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Ruanda entra no jogo do sourcing

Durante vários anos, a Etiópia foi dada como a grande candidata para ser o próximo destino mais popular de sourcing da produção têxtil. Contudo, da região da África Oriental surge um outro concorrente que, impulsionado por uma produtora de vestuário, tem vindo a recuperar o ritmo: o Ruanda.

Em 2018, a Pink Mango foi uma das pioneiras a «deslocalizar com sucesso parte da nossa produção em África, com uma nova fábrica no Ruanda», onde viria a estabelecer a C&D Products, escreve na sua plataforma online. Contrariamente às expectativas, o Ruanda revelou-se de tal forma produtivo que a empresa chinesa considera agora instalar aí uma segunda fábrica.

Esta iniciativa faz parte da estratégia da Pink Mango para retirar 80% da sua produção da China ao longo dos próximos cinco anos. De facto, a incursão da empresa em África começou há muito tempo, impulsionada pelo aumento dos custos da mão de obra chinesa e pela vontade de participar no desenvolvimento do continente africano. Neste sentido, para os próximos dois anos, a Pink Mango planeia estender o seu domínio também à Tanzânia.

«Decidimos explorar estes mercados para deslocalizar a nossa produção de vestuário exterior e percebemos que havia um grande potencial na disponibilidade de mão de obra e nas políticas que estavam a ser implementadas por muitos governos para permitir a industrialização de África», explica Maryse Mbonyumutwa Gallagher, diretora e cofundadora da C&D Pink Mango Ruanda. Foi assim que a empresa começou por explorar a Tanzânia, o Gana, a Costa do Marfim, o Quénia e a Etiópia e, durante o processo, incluiu também o Ruanda.

A partir daí a Pink Mango compreendeu que «sob a liderança e visão do presidente Paul Kagame, [o país] era aquele que estava mais preparado para perceber as nossas necessidades e reunir esforços para aceitar rapidamente o nosso investimento, através de incentivos adequados. A decisão foi, então, tomada para instalar a nossa primeira fábrica em Ruanda», revela.

Um canto de oportunidades

O Ruanda ocupa a 29.ª posição no ranking de 2019 do índice da Facilidade em Fazer Negócios do Banco Mundial, entre as 190 economias analisadas – a segunda melhor da região da África Subsariana, a seguir às Maurícias. É também um dos quatro países africanos menos corruptos, de acordo com o índice de Perceção da Corrupção de 2018 da organização Transparência Internacional.

Além disso, potenciado pela priorização do governo em transformar o Ruanda num centro regional de comércio, logística e de conferências, o país tem vindo a beneficiar de um crescimento económico forte – o Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta, aliás, que o PIB real deverá crescer entre 7% e 8% entre 2019 e 2020. Neste âmbito, a capital Kigali já recebeu novos hotéis internacionais de classe executiva, assim como um centro de convenções e um terminal de contentores e respetivos armazéns. O governo planeia ainda alojar um caminho de ferro de 400 km de extensão que ligará o Ruanda ao porto de Dar es Salaam, na Tanzânia.

A produção da C&A Products (Ruanda) concentra-se no vestuário, nomeadamente casacos, exportando a grande maioria para marcas de retalho francesas e alemãs. Com uma mão de obra de 1.200 trabalhadores, a fábrica chega ao fim do mês com cerca de 150 mil casacos prontos a serem vendidos no mercado internacional.

Os produtos são enviados aos clientes europeus através da Tanzânia, chegando a Barcelona em pouco mais de um mês. De modo a garantir a sua rentabilidade na área da fast fashion, a Pink Mango tem vindo a negociar uma taxa de transporte aéreo extremamente competitivo com a transportadora nacional Rwandair, que estabelece a ligação com Guangzhou, Bruxelas e Londres.

A C&D Products (Ruanda) beneficia ainda de uma isenção de impostos nas exportações para a Europa, já que o Ruanda está entre os países pouco desenvolvidos incluídos no programa Everything but Arms (EBA). No entanto, Gallagher afirma «não recear que o AGOA [Ato para as Oportunidades e Crescimento Africanos] ou mesmo o acordo EBA desapareçam, porque o nosso objetivo é sermos capazes de competir globalmente sem estes incentivos», acrescentando que «estamos a trabalhar para sermos sustentáveis sem os mesmos».

Desta forma, a partir do momento em que a Pink Mango começou a investir significativamente nas novas instalações, a produtividade laboral aumentou de 30% para 80% comparativamente com o trabalhador chinês. A diretora da empresa defende que parte desta rentabilidade se justifica pela aptidão dos trabalhadores ruandeses, rápidos e interessados em aprender, além das características de disciplina e esforço que lhes são intrínsecas.

Resposta aos desafios

No entanto, perante este cenário de oportunidades, seria de esperar que a Pink Mango encontrasse alguns desafios. O principal obstáculo que se lhe coloca diz respeito à escassez de matérias-primas na região, que obriga à sua importação da China. Deste modo, o Ruanda alberga apenas as atividades de confeção.

Para contrariar este tipo de despesas, a empresa planeia construir uma cadeia integrada verticalmente. «Investimos num ecossistema para apoiar as duas unidades de confeção, logo, em março, iremos abrir cinco instalações adicionais para estamparia, entretelas, enchimento, lavandaria e bordados. E nos próximos três anos, esperamos conseguir abrir fábricas de fiação e de tinturaria», revela Gallagher.

Produzir de forma justa

Por outro lado, a diretora da Pink Mango reconhece que, enquanto primeira exportadora do Ruanda, o negócio deve assumir a responsabilidade de modelo para o resto da indústria, através de trabalho justo e sustentável. Deste modo, a empresa estabeleceu uma iniciativa social, denominada por Pink Ubuntu – Ubuntu significa “eu existo porque tu existes” –, cuja primeira medida exige o pagamento atempado dos salários.

Tendo em conta que o nível salarial do Ruanda é inferior ao da mão de obra chinesa, a Pink Moda tratou de aumentar os rendimentos dos trabalhadores para 70 dólares (63,16 euros), 25% acima da média da indústria, acrescentando a oferta de seguros de saúde. «Além do pagamento de salários justos, acima da média da indústria do país, oferecendo almoço e cobertura médica gratuitos, a maior inovação que estamos a trazer será introduzida com a abertura da nova fábrica, onde iremos construir um berçário para os filhos dos trabalhadores», já que 80% da mão de obra são mulheres, destaca Gallagher. Também serão lecionadas aulas noturnas gratuitas, que abordarão temas como alfabetização, idiomas, direitos das mulheres, violência doméstica e questões financeiras e de gestão.

Estes benefícios serão integrados na nova fábrica C&D Products na Tanzânia, que se dedicará à produção de fatos e bolsas, cuja inauguração se prevê para junho de 2021. A unidade industrial de 6 mil metros quadrados começará a operar com 1.500 trabalhadores e, num prazo de cinco anos, deverá aumentar para 4.000. Esta fábrica irá permitir uma maior proximidade a um grande porto, que oferece custos mais reduzidos e logística mais rápida.

«A África Subsariana ainda é bastante recente no panorama de sourcing e levará o seu tempo [a desenvolver-se], mas espero que as nossas iniciativas contribuam para acelerar a abertura de portefólios de aprovisionamento das marcas que procuram uma oferta alternativa competitiva e se interessam pelo desenvolvimento de África, assim como para outros potenciais investidores», conclui a diretora da Pink Mango Ruanda.