Início Notícias Tendências

Revolução no underwear masculino

A roupa interior para homem não tem passado pelos mesmos problemas que a feminina – não existe um desfile de moda da Victoria’s Secret para boicotar nem um soutien para reinventar. Mas a falta de atenção mediática não significa que o mercado de underwear masculino não tenha passado por mudanças e crescimento.

Na sombra do mercado feminino, o segmento masculino de roupa interior – que a Trendalytics estima que irá valer mais de 16 mil milhões de dólares em 2035 (cerca de 14 mil milhões de euros) – tem vivido uma transformação. A maior mudança não passa pela composição da roupa em si, mas na forma como são compradas e vendidas as peças, segundo o Sourcing Journal.

Um novo relatório da First Insight destaca o crescimento do poder de compra do homem, defendendo que os homens compram com mais frequência do que as mulheres, tanto online como nas lojas físicas. Os dados indicam que as compras através de dispositivos móveis estão a crescer a um ritmo elevado entre o género masculino: o número de homens que reporta nunca ter feito compras com o telemóvel diminuiu significativamente de 48%, no ano passado, para 18%, este ano, enquanto no género feminino não se registaram mudanças significativas.

Além das grandes plataformas como a Amazon, os homens também estão a optar por marcas de venda direta ao consumidor para uma experiência de compra personalizada. Retalhistas da especialidade, como a Allbirds, a Untuckit ou a M.Gemi têm registado uma performance particularmente positiva com o género masculino. Entre os consumidores que fazem compras em várias categorias seis ou mais vezes por mês, 20% dos homens e 5% das mulheres optaram por lojas da especialidade.

As marcas que eles procuram

Uma das marcas em destaque no universo da roupa interior masculina é a Tommy John, que foi lançada em 2008, alguns anos antes do surgimento de startups do mesmo segmento, que incluem a MeUndies e a Mack Weldon. Ainda que a Tommy John seja atualmente conhecida como uma marca de venda direta ao consumidor, nem sempre foi assim, afirma Tom Patterson, fundador e CEO da empresa. «Quando lançamos a empresa, em 2008, na sua maioria eram as mulheres que compravam a roupa interior dos homens e em department stores. Com o passar dos anos, percebemos que podíamos escalar mais rapidamente e eficientemente online», explica Patterson.

Tommy John

De acordo com dados da Tommy John, em 2008, 65% das mulheres compravam a roupa interior dos homens. Os homens tinham poucas opções neste segmento, e, consequentemente, não se envolviam no processo de compra. Ao reparar nesta lacuna, a Tommy John investiu na loja online e reparou que os homens se tornaram consumidores mais ativos e envolvidos quando tinham a possibilidade de comprar diretamente. A tentativa da empresa de fazer dos homens consumidores mais ativos compensou e acabou por se refletir numa mudança mais vasta no mundo da roupa interior: atualmente, apenas 30% das mulheres fazem esse tipo de compra para os seus parceiros, garante a empresa.

As gavetas personalizadas

Laura Dweck foi outrora uma dessas mulheres. Numa ida às compras ao lado do seu marido, Michael J. Dweck, para renovar a sua gaveta de roupa interior, o casal descobriu que o processo de compra era trabalhoso e consumia demasiado tempo. Desse modo, Laura Dweck, que já tinha trabalhado na área swimwear e do calçado, cofundou a Basic Outfitters, com Michael J. Dweck, para resolver o problema.

A Basic Outfitters vende packs individuais de roupa interior, mas o seu serviço de destaque chama-se «cria uma gaveta». Esta opção permite aos consumidores escolherem meias, cuecas, camisolas interiores e um produto à escolha (como calças de fato de treino ou mais meias, por exemplo) por um valor de 70 dólares, comparado com 100 dólares que as peças custariam caso fossem compradas separadamente.

«Este serviço permite aos homens personalizarem o que compram sem que seja muito exaustivo», destaca Laura Dweck, acrescentando que o serviço inclui cerca de 50 mil combinações de meias, cuecas e outros artigos básicos. «A vantagem é que é possível comprar toda uma secção do guarda-roupa e poupar dinheiro ao mesmo tempo, o que é motivador», aponta.

MeUndies

A Basic Outfitters também vende alguns produtos na Amazon, uma decisão estratégica que Laura Dweck garante ser necessária para muitas marcas serem bem-sucedidas. «Quando olhamos para a Amazon, vemo-la como um espaço de compras para o consumidor. Queremos conquistar os consumidores enquanto estão a comprar e na esperança de os converter em compradores do serviço no nosso site», revela.

A estratégia da Tommy John é similar, ainda que a empresa tenha começado por vender na Neiman Marcus e na Nordstrom, antes de vender diretamente para os consumidores. «Gostamos de frisar que somos um negócio de omnicanal. Cada vez mais empresas vão reafirmar a sua aposta no conforto, na performance e na inovação ao longo dos próximos anos, mas apenas aquelas cujos negócios tem uma abordagem estratégica e sustentável vão ser bem-sucedidos de forma lucrativa», considera Tom Patterson.

A Tommy John e a Basic Outfitters também ampliaram o seu número de consumidores ao expandir a oferta de produtos para ir de encontro aos estilos e aos artigos com mais procura no universo masculino. Meias de conforto e roupa interior de performance estão a liderar a categoria, segundo dados da Trendalytics. Sem surpresas, os produtos mais vendidos da Basic Outfitters são meias de toque macio e boxers. Já a Tommy John está a expandir as opções na gama do underwear de performance. «Em relação ao underwear, o fitting e a qualidade são o mais importante. Realizámos muita pesquisa de mercado, mas a vantagem de fazermos venda direta ao consumidor é que as pessoas escrevem e dizem o que gostam ou não gostam, o que usamos como orientação», esclarece Laura Dweck.

Nos próximos anos, o mundo da roupa interior para homem deverá evoluir significativamente e Laura Dweck acredita que o crescimento irá acontecer principalmente no espaço criado pelas marcas de venda direta ao consumidor. «A inovação será sempre importante. As marcas de venda direta ao consumidor tendem a revolucionar o status quo, com o produto, mas também com valor e a comodidade. É por isso que as pessoas estão entusiasmadas por se envolverem», conclui.