcialmente o declínio.

Perkins destaca que embora categorias de retalho essenciais como a alimentação e cuidados de saúde tenham gerado vendas «incríveis», quando os consumidores se estavam a aprovisionar, «praticamente tudo o resto foi esmagado», com as vendas de vestuário em queda livre devido às lojas encerradas e as compras de moda a ficarem para trás, tendo em conta a prioridade de pagar a renda ou o empréstimo e comprar comida.

Os números da National Retail Federation (NRF) – que excluem bombas de gasolina, concessionários automóveis e restaurantes – mostram um aumento de 1,7% nas vendas a retalho ajustadas sazonalmente em comparação com fevereiro e de 4,5% das vendas não ajustadas em termos anuais. As diferenças com os dados do US Census Bureau justificam-se pelo facto de algumas das categorias mais atingidas serem excluídas pela NRF.

As lojas de vestuário sentiram o maior declínio entre as categorias contabilizadas pelas duas entidades, com as vendas a descerem 50,5% em termos mensais ajustados sazonalmente e 52% em termos anuais não ajustados, segundo a NRF.

As vendas em lojas de desporto caíram 23,3% em termos mensais e 24,4% em termos anuais.

Entretanto, com mais pessoas a optar pelo comércio eletrónico, as vendas online e fora das lojas (como as vendas por catálogo) subiram 3,1% em termos mensais e 12,1% na comparação anual.

«O Covid-19 afetou a indústria de retalho de forma diferente», explica Jack Kleinheinz, economista-chefe na NRF. «Este é um mercado de contrastes. Por um lado estão as lojas que continuam abertas, que têm filas [de pessoas] para comprar necessidades diárias, por outro lado estão as lojas que fecharam e sofrem com o impacto da pandemia. Estes números não devem ser uma surpresa, tendo em conta a obrigatoriedade de encerramento da nossa economia para abrandar a disseminação do vírus», acrescenta. «Março foi um mês que começou com muitas lojas ainda abertas mas muitas mais estão agora fechadas. Não será surpreendente se os dados para a frente mostrarem um agravamento da situação. Mesmo que a economia comece a reabrir em maio, o comportamento do consumidor pode levar muito tempo a ajustar. O caminho para a recuperação pode ser longo e lento», sublinha.

Cenário cinzento

Neil Saunders, diretor-geral da GlobalData Retail, admite que os números das vendas a retalho criam um cenário cinzento.

«A parte mais preocupante é que o coronavírus não afetou o mês todo de março. A primeira ordem estadual para ficar em casa entrou em vigor apenas a 19 de março e na primeira parte do mês, a maior parte dos consumidores estavam a ter um comportamento normal. Além disso, a parte final de março evidenciou um aumento no consumo de bens alimentares, produtos de saúde e para melhorias em casa – tudo isso ajudou a apoiar as vendas a retalho», justifica.

Abril não terá esses benefícios, aponta Saunders, reconhecendo que o mês completo deverá ser negativo para o retalho, com as lojas a permanecerem fechadas.

«As compras por pânico acabaram em grande parte e não vão levantar as vendas ao mesmo nível. No entanto, os principais pontos negativos são a drástica subida do desemprego e o rápido declínio na confiança do consumidor. Em conjunto, estas dinâmicas vão reduzir o dinheiro que as pessoas têm para gastar e o quão dispostas estão a despendê-lo. Por pior que março tenha sido, parece ser o prelúdio de um abril horrível», antecipa.

Com as vendas nas cadeias de vestuário a descerem 52% em termos anuais, Saunders descreve o sector do vestuário como «extremamente pressionado».

«Houve alguma transferência do consumo para o online, mas não está sequer perto de compensar os declínios nas lojas. O sector já sofreu um enorme golpe e precisa de estar preparado para mais do mesmo nos próximos meses», considera Neil Saunders.