Início Notícias Marcas

Robots trazem Adidas para casa

A Adidas está a cooperar com o governo alemão, académicos e empresas de robótica na criação de novas tecnologias que, espera, irão desencadear uma mudança de paradigma na indústria do calçado, culminando no repatriamento da produção.

HERZOGENAURACH, GERMANY - SEPTEMBER 11: Journalists attend the Adidas Predator UK Media Day at Adidas HQ on September 11, 2014 in Herzogenaurach, Germany. (Photo by Daniel Kopatsch/Getty Images)

O sapateiro alemão Adi Dassler revolucionou a prática de corrida quando, há quase um século, inseriu pitões em sapatos de caminhada. Hoje, a maioria dos 258 milhões de pares de sapatos produzidos anualmente pela Adidas são fabricados no continente asiático. Isso poderá mudar em breve, uma vez que a criação de robots mais baratos, mais rápidos e mais flexíveis significa que a fabricação de produtos poderá ser deslocada, aproximando-se dos consumidores, em países de salários elevados, como a Alemanha, acelerando a entrega e reduzindo os custos de transporte, numa iniciativa que alguns apelidam já da quarta revolução industrial.

Este projeto enquadra-se no âmbito de um plano mais amplo desenvolvido pela Adidas para recuperar a sua posição face à arquirrival Nike, que assumiu a liderança como principal empresa de vestuário e calçado desportivo do mundo nos últimos anos. «Vamos trazer a produção de volta para onde estão os principais mercados», disse Herbert Hainer, presidente-executivo da Adidas. «Lá seremos o líder e o primeiro motor». A americana Nike, que tem enfrentado duras críticas pela opção de fabricar a sua linha de calçado desportivo reconhecidamente cara em unidades fabris asiáticas de baixo-custo, também está a investir fortemente no desenvolvimento de novos métodos de fabrico, não tendo ainda apresentado uma data para o regresso, ainda que parcial, da produção aos EUA.

Empregos em risco
Os meios tecnológicos são essenciais ao processo de relocação da produção de calçado para países próximos aos mercados ocidentais, diminuindo a necessidade de mão-de-obra. Estas medidas poderão ameaçar milhões de postos de trabalho na indústria do calçado em países como a China, o Brasil e o Vietname, mas potencialmente criar novas posições noutros países, ainda que dirigidas a trabalhadores mais qualificados. O complexo “Laces” da Adidas, inaugurado em Herzogenaurach, na Alemanha, em 2011, é um exemplo disso, reunindo 1.700 empregados. Os robots, hoje usados maioritariamente em sistemas de autoprodução, poderão reduzir os custos de fabricação em 18% ou mais até 2025 noutros sectores, refere o Boston Consulting Group (BCG). Philip Knight, cofundador da Nike, abalou a indústria desportiva, dominada pela Adidas até à década de 1970, depois de executar a sua teoria de que sapatilhas produzidas no então mercado de baixo-custo japonês podiam competir com as versões germânicas mais dispendiosas. Atualmente, a Ásia produz 87% do total do calçado, com a China a destacar-se entre os principais fabricantes, seguida da Índia, Brasil e Vietname, aponta a Apiccaps – Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos.

Margens a alta velocidade
Embora a necessidade de aumentar a velocidade seja um fator motivador, o aumento dos custos salariais, em particular na China, também está a impulsionar esta mudança. «Esse elemento está a subir drasticamente», afirma Glenn Bennett, diretor de operações globais da Adidas e líder do projeto que pretende reduzir o tempo de lançamento de um produto no mercado, encurtando as seis semanas necessárias às expedições provenientes da Ásia. A Adidas está a cooperar com diversas empresas, como a Johnson Controls, a especialista em robótica Manz e a construtora de máquina de tricotar Stoll, em novos processos, pretendendo aplicar o fabrico de protótipos em loja já no próximo ano.

A marca alemã afirma que uma maior produção local deverá reduzir os stocks excedentários que tem de descontar, elevando a sua margem operacional em mais de 10%, face a 6,6% em 2014, mas ainda aquém dos 13% obtidos pela concorrente norte-americana no ano passado. A Nike, que reportou uma diminuição das vendas na América do Norte no início deste ano devido aos atrasos nas expedições provenientes da Ásia, em consequência do bloqueio dos portos na costa oeste dos EUA, não permitirá que a sua rival alemã ganhe avanço na produção local.

Durante a visita do presidente norte-americano Barack Obama à sede da Nike, a empresa comprometeu-se a criar 10.000 postos de trabalho nos EUA durante a próxima década, produzindo mais no seu mercado doméstico, se o acordo comercial com os países asiáticos for aprovado. «Estamos a investir muito dinheiro e recursos na forma como a nossa cadeia de aprovisionamento evolui, de modo a aumentar a velocidade e a assegurar as entregas aos consumidores da forma mais rápida e inovadora que pudermos», revelou Trevor Edwards, presidente da marca Nike. Yves-Simon Gloy, especialista do Instituto de Tecnologia Têxtil da Universidade de Aachen, está a colaborar com a Adidas e antecipa o alvorecer de uma quarta revolução industrial, devido ao surgimento de «sistemas físicos cibernéticos», máquinas equipadas com sensores, câmaras e motores que podem ser ajustados através da Internet em tempo real. No entanto, Bennett e Gloy não esperam que estas máquinas inteligentes possam usurpar o lugar da mão-de-obra humana. «A inovação estará provavelmente no acabamento do produto em proximidade ao consumidor», explica Bennett. «E não na deslocação do conjunto da operação».