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Rodome cria fibra ecológica

A empresa desenvolveu, em colaboração com uma produtora asiática, uma fibra reciclada de poliéster para enchimentos, que vem juntar-se à oferta de artigos sustentáveis das grandes produtoras que representa, como a Reliance, a Lenzing e a Trevira.

Carlos Oliveira e Paulo Domingos

Batizada Rodome Superfill, a fibra é reciclada e ostenta a certificação GRS – Global Recycle Standard. Trata-se de «uma fibra oca conjugada, com um frisado helicoidal para dar mais resiliência e mais volume», explica Carlos Oliveira, administrador da Rodome. «É 100% poliéster mas com a escolha correta quer das matérias-primas, quer do desenho da fibra», sublinha Paulo Domingos, também administrador da empresa.

A ideia de criação de uma fibra surgiu pela relação de proximidade que a Rodome tem com a produtora asiática. «A empresa estava a começar e tinha algumas dificuldades. Na altura tivemos a ideia de fazer o nosso brand e desenharmos nós a fibra para o sector de enchimento. Nós os dois temos muita experiência nesta área industrial, trabalhamos nisso durante anos e anos», revela Carlos Oliveira. «E tem muita aceitação no mercado», acrescenta Paulo Domingos. A Rodome Superfill representa atualmente cerca de um terço das vendas da Rodome e um quarto da produção da empresa asiática, que detém a patente. «É uma fibra que está, por exemplo, nas almofadas da Zara Home, na IKEA,…», enumera Paulo Domingos.

Foco na sustentabilidade

Esta não é, contudo, a única fibra sustentável que a Rodome, que, como destaca Carlos Oliveira, é a primeira trader na Europa com certificação GRS, tem em stock, acompanhando a mudança que se sente no mercado. «Os grandes players mundiais estão a exigir que os produtos sejam feitos com matérias-primas recicladas, muitas vezes sem saber se, tecnicamente, isso é vantajoso ou não», admite Paulo Domingos. Ainda assim, as vendas de fibras recicladas para a indústria têxtil estão a aumentar. «Estamos numa fase de mudança. Poderá acontecer, nos próximos seis meses, termos 80% das vendas para fiações com fibras recicladas», acredita Paulo Domingos.

Paulo Domingos

Neste âmbito, a Recron Green Gold, uma fibra de poliéster reciclado obtido a partir de garrafas de plástico pós-consumo, é uma das mais procuradas. A Riopele, por exemplo, foi a primeira a usar a fibra, em 2014, em ensaios, mas a grande aposta foi feita pela fiação do grupo Lasa. «A Filasa hoje já começa a estar sustentada no mercado com essa fibra, é a que está mais avançada», refere Carlos Oliveira. A fibra, que está a sofrer um rebranding, adotando agora a designação R|Elan Green Gold, «representa 10% das vendas que temos no sector da fiação. Mas no futuro, e muito rápido, em 2020, acredito que vamos fechar o ano com 50%», adianta ao Jornal Têxtil.

Colegas de turma na licenciatura em Engenharia Têxtil da Universidade do Minho, Carlos Oliveira e Paulo Domingos criaram a Rodome há quase 20 anos, em dezembro de 1999, para prestar um serviço de consultoria à indústria têxtil. O percurso, contudo, levou à especialização no mercado das fibras. «É um nicho de mercado e, sendo Portugal um país pequeno, somos obrigados a abrir fronteiras, para outros países», assume Carlos Oliveira.

O segredo do sucesso

Atualmente, as vendas da Rodome, que rondam as 12 mil toneladas anuais, distribuem-se por Portugal (70%) mas também por Espanha, França, Argentina, Polónia e, em casos mais pontuais, Brasil e Marrocos.

Um dos fatores de sucesso é o stock service que a empresa tem, assim como as parcerias com as grandes produtoras mundiais. «Costumamos dizer que somos um supermercado da têxtil. Temos clientes que vêm buscar ao armazém dois fardos de cada vez», conta Carlos Oliveira.

A oferta de fibras está, sobretudo, concentrada em poliéster (95%), em múltiplas variações, mas também inclui poliamidas, viscoses e acrílicos, que servem empresas nos sectores têxtil e vestuário (30%), têxteis-lar (20%) e mais técnicos (20%) – os restantes encontram-se divididos por outras indústrias, como a automóvel.

Carlos Oliveira

Entre os parceiros destacam-se a Reliance, a Trevira e a Lenzing. «Nunca procuramos ninguém. Foram sempre as pessoas que nos procuraram. A Reliance, que é um dos nossos maiores fornecedores e o guru a nível de poliéster no mundo, não fomos nós que procurámos – foi a Reliance que nos procurou», garante Carlos Oliveira.

Para o futuro da indústria têxtil, Carlos Oliveira acredita que «o grande desafio dos nossos clientes é ir ao encontro dos desejos dos seus clientes, das grandes marcas, porque muitas vezes solicitam coisas sem ter noção da dificuldade que é atingir o que eles estão a pedir. Muitas vezes até diria que é impossível». Quanto à Rodome, «temos boas parcerias, quer com fornecedores, quer com clientes, e isso é uma grande mais-valia que nos permite ter boas perspetivas para os próximos anos», conclui Paulo Domingos.