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Roupa amiga da floresta

Este ano, aproximadamente 120 milhões de árvores serão transformadas em t-shirts. Cerca de 40% dessas árvores serão abatidas em ecossistemas sensíveis na Amazónia e em florestas tropicais no Canadá e na Indonésia, para que as prateleiras das marcas e retalhistas sejam preenchidas com artigos em viscose, cupro ou modal

No local onde estavam estas árvores, muitas empresas plantam depois acácias e eucaliptos de crescimento rápido, para alimentarem a sua necessidade de celulose. Como resultado, as espécies ameaçadas, assim como as comunidades indígenas que fazem as suas casas nas florestas sofrem e a biodiversidade diminui.

No entanto, empresas como a L Brands, que detém as marcas Victoria’s Secret, Henri Bendel, Bath & Body Works, Pink e La Senza, estão a tentar ajudar a distanciar a indústria da moda das florestas tropicais com o movimento “Rainforest-free”. Este movimento é impulsionado por organizações ativistas, incluindo a Canopy e a Rainforest Action Network (RAN), que procuram preservar ecossistemas que hospedam espécies em vias de extinção e comunidades indígenas. Segundo vários analistas, trata-se da iniciativa ambiental em mais rápido crescimento na indústria de vestuário e 2017 é já um ano de referência: 96 grandes marcas de moda prometeram “limpar” as suas cadeias de aprovisionamento até ao final do ano.

Com tal esforço, dizem os ativistas, 80% de todos os tecidos à base de celulose estarão “livres de floresta tropical”. Essa é uma grande vitória para o meio ambiente e para as populações locais, pelo que não poderia ter acontecido sem uma estratégia complexa que convenceu os principais atores da moda de que algumas das suas roupas deveriam deixar de existir.

A diretora executiva da Canopy, Nicole Rycroft, em declarações ao portal de moda Racked, afirmou que, com a produção de viscose a aumentar em até 14% ao ano, a moda seria a próxima grande ameaça às florestas. «A cadeia de aprovisionamento de viscose está a afetar quase todo o ecossistema florestal», alerta.

Em 2013, Rycroft fundou a Canopy e começou a chamar as marcas. A revelação de que muitos dos tecidos derivavam de negócios que ameaçavam as comunidades e a vida animal foi «chocante» para algumas empresas de vestuário, explica Claire Bergkamp, responsável de sustentabilidade e comércio ético na Stella McCartney. «Ficámos bastante surpreendidos», acrescenta.

É compreensível que mesmo marcas ecoconscientes como a Stella McCartney ivessem um completo desconhecimento sobre o aprovisionamento da viscose. «É uma cadeia de aprovisionamento muito complexa», reconhece Nicole Rycroft.

Mas na Stella McCartney, onde os materiais reciclados, orgânicos e não-animais estão no ADN da marca, a decisão foi «aproveitar a oportunidade», conta Claire Bergkamp, para limpar os tecidos de base celulósica da casa de moda britânica. Assim fizeram também a Eileen Fisher, a H&M e a Zara, que se comprometeram com a Canopy, ainda antes da Stella McCartney, a deixar cair em 2014 os produtores de viscose que danificavam as florestas tropicais. A Stella McCartney foi mais longe e concordou em usar a sua influência para desenvolver esforços de conservação e obrigar os seus fornecedores a encontrarem alternativas aos materiais florestais.

O futuro está envolto em otimismo. Cerca de 75% da oferta mundial de viscose é produzida por 10 empresas. Hoje, nove dessas 10 já se comprometeram com o movimento “Rainforest-free”.

No final de fevereiro, a VF Corp., o maior conglomerado de vestuário dos EUA, agregando quase 30 marcas – como a North Face, Timberland, Wrangler, Lee e Vans, entre outras – anunciou que se tinha unido à L Brands e outras empresas para levar a cabo um plano próprio. Já a H&M e a Stella McCartney passaram a aprovisionar-se em florestas certificadas como sustentáveis pelo Forest Stewardship Council (FSC). Juntamente com os produtores, estas marcas estão a começar a desenvolver soluções fibrosas da próxima geração: tecidos reciclados e compostos por bambu de colheita responsável. Embora tais materiais ainda não estejam disponíveis à escala comercial, a experiência passada de Nicole Rycroft permite-lhe hoje afirmar que este é um caminho possível de trilhar.

Contudo, nem todas as marcas de moda são amigas do ambiente – algumas precisam de uma ajuda extra. É aí que entra a Rainforest Action Network (RAN). Através do ativismo nas ruas, de cartas e petições, a organização é um pesadelo de relações públicas para empresas que usam tecidos da floresta tropical. A RAN tem como alvo um grupo a que chama de “Fashion Fifteen”: as 15 maiores empresas que ainda não tomaram medidas para retirar a floresta tropical das suas cadeias de aprovisionamento. «Tratam-se de marcas que foram contactadas em várias ocasiões, e não respondem ou não se mexem», refere Brihannala Morgan, fundadora da organização florestal sem fins lucrativos de São Francisco.

Para os consumidores, pode ser difícil – ainda não há nenhuma certificação para vestuário “Rainforest-free”. A abordagem da RAN baseia-se em divulgar a notícia ao público através de comunicados de imprensa, campanhas nas redes sociais e emails. O website da Canopy, por seu lado, lista as marcas de moda que já se comprometeram com o movimento. Mas como Claire Bergkamp explica «a única certificação que é viável na área da celulose é o Forest Stewardship Council FSC e isso não é algo que os consumidores entendam. Este é o momento de tentar pensar sobre como comunicar isso e o primeiro passo é conversar com os consumidores sobre o que é a viscose».

Já Cecilia Strömblad Brännsten, especialista em negócios de sustentabilidade da H&M, afirma que «toda a indústria precisa de colaborar para que a mudança aconteça. Como uma das maiores retalhistas de moda do mundo, temos um poder muito grande. Então, juntos podemos fazer uma grande diferença».