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Revolução tecnológica

Os materiais de hoje são muito diferentes daqueles de há 40 anos», afirma Pascaline Wilhelm, diretora de moda da Première Vision, o salão de tecidos parisiense já com quatro décadas, onde tanto as casas de moda como as marcas da grande distribuição vão fazer as suas compras. Os avanços dos materiais alteraram radicalmente a peça-chave do guarda-roupa da estação fria: o sobretudo de lã, que voltou em força nos últimos desfiles, depois da moda dos blusões de penas e das parkas. «A principal qualidade do sobretudo de lã era ser quente. Os tecidos eram muito compactos», explica Pascaline Wilhelm. «O seu primeiro defeito era ser pesado», mas não só: «não era elástico, o tecido tinha o cair do cartão e a sua densidade impedia-o de moldar o corpo». Pior ainda: a lã frequentemente picava! Mas esse tempo ficou para trás. «Hoje podemos ter roupa justa e simultaneamente confortável. Os tecidos já não dificultam os movimentos, são mais flexíveis Devemos em especial agradecer ao elastano. Cada ano, em fevereiro, aquando dos desfiles de moda do inverno, «com o nosso olhar de especialistas, vemos uma evolução» do sobretudo, sublinha Pascaline Wilhelm. Essa evolução veio primeiramente das ovelhas, indica Jimmy Jackson da Woolmark, sediada na Austrália, país responsável por 80% das exportações de lã para vestuário. «Trabalhámos sobre a genética das ovelhas, fazemos uma seleção melhor», sustenta. «Mudámos a sua alimentação. Prestamos atenção ao bem-estar do animal», aponta. «Quando nós, humanos, comemos melhor, o nosso cabelo fica mais bonito. É a mesma coisa com a ovelha». Consequência: «a lã torna-se cada vez mais fina» e o sobretudo é «mais macio». Peter Ackroyd, igualmente da Woolmark, observa que já não precisamos de sobretudos tão quentes porque «temos menos necessidade de nos proteger do frio, com a generalização do ar condicionado e do aquecimento central». Ackroyd assinala o regresso do sobretudo em lã cardada, abandonado durante longo tempo, com o seu aspeto rústico, em detrimento do sobretudo em lã penteada, mais suave. «Mas com as novas técnicas, o tecido é mais leve, mais respirável», destaca. «Os tecidos são agora extremamente avançados (…) Centenas de homens, engenheiros, químicos, trabalham neles», acrescenta Pascaline Wilhelm. «Graças à técnica, os criadores têm menos limitações. Ganhámos no corte e tudo isso democratizou-se». A italiana Colombo produz tecidos com fibras nobres, como a caxemira, e fornece marcas de luxo. Três engenheiros trabalham na empresa somente sobre a evolução técnica do tecido. «Podemos cortar os artigos de forma completamente diferente com a performance técnica», confirma Roberto Colombo, mostrando orgulhosamente a mais recentes inovação, que incorpora materiais utilizados originalmente no desporto: um tecido dupla face composto por caxemira num lado e neopreno noutro, um material usado nos fatos de mergulho. Omnipresente nas criações de moda de autor das últimas estações, o neopreno «dá volume, uma flexibilidade incrível e leveza», enumera Roberto Colombo. A caxemira é também combinada com materiais impermeáveis. «A água escorre pelo casaco como num plástico», exulta.