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Retrato do milénio – Parte 1

A nova geração, frequentemente apelidada de preguiçosa e narcisista, encara a vida de uma forma completamente diferente, mostrando um desejo de abrandar, viver o momento e, em último caso, aumentar a produtividade, através de novas atitudes mais conscientes.

three girls chatting with their smartphones

As estatísticas sugerem que esta nova geração, designada na anglofonia de Millenials, concede mais importância a uma alimentação saudável e à prática de exercício do que qualquer outra que a antecedeu, e as drogas, em conjunto com o tabaco e o álcool, parecem-lhes menos apelativas do que aos seus antecessores. A proporção de jovens entre os 16 e os 24 que opta por não consumir álcool aumentou 40% na última década no Reino Unido, segundo o instituto nacional de estatística britânico. O consumo de tabaco entre os adolescentes caiu de 9% para 3% nos últimos 10 anos, enquanto o número que admite o consumo de drogas ilegais diminuiu 50%.

De acordo com os dados recolhidos pela empresa de media e tecnologia Vocativ, provenientes de fontes como o Instituto de Estudo da Política Económica, o Departamento de Justiça americano e o Centro de Controlo e Prevenção de Doenças, a geração americana do novo milénio é mais cumpridora do que a sua predecessora. O consumo de álcool e drogas, a gravidez na adolescência e o crime violento diminuíram nos últimos 20 anos, excetuando o consumo de canábis (que aumentou em 38%, em consequência da postura liberal assumida por uma parte substancial dos Estados Unidos).

O estudante puritano
Para as gerações anteriores, o ingresso no ensino universitário significava um momento de hedonismo patrocinado. No entanto, um mercado de trabalho cada vez mais instável e crescentes restrições financeiras têm redefinido o conceito de estudante. De acordo com um relatório recente publicado no Financial Times, os estudantes britânicos optam por, cada vez mais, conjugar a formação com um trabalho em part-time. «Eu preferia sair mas quando o fiz no ano passado perdia as aulas da manhã no dia seguinte», afirmou um estudante da Universidade de Exeter. «Se não estou na biblioteca, estou nas aulas ou no trabalho – não tenho tempo para mais nada». Os festejos do passado foram substituídos por uma abordagem mais puritana, focada na forma como os futuros empregadores vão encarar os curricula e na forma de saldar as propinas devidas à instituição. O trabalho voluntário ou em regime part-time e as noites passadas na biblioteca estão, paulatinamente, a substituir as celebrações notívagas.

O mesmo se verifica nos EUA, onde as perspetivas de emprego pouco promissoras para aqueles com idade inferior a 25 anos obrigam-nos a permanecer mais tempo em casa dos pais. Em comparação com 1993, mais estudantes do ensino secundário prosseguem para o ensino superior e o número total de estudantes de licenciatura e mestrado está a aumentar. O foco crescente nos estudos e a ansiedade face à entrada no mercado do trabalho faz temer por uma degradação da experiência universitária. Num momento em que os estudantes se veem, cada vez mais, como um produto que tem de ser vendido no mercado, coloca-se a questão sobre o espaço concedido à educação no cultivo da criatividade e liberdade intelectual.

Bem-estar semanal
As constantes advertências sobre os efeitos negativos do consumo de álcool nos padrões de sono, níveis de energia, flutuações de humor e desempenho físico, acompanhadas, frequentemente, de imagens dissuasoras nos media sociais, têm contribuído, sem surpresa aparente, para o aumento do número de abstémios. Esta tendência tem contribuído, de forma determinante, para a emergência de novas formas de socialização. O bar londrino Redemption oferece uma experiência não alcoólica, assim como o novo clube noturno de Estocolmo Sober, enquanto sessões de ioga, meditação, aulas de ciclismo e surf substituem os tradicionais bares e discotecas.

Catherine Salway, do bar Redemption, desenvolveu a marca em resposta direta a pesquisas que revelam que os jovens tendem, cada vez mais, a substituir o consumo de álcool por um estilo de vida mais saudável. «Os jovens lideram a tendência não-alcoólica e esperamos tomar parte deste momento», explicou Salway. «As pessoas estão tão envolvidas no ioga, com ênfase no bem-estar físico e espiritual, que não se coaduna com o estilo de vida “trabalhar duro, jogar duro” de labuta semanal, aliviada em fins-de-semana alcoolizados».

Um propósito superior
As religiões organizadas convencionais debatem-se com dificuldades em cativar membros mais jovens, facto suportado pelo estudo realizado em 2014 pelo centro de investigação Pew, “Millenials in Adulthood” (Millenials na Idade Adulta).

Esta nova geração identifica-se cada vez mais como «não afiliada» a organizações religiosas, mas 37% ainda se consideram espirituais. Enquanto as religiões tradicionais enfrentam dificuldades no acesso a este público, a espiritualidade adquire nova preponderância entre a geração Y, que procura um propósito superior no seio de uma sociedade progressivamente descrente.

Meditação repensada
A antiga prática da consciência plena ganha popularidade, à medida que cada vez mais pessoas se sentem atraídas pela ideia de se concentrarem no momento. A nova geração foi criada num mundo em constante atividade, onde a gratificação instantânea é esperada e a paciência é considerada uma virtude do passado. No entanto, uma pesquisa produzida pelo centro JWT Intelligence revelou que sete em cada dez jovens estão interessados em melhorar a sua capacidade de foco num mundo repleto de distrações digitais.

Como destacado por Arianna Huffington na obra “Thrive”, a ligação entre consciência, saúde, meditação e sucesso no trabalho é prevalecente entre a nova geração milénio. A prioridade não é alcançar o equilíbrio entre a vida profissional e pessoal, mas consolidar a integração de ambas as vertentes. Várias empresas optam agora por incorporar períodos de relaxamento nos horários laborais atarefados através da arte da meditação, repensada como uma ferramenta de fomento da produtividade.

Suze Yalof Schwartz, editora demissionária da Vogue, inaugurou um estúdio de meditação orientada em Los Angeles. O espaço minimalista, isento das convencionais estatuetas de Buda, disponibiliza aulas de 30 a 45 minutos dispersas ao longo do dia e sessões que abordam os problemas do quotidiano, como ansiedade, alimentação consciente e medo de andar de avião.

Na segunda parte deste artigo serão abordadas outras tendências emergentes adotadas por esta jovem geração de consumidores, que substitui os bens materiais pelo benefício de uma experiência enriquecedora e privilegia um estilo de vida saudável, acompanhado de atividade física e meditação, assim como um regime alimentar inovador, capaz de potenciar a concentração e a produtividade.