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Robots no futuro da confeção

Embora a mão de obra humana seja indispensável, no horizonte da produção de vestuário alinha-se uma crescente automatização. Um futuro que está a ser cosido pela startup Sewbo, cujo processo muda radicalmente a forma como se faz a confeção de vestuário.

A startup Sewbo conseguiu criar uma máquina capaz de coser uma peça de vestuário completa, num passo que pode dar um empurrão às confeções integralmente automatizadas.

Jonathan Zornow teve a ideia quando estava a ver televisão. O antigo responsável de desenvolvimento de software tem um ritual pouco habitual antes de ir para a cama: ver o programa How It’s Made (O Segredo das Coisas, na versão portuguesa) do Discovery Channel. «O programa simplesmente mostra as máquinas a fazer o que fazem uma e outra vez», conta ao site Fast Company. «Fico sereno, simplesmente a ver coisas a subir e descer e as rodas a rodarem», afirma.

O ritual de meditação normalmente leva Zornow a dormir, mas um episódio sobre jeans manteve-o acordado. O fundador da Sewbo ficou espantado com os passos complicados que são necessários para criar um simples par de calças: o processo de costura ainda depende de um exército de trabalhadores. «Realmente perturbou-me», recorda. «Parecia estranho que não tivéssemos mais automação nessa área. Assumi que os robots estavam a fazer todas as nossas roupas», confessa.

Foi por isso que Jonathan Zornow teve a ideia da Sewbo, um processo que quimicamente endurece os tecidos para permitir que robots de costura automatizados confecionem uma peça completa. Atualmente, as fábricas dependem de mão de obra humana para guiar os tecidos nas máquinas e cosê-los em linhas de produção. «Parecia-me de loucos que houvesse tanta mão de obra envolvida nestes artigos relativamente simples», explica Zornow. «Mas assim que aprendi mais… a confeção de vestuário é bastante complicada e envolver os robots tem sido uma luta enorme», reconhece.

Por isso, apesar de terem sido dados grandes passos na indústria automóvel e de aviação nas últimas décadas, as confeções continuam relativamente inalteradas. Simplesmente deixaram os EUA para o outro lado do Pacífico, onde os custos da mão de obra ajudaram a responder à exigência dos consumidores de artigos mais baratos. De acordo com um estudo recente da United States Fashion Industry Association, 43% das empresas de moda colocam o aumento dos custos de produção ou sourcing como o maior, ou segundo maior, desafio.

Embora Zornow não acredite que os EUA voltem a ser um exportador de vestuário («esse barco já zarpou», afirma), tem esperança que pelo menos uma parte dos produtores possam voltar quando reconhecerem as mais-valias da automação. «Penso que a automação vai ser uma ferramenta importante para o movimento em crescimento de reshoring, ao ajudar as empresas domésticas a competirem com as fábricas estrangeiras com custos mais baixos da mão de obra», advoga. «Quando a automação se tornar numa alternativa competitiva, uma grande parte da sua atratividade será quantas dores de cabeça vai evitar», acrescenta.

A Sewbo tem apenas seis meses, mas Zornow revela que está já receber dezenas de pedidos de esclarecimento de fábricas no estrangeiro, onde quase todas as roupas usadas pelos americanos são feitas. A produção americana de vestuário caiu de 50% em 1994 para cerca de 3% em 2015, segundo a American Apparel & Footwear Association. Isso significa que 97% do vestuário vendido nos EUA é importado.

Como funciona

No passado, as empresas tentaram criar dispositivos complicados para simular a forma como os humanos costuram, o que «é uma abordagem muito difícil e complexa», explica Jonathan Zornow. Em vez disso, o fundador da Sewbo optou por um ponto de vista diferente, com a manipulação dos materiais para os tornar compatíveis com os robots.

Zornow percebeu que se endurecesse os tecidos ao imergi-los em polímeros líquidos poderia transformá-los em compósitos termoplásticos e tratá-los como materiais duros. «Ficam duros como uma tábua, mas podem ser moldados: é possível aplicar calor e moldá-los e, quando arrefecem, mantêm a forma», explica Zornow. A máquina cose o tecido endurecido para produzir uma peça perfeitamente acabada. O processo pode ser usado com qualquer máquina de costura e com a maior parte dos braços robóticos e, após a costura, os polímeros saem com água, sem necessidade de adicionar detergente.

