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Retalho em dificuldades

Segundo alguns analistas, é de prever o encerramento de mais retalhistas nos próximos meses, à medida que os consumidores cortam ainda mais os gastos face ao aumento dos preços, especialmente nos combustíveis, restrições nos aumentos salariais, falta de crédito, insegurança no emprego, estagnação no mercado imobiliário, medidas governamentais de austeridade e receios da subida das taxas de juros. Nos últimos meses assistiu-se ao colapso de uma série de nomes bem conhecidos do retalho, incluindo a Oddbins (bebidas), Focus DIY (bricolage), Habitat UK (mobiliário), Moben Kitchens (proprietário da Homeform), Jane Norman (moda) e TJ Hughes (grandes armazéns de preços baixos). Mesmo os retalhistas ainda no negócio estão a encerrar alguns pontos de venda à medida que a procura diminui e o comércio se desloca para a Internet. A Mothercare (puericultura), Thorntons (chocolates), Carpetright (revestimentos) e Comet (componentes eléctricos) planeiam encerrar centenas de lojas no conjunto. Estas são más notícias para os proprietários e para as comunidades locais, particularmente em áreas menos favorecidas, por onde geralmente os retalhistas começam a encerrar as lojas. A cidade inglesa de Harlow, onde um quarto das propriedades de retalho estão vazias, é um caso concreto. Dados oficiais recentes revelam que o rendimento familiar disponível real estava 2,7% abaixo no primeiro trimestre, em relação ao ano anterior, a maior queda anual desde 1977. «Prevejo que existam mais insolvências», diz Lee Manning, “partner” de reorganização de serviços na empresa de consultoria Deloitte. O responsável refere que a nova onda de insolvências no retalho poderá ser pior do que a registada no final de 2008 e início de 2009, no auge da crise do crédito, quando diversos nomes conhecidos, incluindo: Woolworths, MFI, Zavvi e Viyella, encerraram actividade. Manning considera ser provável que mais nomes de relevo fechem portas. «Temos conhecimento de um ou dois que ainda não estão com bom desempenho (…) Será de esperar mais algumas baixas», afirma. Os dados do Serviço de Insolvência mostram que as insolvências no sector de retalho aumentaram 55%, das 80 no quarto trimestre de 2010 para 124 no primeiro trimestre deste ano. Os analistas prevêem que o número seja maior no segundo trimestre. O governo espera que Mary Portas, consultora de retalho e personalidade televisiva, possa apresentar solkuções. A consultora foi contratada para encontrar formas de reavivar as ruas principais, onde as taxas de desocupação das lojas mais do que duplicou para 14,5% nos últimos dois anos, de acordo com a Local Data Company. No entanto, regenerar os centros urbanos vai provavelmente custar dinheiro que o governo não se pode dar ao luxo de despender quando está precisamente a cortar os gastos para reduzir um défice orçamental recorde. Os retalhistas que vendem bens discricionários com preços mais elevados (como grandes electrodomésticos e mobiliário) e os que possuem ofertas on-line pouco desenvolvidas são os mais vulneráveis. Brian Green, “partner” da empresa de consultoria KPMG revelou que o fundador e director executivo da Carpetright, Philip Harris, que vende tapetes há 53 anos, descreveu o ambiente actual como «os momentos mais difíceis que já passamos». «Se ele está a pensar assim e tem tanta experiência no retalho, boa sorte para os outros», diz Green. A recente onda de insolvências no retalho esteve associada ao final do mês de Junho, período de pagamento das rendas das lojas. O próximo ponto crítico para os incumprimentos no retalho vai provavelmente ser o final de Setembro, quando se vencerem as rendas do quarto trimestre. Nessa altura, a maioria dos retalhistas tem a pior posição de caixa do ano, com os compromissos das existências para o Natal. A situação crítica pode ser agravada pela relutância dos bancos a financiamentos adicionais para apoiar os retalhistas em dificuldade. «Existe vontade em financiar bons retalhistas, mas há uma vontade limitada para os retalhistas médios e não querem apoiar os com pior desempenho», conclui Green.