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Retalho renova aposta

Para jÁ contam-se pelos dedos da mão. Abertas recentemente, não têm ainda histórico que permita afirmar que é “o” caminho certo a seguir para sair da crise que afecta as lojas multimarca em França. Mas é um caminho. Desde hÁ alguns meses para cÁ, uma nova espécie de multimarca emergiu. Grandes em tamanho (de 500 a 1.500 m², às vezes até mais), olham para as cadeias de moda de frente, sem qualquer complexo de inferioridade. Não lhes fazem concorrência frontalmente – era preciso ser pretensioso, ou idiota, para querer lutar contra gigantes mundiais como a Zara ou a H&M», comenta um dos comerciantes multimarca – e instalam-se nos nichos deixados livres pelos “mastodontes”. Estes comerciantes empregam os meios das cadeias, sem lhes seguir o fundamento. Deste modo, oferecem a escolha em serviço livre juntando ao mesmo tempo o que as diferencia e as enriquece: a selecção de marcas diferentes. Ao contrÁrio das cadeias, construídas a partir de um esquema único, não hÁ duas multimarca deste tipo idênticas. Cada uma é única, pela sua decoração e pela sua selecção. Com efeito, a maior parte delas reproduzem em grande formato o que jÁ detinham em formato mais pequeno. Uma loja multimarca de 100 a 150 m² não é hoje suficientemente representativo para clientes habituados a uma oferta gigantesca», sublinha Christian Miran, que têm duas enormes lojas de jeans, de 1.000 e 1.900 m². Os profissionais que se lançam fazem muitas vezes a mesma constatação: para continuar a existir, é preciso crescer. Ocupar o lugar, em todos os sentidos, adquirindo espaços similares, às vezes maiores, do que os das cadeias e tornando-se tão visíveis como elas. Propondo uma oferta também variada, mas cultivando a sua diferença. Miran acredita também que o futuro estÁ na periferia e não no centro das cidades. Uma visão partilhada por Rémy Golfier, que abriu hÁ três anos a Intim Lingerie – 500 m² dedicados à roupa interior na zona comercial de Clermont-Ferrand. A periferia evolui com retail parks de nova geração e as formas de consumo seguem-nos», assegura. Aí hÁ escolha, facilidade de acesso e comodidade para estacionar – três critérios muito importantes». Insiste igualmente na diferença de custos: um aluguer no centro da cidade ou num centro comercial é quatro vezes mais alto do que o que pago aqui». HÁ contudo alguns obstÁculos a ultrapassar. Rémy Golfier foi confrontado com a dificuldade de atrair as grandes marcas, que estavam reticentes com uma implantação na periferia – uma questão de prestígio. Do outro lado da barricada, a clientela ficou surpreendida por encontrar marcas até então “reservadas” aos centros da cidade. O desafio maior foi mudar os hÁbitos», reconhece Golfier. A acessibilidade, comodidade e custos mais baixos podem substituir uma posição central, convivência e imagem? Outros profissionais crêem que não. Jean-Christophe Rabaud e Philippe Commault, em Nantes e Rennes, e Anita Liso, em Valenciennes, escolheram o centro. Mais caro é certo, mas mais prestigiante. Especializada no pronto-a-vestir de gama alta, Anita Liso não pensa deixar o centro de Valenciennes. Mas vê-se apertada nas suas três lojas, com 500 m² no total. A loja multimarca onde tudo estÁ fechado, onde não se vê a roupa, acabou», comenta Liso, que vende Hugo Boss, Kenzo, Burberry, Dolce & Gabbana, Armani Jeans, Indies, High, Girbaud e ainda Garella. O vestuÁrio de gama alta precisa de espaços luxuosos», sublinha. Jean-Christophe Rabaud, em Nantes, e o seu sócio Philippe Commault, em Rennes, são, à imagem dos anteriores, experientes na profissão. Persuadidos de que ainda hÁ espaço para as multimarcas», lançaram-se na aventura Crazy Republic no ano passado. Trata-se de duas lojas com mais de 1.000 m², em Rennes e em Nantes, consagradas aos jeans e ao sportswear. Possuem ainda duas lojas Scott Premium de 400 m², dedicadas ao calçado. Não revelam o valor das rendas, preferindo falar de objectivos. O de Rennes – 5 milhões de euros de volume de negócios – jÁ foi atingido. Nantes seguir-se-Á, tal como assegura Jean-Christophe Rabaud, que acredita que ainda hÁ lugar e futuro para lojas multimarca no centro das cidades. Não podemos ter lojas clone: as mesmas de uma cidade para outra, de um país para o outro. é preciso correr riscos, ter vontade de avançar. Quando se descansa à sombra do que se adquiriu, um dia, inevitavelmente, teremos um concorrente à porta. Lamentarmo-nos pela chegada de grandes marcas como a Zara ou H&M não serve de nada. Não digo que o caminho seja simples, mas que é possível». Quanto ao número de marcas, varia de uma loja para outra. HÁ todavia uma constante: uma gama de preços muito alargada para atrair o maior número possível de compradores. No que respeita à selecção e à gestão de stocks, estes independentes negoceiam com os seus fornecedores os prazos de pagamento, as retomas dos artigos não vendidos, as trocas de produtos e as operações promocionais das linhas menos vendidas. Estabelecer parcerias com as marcas é indispensÁvel», sublinha Rémy Golfier. Elas precisam de nós tal como nós delas, pelo que devem participar nos riscos». A questão das entregas é também um possível problema para estas lojas. Rabaud revela que alguns fornecedores estão ainda na pré-história. Quando, nas lojas em regime franchising da Esprit, tenho 12 colecções por ano, 90% a 95% dos meus 100 fornecedores da multimarca funcionam ainda com duas colecções por ano. Não tem lógica! Isso obriga-me a comprar 90% das colecções em Agosto-Setembro para o Verão seguinte. Mas quem é que actualmente pode dizer o que se venderÁ daqui a oito meses?». Para além deste desfasamento num mercado de moda que avança cada vez mais rÁpido, com tendências que mudam todos os meses, às vezes de 15 em 15 dias, Rabaud aponta ainda o dedo às entregas lentas, que se arrastam às vezes durante quatro meses. Tomamos riscos porque acreditamos», sustenta, mas as marcas devem trabalhar em concertação connosco, envolver-se realmente. Ainda é raro». Mesmo que estes problemas afectem, segundo eles, o seu desenvolvimento, as novas multimarcas continuam a seguir o seu caminho. Nenhum tem a receita ideal, não hÁ fórmula mÁgica. Nenhum quer ser dono da verdade absoluta, mas estão todos convencidos, como sustenta um deles, de ter apanhado o comboio certo». Propondo uma coisa diferente». Uma alternativa à linearidade das cadeias.