Há, no entanto, algumas limitações. Uma vez que os materiais têm de estar completamente molhados, alguns tecidos, como os que têm lã ou pele, não podem ser usados. Mas no geral, mesmo peças que só podem ser lavadas a seco, como as que têm seda, podem passar pelo processo. Durante uma demonstração, demorou cerca de 30 minutos para o processo Sewbo costurar uma t-shirt, mas Jonathan Zornow acredita que vai demorar menos tempo assim que estiver numa linha de produção.

«Posso dizer, com alguma confiança, que quando estiver em ambiente de produção, vai demorar o mesmo tempo que uma costureira», assegura. Ao contrário dos humanos, contudo, os robots não precisam de pausas e raramente cometem erros.

Embora esteja a registar um forte interesse por parte da indústria, Zornow tem sentido dificuldade em criar uma equipa nos EUA, uma vez que há poucos especialistas em produção à escala industrial no país.

Mudar a indústria

O progresso lento no sector da tecnologia de vestuário é algo que preocupa Whitney Cathcart, fundadora da Cathcart, uma empresa de consultoria focada em processos automáticos, robótica e inovação digital. «A nossa indústria, em termos de produção, é muito arcaica», sustenta Cathcart. «Temos muitas pessoas em posições executivas de nível sénior que fazem a mesma coisa há muito tempo… É comum ouvir “não é assim que fazemos as coisas”», explica à Fast Company.

A fundadora da Cathcart acredita que as empresas de vestuário não foram capazes de se adaptar à revolução digital: em vez de se focarem na forma como as roupas são feitas, focaram-se apenas em melhorar o comércio eletrónico e as estratégias de marketing. «Talvez as pessoas achassem que a indústria da moda é intocável», afirma, destacando o crescente sucesso da Amazon. «Estamos a comprar de forma diferente enquanto sociedade… Há marcas que antes se pensava serem intocáveis que estão agora a desaparecer», acrescenta.

A Cathcart foi rápida a contactar a Sewbo logo que descobriu a startup. Na Sewbo, Whitney Cathcart vê a possibilidade de mudar a forma como o vestuário é fabricado. «O que ele está a criar é completamente disruptivo», sublinha, destacando que pode ajudar a levar a automação para as confeções.

Atnyel Guedj, diretor de compras da produtora Delta Galil Industries, está mais cético. Tendo supervisionado a produção para várias marcas em diferentes países na Europa, EUA e Ásia, Guedj não prevê que a produção mude drasticamente a curto prazo. «Não vejo ninguém nos EUA a gastar dinheiro em maquinaria dispendiosa», revela Geudj, que vê inúmeros obstáculos em mudar as atuais tendências da indústria –  nomeadamente que a confeção de vestuário, sobretudo para a fast fashion, exige maquinaria dispendiosa e entregas a tempo a um preço muito baixo. Com estas margens difíceis, as empresas são forçadas a procurar os salários mais baixos possíveis e dificilmente poderão investir em nova tecnologia. Mesmo a China está numa corrida para se manter a par com o outsourcing crescente no Vietname, Bangladesh e Etiópia, afirma Guedj à Fast Company.

No entanto, o diretor de compras da Delta Galil Industries admite que avanços tecnológicos como a Sewbo «são muito entusiasmantes» e um passo na direção certa. Em determinado ponto, refere, a busca por trabalho cada vez mais barato tem de acabar e a tecnologia será a única saída. «A automação é a única forma de avançar e talvez seja a única forma da indústria se salvar de si própria», sublinha.

O fundador da Sewbo não é ingénuo quanto à desconfiança geral das novas práticas. «Vai demorar muito tempo, se é que vai acontecer, antes das coisas estarem 100% automatizadas», admite Jonathan Zornow. A produção de tecidos, o tingimento de vestuário e os acabamentos são já processos bastante automatizados. Há ainda muito trabalho humano envolvido, «mas conseguiram aproveitar as máquinas para obterem uma produtividade incrível, ao ponto em que o custo do trabalho a produzir tecido sai minimizado», explica.

Esse é, de resto, o objetivo da Sewbo para a confeção. O futuro não será completamente feito de robots – as pessoas são importantes – mas a confeção pode ser mais produtiva. «A resposta tem sido avassaladora», afirma Zornow, acrescentando que a indústria «está desesperada por automação e está entusiasmada com o que isto pode potencialmente fazer».