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Robots em saldo

A queda nos preços dos robots industriais e nas câmaras usadas na maquinaria de precisão significam que a verdadeira automação está a caminho de transformar os mais baratos produtos de costura.  

Um exemplo de destaque é a SpeedFactory da Adidas, unidade que a empresa abriu recentemente no sul da Alemanha (ver Calçado nas mãos de robots). Os robots vão começar a fabricar o calçado desportivo da marca no próximo ano e um empreendimento semelhante nos EUA está já na calha. O objetivo é aumentar a flexibilidade e reduzir os stocks, aproximando a produção do mercado.

Com menos cobertura mediática, os robots estão já a costurar toalhas de banho e cortinas, calças de ioga e capas para tábuas de passar a ferro.

Recorrendo a um sistema controlado por computador da Jeanologia, empresa com sede em Valência, Espanha, os fabricantes de jeans podem substituir homens por lasers. A tecnologia Light Scraper da Jeanologia, lançada em fevereiro de 2015, confere diferentes efeitos ao denim através do simples pressionar de um botão. A tecnologia incorpora uma lixa virtual que substitui o processo manual, causador de tendinite crónica, problemas musculares e dificuldades respiratórias nos trabalhadores (ver Denim em transformação).

«No ano passado houve mais de 70 tipos diferentes de produtos nos quais implementámos dispositivos de automação», revela Frank Henderson, CEO da Henderson Sewing Machine Co., no Alabama, EUA, ao portal The Business of Fashion (BoF) citando exemplos que vão desde coleiras para cães a coletes à prova de bala.

Na recente feira da especialidade TexProcess Americas, em Atlanta (que decorreu de 3 a 5 de maio), Henderson guiou convidados internacionais até ao seu stand, onde mostrou algumas das tecnologias da empresa. Máquinas que costuravam bolsos nos jeans e a entretela dos colarinhos, que colocavam o elástico na cintura da roupa interior e aplicavam fechos de velcro constituíam algumas das ofertas da empresa. Coordenadas por um único operador humano, cada uma fazia o trabalho de várias costureiras – mais rápido e com maior precisão.

Com a integração de máquinas e pessoas de vários países, a cena sugeriu uma história de produção diferente daquela que se contava sobre robots sem alma que viriam para substituir o trabalho dos americanos.

Mais automação significa mais costura nos EUA e noutros países desenvolvidos. Mas, contrariamente aos sonhos de reshoring dos líderes (ver Produção regressa a casa), a costura automatizada não resultará num retorno ao emprego industrial em massa. Esta gera apenas melhores salários para os locais. Trata-se de aumentar a produtividade e valor para o consumidor, e não de colocar mais pessoas a trabalhar.

Há, também, o exemplo do modelo Baxter com dois braços da empresa sediada em Boston, Rethink Robotics, que substitui completamente o operador, alimentando uma máquina de costura de duas cabeças sem intervenção humana. «Custa 25 mil dólares [aproximadamente 22,4 mil euros)», disse Henderson aos convidados. «Não fica doente nem tira férias». Com preços assim, os robots já não estão limitados a fazer artigos de custos elevados, como automóveis.

Entretanto, na indústria começaram a ser adotadas as chamadas “células de trabalho autónomo”, nas quais as máquinas fazem todo o trabalho. Numa entrevista, Frank Henderson citou como exemplo um projeto para uma empresa que confeciona um produto muitas vezes personalizado com logotipos. O cliente costumava empregar 27 pessoas na China, expedindo 9,5 milhões de unidades para os EUA a cada ano. O transporte poderia levar cerca de nove meses e se a empresa escolhesse cores que acabavam por ser impopulares, a produção ficava empatada.

Para levar a produção para mais perto dos clientes, seis fornecedores, incluindo a Henderson Sewing, colaboraram para criar um novo sistema instalado nos EUA que começava com o cliente a fazer a encomenda online e terminava com a caixa carregada num camião no dia seguinte.

«Nós cortamos o produto, estampamos, secamos, enviámo-lo para 10 células de trabalho autónomas – máquinas de costura –, costuramos, invertemos, embalamos, dependendo do tamanho do pedido, pequeno, médio ou grande, marcamos a caixa, selamos a caixa, colocamos o código de barras e colocamos o produto num camião», explica Henderson. «Sem o toque de nenhuma pessoa», precisa. Três trabalhadores – um por turno – acompanham todo o processo.

O investimento da empresa apontada por Henderson, segundo o próprio, foi recuperado em menos de 10 meses, principalmente por reduzir os custos de inventário, e o cliente, desde então, replicou o sistema em sete pontos à volta do globo.

Cortar no pessoal não é objetivo

Embora a automação da confeção reduza o número de trabalhadores, cortar no efetivo não é o objetivo principal. «Por que motivo iria eu automatizar algo que já é barato de qualquer maneira?», questiona K. P. Reddy, o CEO da Softwear Automation, uma startup sediada em Atlanta que recorre à maquinaria para conduzir sistemas de costura. Em vez disso, a automação promete um retorno mais rápido, menores custos e maior precisão.

Esta é uma boa notícia para retalhistas e consumidores, uma má notícia para o Bangladesh. Os postos de trabalho em risco são os que incluem tarefas repetitivas, que requerem pouca qualificação e que têm sido, para os locais, a saída da pobreza. Essa via pode estar prestes a ser fechada.

Um dos softwares da empresa Softwear Automation, por exemplo, coloca a agulha com a maior precisão possível através de uma espécie de mapa topográfico do tecido. «Temos uma precisão de meio milímetro», destaca Reddy. «A maioria dos seres humanos não consegue sequer saber o que isso é. Podemos fazer coisas como costurar um círculo perfeito, que um ser humano não pode fazer», acrescenta.

Igualmente importante, estes softwares desempenham as suas funções a um preço que promete um retorno em dois anos, graças a câmaras que custam umas centenas de dólares, em comparação com os milhares de alguns anos.

A Softwear Automation assumiu, à partida, que os seus principais clientes seriam os produtores norte-americanos de vestuário. Em vez disso, encontrou o mercado imediato nos têxteis- lar, «cortinas, toalhas, tapetes de banho, todas as coisas planas que vão para as casas» e virou-se para o vestuário há apenas três meses.

Uma solução para a China

As empresas chinesas, em particular, preocupam-se com a iminente escassez de força de trabalho, com os trabalhadores jovens a fugirem das aldeias onde as fábricas estão localizadas. «Todos querem viver nas cidades», afirma K. P. Reddy. «Então, quando falo com essas empresas, dizem-me que durante 10 anos estiveram bem, mas que agora não há nenhum talento. “Ao décimo primeiro ano, não há ninguém aqui”». Querem começar a planear já a falta de pessoal.

A história de Reddy ecoa a contada por Frank Henderson sobre como, no final de 1980, os postos de trabalho na indústria têxtil começaram a sair dos EUA porque os fabricantes não encontravam trabalhadores locais suficientes. «A fim de expandir os seus negócios, tiveram de mudar de país», refere.

Com o passar dos anos, resume o BoF, muitos esqueceram-se de quão aborrecido pode ser o trabalho na indústria e, que quando as pessoas conseguem alguma estabilidade financeira, tendem a optar por uma maior flexibilidade e variedade. Os robots, por seu turno, nunca se cansam.