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Retalho titubeia no Reino Unido

A oscilação na confiança dos consumidores britânicos, bem como a potencial subida das taxas de juro e as preocupações sobre o referendo da UE são suscetíveis de afetar as vendas no retalho britânico este ano, uma situação que se acentua à medida que os consumidores se voltam para novos sectores para gastar o seu dinheiro.

A KPMG/Ipsos Retail Think Tank (RTT) fez soar, recentemente, os alarmes sobre as vendas no retalho do Reino Unido, cujo crescimento não deverá melhorar este ano, apesar de os consumidores terem mais dinheiro no bolso. «Com os salários finalmente a responderem ao estreitar do mercado de trabalho e com o poder de compra impulsionado pela queda nos custos de energia, as bases financeiras dos consumidores estão em excelente forma», afirma James Knightley, economista do grupo de serviços financeiros ING.

No entanto, o RTT destaca que a forma como as pessoas estão a comprar mudou fundamentalmente e que, apesar de o rendimento disponível dos consumidores ter subido, tal não se está a refletir nas caixas registadoras do retalho. Fatores como o reembolso antecipado de hipotecas estão a absorver uma grande percentagem dos gastos dos consumidores e continuarão a fazê-lo em 2016, adverte o Think Tank. As incertezas sobre o referendo da União Europeia e a potencial subida das taxas de juro contribuem, também, para as indecisões relativas ao comportamento do consumidor britânico. Knightley acrescenta ainda a inflação global e a queda no preço do petróleo como motivo do nervosismo de consumidores e retalhistas. Uma complicação adicional para estes últimos será a implementação do National Living Wage (rendimento que tem por base o custo de vida local) até abril, o que terá, segundo o RTT, impacto nas disparidades salariais, descontos e pensões.

A maioria dos retalhistas, refere ainda o RTT, terá de analisar como a sua produtividade poderá ser melhorada através do uso mais eficiente dos recursos ou soluções tecnológicas.

Surfar na onda

A fim de ultrapassar da melhor forma a vaga de incertezas no próximo ano, o RTT sugere que os retalhistas adaptem os seus modelos de negócio e encontrem novas formas de melhor servir os clientes, tais como o fornecimento de uma experiência multicanal simplificada ou o investimento em inovação tecnológica – excluir a complexidade, permitir compras mais rápidas e adicionar inteligência para tornar a experiência mais pessoal e gratificante serão as chaves do sucesso.

Outro fator relevante para o retalho é a chamada “dieta das promoções”. Isto é, ainda que as promoções, usadas ​​tradicionalmente como uma reação à desaceleração nas vendas ou à necessidade escoar o stock, sejam agora uma constante e tenham transformado os consumidores em “viciados em descontos”, estes têm começado a planear os seus gastos antecipadamente e em torno de compras com as melhores ofertas. Os retalhistas, por conseguinte, precisam de novas estratégias que economizem o dinheiro dos consumidores, e, ao mesmo tempo, gerem procura. «As promoções terão de ser multicanal, o que traz consigo um risco adicional aos custos da cadeia de aprovisionamento mas, mais importante, as estratégias precisam ser de base tecnológica, onde os dados são a chave para a tomada de decisões», explica Mike Watkins, diretor da retalhista da Nielsen.

Outra oportunidade para os retalhistas britânicos será o comércio eletrónico transfronteiriço. De acordo com os dados da Paypal, 86,4 milhões de consumidores de 29 países compraram online no Reino Unido no ano passado.

Em última análise, «ainda que 2016 seja provavelmente um ano muito mais positivo em termos de crescimento, nem todos os retalhistas e sectores serão beneficiados», alerta a analista Maureen Hinton da consultora Conlumino. «Uma economia em crescimento não vai resolver os problemas de como lidar com as mudanças fundamentais na forma como os consumidores compram, nem com os custos crescentes provenientes da satisfação das suas expectativas», concluiu a analista.