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Retalho em transformação na Europa

A pandemia veio afetar os hábitos dos consumidores, que cada vez mais preferem as lojas locais em vez dos grandes centros comerciais. O panorama do sector do retalho está, por isso, em transformação e os indícios são ainda pouco animadores, com o tráfego nas lojas em queda por todo o continente, incluindo em Portugal.

[©Time Magazine]

As lojas e os shoppings nos centros das cidades podem ter perdido o encanto durante a pandemia, devido ao confinamento e ao facto das pessoas terem receio de frequentar espaços muito movimentados. A situação beneficiou as lojas situadas em áreas residenciais ou perto delas, que continuam a ser procuradas por consumidores que não querem ainda embarcar em aventuras muito longe de casa, destaca a Reuters.

Apesar das vendas de retalho na zona euro terem disparado 17,8% no mês de maio e em Inglaterra os níveis se terem aproximado dos valores registados no pré-pandemia para o mês de junho, os compradores estão a adotar práticas de consumo cada vez mais locais, o que faz com que os lugares comerciais mais reconhecidos da Europa, como o West End em Londres e a Kurfürstendamm em Berlim, fiquem numa situação difícil com a ausência dos trabalhadores de escritório, que têm a possibilidade de estar em teletrabalho, e dos turistas, que para além do receio pessoal estão sujeitos a várias restrições nas deslocações entre países.

Nas principais ruas comerciais da Alemanha em Hamburgo, Colónia e Berlim, o declínio registado no mês de junho foi de 50% comparativamente com o mesmo período do ano anterior, de acordo com a German Retail Federation. Já o West End em Londres sofreu uma queda de 75%, segundo a New West End Company, uma associação de retalhistas e proprietários da zona.

Com a chegada do vírus, os hábitos de compra dos consumidores alteraram-se e, por isso, muitos preferem recorrer ao online ou às lojas mais próximas dos respetivos locais onde residem para adquirem os produtos que pretendem. Dados da Ernst & Young revelaram que 46% dos consumidores da Europa preferem comprar mais localmente do que antes da pandemia, uma decisão que tencionam manter a longo prazo.

Estas alterações no consumo que vieram beneficiar as lojas locais podem afetar significativamente os lucros dos principais proprietários de retalho na Europa como a Unibail-Rodamco-Westfield, a Klepierre – que em Portugal gere o centro comercial Parque Nascente – e a Carmila, com a sua combinação de centros comerciais no meio da cidade e arredores. Prova disso são as declarações à Reuters da alemã ECE, que opera aproximadamente 200 centros comerciais na Europa, e que constatou que nos espaços com uma base de consumidores locais, o consumo se está a aproximar do nível pré-pandemia, enquanto os locais situados no centro da cidade estão apenas a receber dois terços da quantidade habitual de clientes.

Em Inglaterra, os consumidores estão a optar por comprar nas áreas residenciais não só produtos de primeira necessidade, mas também outro tipo de artigos como vestuário, que, por norma, costumavam adquirir, segundo Jonathan de Mello, da consultoria de retalho Harper Dennis Hobbes, numa ida ao centro da cidade. «As pessoas estão a ser muito cuidadosas em relação ao lugar e às vezes que compram», afirma.

A consolidar esta declaração surge um inquérito da YouGov, que contou com a resposta de 1.032 britânicos que revelaram sentirem-se desconfortáveis ao visitar um espaço de retalho fechado como os centros comerciais. «O que chegou a ser uma experiência de compra fantástica num local central é agora somente um lugar cheio de riscos», explica Andrew Cosgrove, analista líder de consumo global na Ernst & Young.

Os pontos de venda no centro de Londres e nas grandes cidades do Reino Unido, o tráfego no período de 14 de junho a 12 de julho registou uma queda de 69,2% e 75% em relação às mesmas datas do ano transato, verificou a empresa de análise de dados Springboard.

As ruas comerciais nas cidades mais pequenas registaram um declínio de 42,1% e nos subúrbios de Londres a descida foi de 40% nos, um desempenho mais positivo em cerca de um terço do que a situação no centro da capital inglesa.

Futuro incerto

A queda acentuada nas vendas das lojas situadas nos centros das cidades já fizeram com que os grandes retalhistas dessem um passo atrás na estratégia de expansão dos negócios. Em Inglaterra, a Marks & Spencer e a John Lewis, assim como muitos outros, já tomaram a decisão de encerrar várias lojas e também recorreram ao lay-off.

[©BBC]
Algumas cadeias de retalho mais pequenas que estavam já em situações difíceis antes da pandemia chegaram mesmo a colapsar e outras, como a operadora de centros comerciais Intu Properties, que detém o Trafford Centre de Manchester, foram forçadas a entrar em insolvência por terem dívidas elevadas.

De acordo com a Ernst & Young, na França, Dinamarca, Alemanha, Finlândia, Noruega, Suécia e Reino Unido, pelo menos 40% dos consumidores estão a visitar as lojas físicas com uma menor frequência e apenas entre 20% e 35% estão a comprar mais online, o que acaba por não ser suficiente para colmatar o declínio das vendas nas lojas tradicionais.

Ainda que tenha havido uma recuperação nas vendas à medida que as cidades foram desconfinando, a retoma não foi assim tão sólida como os retalhistas faziam prever. A Springboard estima que na semana com início a 6 de julho, o tráfego nos retalhistas na Europa Continental tenha ficado um quinto abaixo dos valores registados na mesma semana do ano passado e mais baixo 40% no Reino Unido.

A moda e o calçado são os segmentos de retalho mais afetados, com as coleções de primavera, em muitos países também de verão, desperdiçadas devido ao confinamento. Mesmo que as vendas de vestuário e calçado tenham aumentado no Reino Unido em junho em comparação com maio, os valores registados continuam a estar 35% abaixo dos níveis pré-pandemia.

Em países como Portugal e Espanha, que ainda enfrentam bloqueios parciais em algumas zonas específicas devido a surtos de coronavírus localizados, a afluência nos espaços de retalho como centros comerciais, restaurantes e cafés está 20% abaixo dos níveis pré-pandemia, sugerem os dados de mobilidade da Google.

Com a pandemia a persistir, alguns retalhistas acreditam que ainda estão por vir muitas dificuldades. Na Alemanha, a maior economia da Europa, um terço dos 400 lojistas inquiridos sente que a sua existência está a ser ameaçada, revelou um estudo de junho da German Retail Federation. «Se considerarmos que a Alemanha é uma economia forte na Europa, isto é um indício preocupante para a região», conclui Neil McMillan, diretor de assuntos de políticos e de comércio do Eurocommerce, um grupo de lobby do retalho.