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Riscos superam avanços no trabalho infantil

Um novo estudo revelou que as empresas de todo o mundo estão a fazer progressos para protegerem os direitos das crianças nas cadeias de aprovisionamento. No entanto, as melhorias têm de acontecer mais rápido, uma vez que os riscos continuam a suplantar os progressos.

O relatório “The State of Children’s Rights and Business: From Promise to Practice”, elaborado pela organização sem fins lucrativos Global Child Forum em colaboração com o Boston Consulting Group, analisou aproximadamente 700 das maiores empresas do mundo e a forma como atuam no que diz respeito à salvaguarda dos direitos das crianças. O estudo da Global Child Forum, é o segundo a nível global, desde 2014.

Ao comparar os resultados dos dois estudos, verifica-se que as medidas estão a caminhar na direção certa. Nos vários indicadores, foram encontradas evidências de fortes melhorias com progressos em quase todos os aspetos. Muitas empresas têm programas específicos em vigor como fazer doações ou adotar políticas para salvaguardar os direitos das crianças, principalmente o trabalho infantil.

A atenção com questões relacionadas com os direitos das crianças aumentou entre 13% e 30% nas empresas, o que é um bom indicador de que estas entidades estão a dar a devida importância ao tema, uma vez que já é discutido por membros de cargos relevantes nas empresas.

Contudo, a comparação dos dois estudos mostra que quanto maior a percentagem no ano de 2014, menor é a taxa de melhoria em 2019, o que revela que quando se atingem bons parâmetros, o progresso diminui.

«Os resultados indicam, claramente, que as empresas são melhor em implementar políticas (embora ainda estejam focadas no trabalho infantil) do que em demostrarem como colocam essas políticas em prática através da integração das mesmas nas operações da empresa», destaca o relatório.

«Em termos de impacto, as empresas, no geral, são mais fortes a relatar as várias ações e iniciativas que estão a executar para melhorar a vidas das crianças do que em serem transparentes nos resultados e no impacto das políticas que adotaram para proteger as crianças dos danos».

Melhorar a indústria de vestuário

O estudo descobriu a categoria “Consumer Discretionary”, que inclui a indústria de vestuário com 5.5, tornando-a o quinto grupo entre todas as categorias. Num panorama geral, as indústrias foram classificadas com pontuações médias entre 4.5 e 6.

Na categoria “Consumer Discretionary”, o trabalho infantil na cadeia de aprovisionamento é uma das áreas mais debatidas em comparação com outras indústrias. Segundo o estudo, a pontuação média para avaliar fornecedores em problemáticas como trabalho infantil é uma das mais altas. Ainda assim, como o trabalho infantil costuma ser uma questão sistémica e, por isso, impossibilita uma única empresa de resolver o problema por conta própria, a indústria aparece no grupo inferior quando se trata de colaborar com colegas ou parcerias público-privadas (4.6 em 10).

Nas avaliações dos fornecedores, a categoria foi classificada com 6, enquanto as políticas de marketing responsável obtiveram 2.5.

A análise encontrou ainda uma discrepância maior nas pontuações médias em todas as categorias de várias regiões comparativamente com outros sectores. A Europa evidenciou a maior pontuação média, a América Latina e as Caraíbas a segunda maior, seguidas pela América do Norte. Esta região destaca-se em comparação com outras regiões, à exceção do Médio Oriente e do Norte de África, num aspeto importante: uma grande parte das empresas não informa sobre os riscos dos direitos humanos em geral (80%) e apenas 11% reportam os riscos de trabalho infantil. Estes valores são comparáveis a 50% das empresas europeias que não transmitem estes tópicos e 37% dessas empresas mencionam especificamente riscos associados ao trabalho infantil. Na África subsariana, 65% não referem de todo e 17% comunicam os riscos ou os acidentes de trabalho infantil.

Além da Nike, que conquistou uma pontuação de 8.5, poucas são as empresas norte-americanas que se revelam líderes nesta temática. O estudo sugere que a falta de transparência em relatar este tipo de questões está relacionada com medos contenciosos.

Na Europa, a Adidas lidera a lista com uma pontuação de 9.4, seguida pela Inditex com 9.2, Marks & Spencer (8,8) e H&M (8,3). Na Ásia-Pacífico, a Fast Retailing está no topo da lista com 8.1.

«Os riscos para as crianças, num contexto de negócio, vão muito além do trabalho infantil, as empresas afetam as crianças com produtos e serviços, métodos de marketing, relacionamentos com governos locais e nacionais e investimentos em comunidades locais», explica Johan Öberg, diretor-executivo do Boston Consulting Group. «O relatório de 2019 oferece oportunidades claras para a comunidade empresarial fazer a diferença, melhorando os relatórios, contabilidade e o entendimento do impacto das práticas de negócio nas crianças», aponta.