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Retalho em apuros

Os primeiros indicadores deste ano são pouco animadores para os retalhistas americanos. A perda de protagonismo dos centros comerciais na vida dos adolescentes e a crescente apetência pelas compras online antecipam mais dificuldades para a Gap, a American Eagle Outfitters e companhia.

2016 promete ser mais um ano difícil no retalho dos EUA. Os avisos da produtora de vestuário Perry Ellis, cujas marcas enchem as prateleiras de muitos retalhistas, e de outras empresas semelhantes, sugerem que os consumidores ainda hesitam gastar em moda e que os investidores devem ser cautelosos, sobretudo em relação a insígnias que estão dependentes dos centros comerciais.

Um trio de tendências lideradas por Silicon Valley pode prejudicar as empresas que dependem do tráfego nos centros comerciais suburbanos: os adolescentes estão a passar mais tempo agarrados a dispositivos eletrónicos e menos no centro comercial, os consumidores estão cada vez mais dispostos a comprar vestuário online, muitas vezes em lojas apenas online, e os consumidores, em geral, mudaram as suas prioridades do vestuário para a tecnologia e artigos para a casa.

Os analistas de Wall Street antecipam, por isso, vários meses de quedas ou quase estagnação do volume de negócios por parte da Gap, American Eagle Outfitters e outros nomes que são presença habitual nos centros comerciais. Veem uma réstia de esperança no final do ano, com os consumidores a comprarem provavelmente mais vestuário de inverno do que em 2015, uma vez que, no ano passado, as temperaturas permaneceram amenas em várias regiões dos EUA.

«Tivemos dificuldades em encontrar muitos nomes no retalho de vestuário», revela, à Reuters, Robert Mavind, cogestor de portefólio do Hood River Small Cap Growth Fund, que afirma que se tem mantido afastado do sector porque não parece ter preços favoráveis, tendo em conta as previsões contidas. O fundo, no valor de 130 milhões de dólares (cerca de 114,6 milhões de euros), tem ações da retalhista de calçado e bonés Genesco porque Marvin espera uma reviravolta depois da deceção do ano passado e porque a empresa alterou a liderança na sua divisão Lids.

Com a propagação de lojas de comércio electrónico privadas, como a Everlane e a ShopBop, a competirem com a Amazon, assim como políticas de envio mais amigas dos consumidores dos retalhistas tradicionais, a categoria de vestuário e acessórios ultrapassou as vendas de equipamento informático no canal online pela primeira vez no ano passado, atingindo 17,2 mil milhões de dólares no quarto trimestre, de acordo com a comScore.

«Os miúdos já não precisam de ir ao centro comercial para socializar», sustenta Corinna Freedman, analista de ações da BB&T, que frequentemente visita a Foot Locker, a Coach e outros retalhistas que cobre na sua atividade profissional. «O centro comercial já não é o ponto de encontro que era no passado», acrescenta.

As ações dos retalhistas de vestuário tiveram uma performance negativa. A Aerospostale perdeu 93% no último ano e recentemente advertiu para possíveis problemas de liquidez e as ações da L Brands, detentora da Victoria’s Secret, já desceram 12% em 2016.

Parte da culpa destes problemas tem sido atribuída aos adolescentes, que se mostram satisfeitos por usar vestuário barato de retalhistas de fast fashion, como a Forever 21, revelando pouco interesse por roupa de marca vendida em lojas há muito presentes no mercado, como a Abercrombie & Fitch.

Os retalhistas de vestuário e acessórios no índice de retalho S&P 500 deverão registar uma queda de 1,3% nos lucros do primeiro trimestre, seguida de um aumento de 1,9% no segundo trimestre, segundo o analista da Thomson Reuters I/B/E/S, David Aurelio.

Espera-se que a Macy’s, que opera ainda o Bloomingdale’s, assim como as suas lojas epónimas, sofra uma diminuição do volume de negócios nos primeiros três trimestres antes de verificar um aumento de 0,3% no trimestre da época de Natal. Em comparação, os retalhistas de artigos para a casa deverão conhecer um aumento de 16% nos lucros no primeiro e no segundo trimestres.

A juntar à advertência da Perry Ellis International de que os retalhistas estão a ser cautelosos com os seus inventários, somam-se outros sintomas de um mercado em dificuldades: a Buckle, que vende vestuário para adolescentes, evidenciou uma queda de 11% nas vendas em março e a Gap registou uma descida de 6%, superior à esperada, nas vendas comparáveis também no mês passado.