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Retalho sucumbe ao licensing – Parte 1

O Super-homem deixou de ser uma simples caricatura quando a sua figura saltou das páginas da revista Action Comic para a rádio, embora ninguém o visse todos tinham os ouvidos colados àquela "caixinha" que lhes permitia imaginá-lo num dos seus espectaculares voos sobre a sempre perigosa Metropolis. Depois, o "kriptaniano" criado por Joe Shuster e Jerry Siegel invadiu a televisão, o cinema e o mundo da moda. Inclusive é possível que as aventuras do super-herói tenham acompanhado a infância de Amancio Ortega, já que o dono do grupo Inditex nasceu em 1936 e o Super-homem chegou à Terra em 1938. Em todo o caso, esta suposta relação precoce tornou-se efectiva em 2005, quando a Inditex lançou no mercado várias colecções de t-shirts com marcas licenciadas pela Warner Bros. Consumer Products, estampadas com imagens do Super-homem e de outros heróis da casa.O caso da Inditex surge como um exemplo mais num mundo onde a diferenciação marca a diferença. «Cada dia é mais difícil competir num mercado cada vez mais aberto», afirma Victoria Fernández, directora de marketing da BRB International, empresa especializada na produção e distribuição de séries animadas cujos personagens são susceptíveis de licenciamento. «Quando alguém diz que apenas determinada empresa tem o direito de utilizar uma imagem, essa empresa sobressai do lote».«O licensing tem progredido em todos os sectores. Os produtores têxteis eram o exemplo típico de quem licenciava um produto para vender marcas conhecidas. Mas a prática chegou agora ao retalho, onde insígnias como Zara, Mango e H&M compram licenças para aplicar em determinadas colecções», revela Victoria Fernández.Begoña Díaz-Aguado, directora de licensing da Biplano, acrescenta que «a chegada das grandes cadeias de moda à área das licenças não constitui um facto circunstancial». Actualmente, os indícios revelam a dimensão que adquiriram as licenças e a Begoña Díaz-Aguado, cuja empresa está estreitamente ligada ao licensing, não faltam razões para afirmar esse facto. Por exemplo, a Women Secret, cadeia do grupo Cortefiel, deixou-se seduzir pelo canário mais famoso do mundo. O grupo espanhol assinou um acordo mundial com a Warner Bros. Consumer Products para desenvolver uma vasta colecção de roupa interior, pijamas, sapatilhas, acessórios, etc., com a imagem de Jerry, que acabou por se converter num ícone de moda e conquistar, de dia para dia, cada vez mais admiradoras.«A licença é um valor adicional que se confere ao produto. A grande vantagem é que quem compra a licença de uma marca pode desenvolver uma série de artigos com a imagem de algo que já tem uma repercussão mediática no mercado. Deste modo, se alguém comprar as imagens de Star Wars justo no momento em que é lançado um episódio da saga, inevitavelmente vai aproveitar a campanha de marketing subjacente e esse acontecimento», explica Begoña Díaz-Aguado. «Isto significa que com uma boa licença, as coisas têm outra transcendência, e as empresas já se aperceberam disso».Neste contexto, o mercado converteu-se numa espécie de vórtice, no qual todo o mundo quer entrar, sem limite algum, especialmente agora que a moda marca o ritmo. Joaquim Gomicia, director-geral da Optim, uma das principais fabricantes de armações de óculos em Espanha, explica que «o conceito de licença está estreitamente ligado à moda, especialmente no nosso sector. Uma licença não relacionada com a moda não tem demasiado interesse a não ser no caso de uma invenção técnica ou de um novo material».«A Optim quer estar no mundo da moda. Por isso, licenciamos marcas de moda. Além do mais, este é o caminho que o sector impõe», declara Joaquim Gomicia, cuja empresa detém a exclusividade de produção de óculos com as marcas Armand Basi, Agatha Ruiz de la Prada, Victorio & Lucchino, Adolfo Domínguez, Pedro del Hierro, Lois, etc.«A óptica é uma das indústrias que levou o licensing à sua máxima expressão», afirma Begoña Díaz-Aguado, referindo a relação existente entre Carolina Herrera e Indo, na qual, a primeira aporta o prestígio do seu nome e a segunda a sua experiência no mundo da óptica. «Há já muito tempo que a óptica está muito vinculada aos grandes designers de moda», sublinha, enfatizando que a ligação transcendeu os produtores e, tal como sucede no sector têxtil, está a chegar em força aos grupos de óptica especializados no retalho.