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Revenda impulsiona sector do luxo

As vendas dos artigos de luxo estão a ser alavancadas pela revenda. Os consumidores têm, assim, a oportunidade de se conectarem com as grandes marcas a preços mais baixos, o que pode ser o bilhete de entrada para uma estadia permanente no mercado em primeira mão.

Ao contrário do que se pensa, a revenda não constitui uma ameaça para a indústria de luxo. Um novo estudo do Boston Consulting Group (BCG) e da especialista em revenda Vestiaire Collective revela que a compra de artigos em segunda mão impulsiona as vendas do mercado e que as marcas de luxo devem ser mais recetivas a esta prática.

A análise teve como base dados de mais de mil clientes da Vestiaire Collective, recolhidos em 2018, e mais de 12 mil participantes do inquérito BCG – Altagamma do corrente ano. Uma das conclusões incide no facto da revenda ser um «mecanismo de recrutamento» para marcas de luxo, uma vez que os vendedores de artigos em segunda mão são, habitualmente, aqueles que compram os artigos de alta gama novos. A revenda é também uma «ótima forma de melhorar a sustentabilidade».

Apesar de existir há vários anos, o mercado de artigos em segunda mão só despoletou há bem pouco tempo. A ideia de que a revenda podia prejudicar as grandes marcas adiou, por momentos, a afirmação independente de especialistas nesta área.

Prevê-se que, nos próximos anos, as vendas globais de revenda cresçam cerca de 12% ao ano em comparação com um aumento de 3% das vendas de artigos de luxo em primeira mão. Estima-se que a rotatividade aumente de cerca de 22,5 mil milhões de euros para aproximadamente 32,4 mil milhões de euros até 2021. Se isto se verificar, a revenda passa a representar 9% do total do sector de luxo a nível mundial.

O resultado do estudo sugere que o mercado de revenda não deve ser ignorado, ainda que algumas marcas não desejem aderir a esta prática. A análise mostrou que os compradores de luxo de artigos em segunda mão são «geralmente consumidores que não têm acesso ao mercado de luxo primário, visto que 71% dos compradores de revenda inquiridos inclinam-se mais para comprar marcas de luxo que não conseguiriam em primeira mão». Esta revelação indica que as marcas de luxo têm agora uma oportunidade para se conectarem com os consumidores que, de outra forma, não comprariam a marca. «É uma maneira poderosa das marcas se ancorarem na mente dos futuros clientes primários. À medida que os clientes de artigos de luxo em segunda mão vão amadurecendo, o poder de compra tem tendência a aumentar, o que os prepara para o mercado primário», refere o relatório.

62% dos inquiridos indicaram que compraram uma marca que gostam pela primeira vez em segunda mão no Vestiaire Collective e a maior parte dos consumidores incluídos nessa percentagem considera comprar a marca de novo. Os entrevistados ganharam gosto pela marca e 57% afirmaram estar recetivos a comprar essa marca em primeira-mão.

Vender para reinvestir

A revenda estende-se também aos consumidores de artigos em primeira-mão que se querem desfazer deles e recuperar parte do dinheiro para reinvestir em novos produtos.

32% dos vendedores inquiridos admitiram estar a vender para adquirir novos artigos, mas nenhum deles costuma comprar em segunda mão. Do total de vendas da Vestiaire Collective, 70% são criadas por vendedores que quase nunca compram em segunda-mão.

Nos últimos anos, muitas marcas de luxo tornaram-se mais sofisticadas e passaram a conseguir vender a preços ainda mais altos. 44% dos vendedores reconhecem que compram artigos mais caros e com mais frequência do que comprariam se o mercado de revenda não existisse.

Na ótica de um mundo mais sustentável, este novo mercado torna-se significativo para as marcas de luxo que se tenham apercebido disso. A Burberry e a Farfecth, por exemplo, anunciaram iniciativas nesse sentido recentemente.

A revenda é uma forma de prolongar a vida útil dos produtos que ainda estão em boas condições. Segundo o estudo, a maioria dos artigos disponíveis para venda nas plataformas de revenda «é de alta qualidade». O mercado de luxo de artigos usados fomenta a economia circular e vem responder a muitas petições que alertam os consumidores para a compra de artigos em segunda-mão com a sustentabilidade ambiental em mente.

Numa perspetiva generalista sobre os inquiridos, mais de 70% dos consumidores estão a comprar por questões éticas e 13% dizem que a sustentabilidade é muito importante para eles. Dos 70% questionados, 57% asseguram que o impacto ambiental é a razão principal.

Preço e variedade

Para os consumidores não são só as questões éticas que fazem com que a compra neste mercado seja aliciante. Os preços desempenham um papel crucial, com 96% dos utilizadores do Vestiaire Collective a visitar o website na estratégia de preços acessíveis.

Além do preço, o facto de os modelos anteriores das marcas de luxo estarem disponíveis online é um ponto a favor para a revenda. 62% dos consumidores procuram artigos que estão fora de stock. 83% garantem que a maior atração neste tipo de mercado é a grande variedade de produtos e marcas que podem já não estar disponíveis no mercado em primeira-mão. A juntar à lista de vantagens, as plataformas de revenda dispõem de uma política de marketing personalizada sustentada pela recolha de vários dados do utilizador.