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Rumo ao oeste

O panorama artístico de Los Angeles está em ascensão devido à onda de artistas e galerias que optam por abandonar Nova Iorque, que se tornou demasiado povoada e dispendiosa para o típico jovem criativo.

«Um grande número de artistas estão a fixar-se em Los Angeles», afirma Philippe Vergne, diretor do Museu de Arte Contemporânea (MOCA) dessa cidade da Costa Oeste, apresentando como justificativa os exorbitantes custos imobiliários nova-iorquinos. «Na arte, é como no sector imobiliário: tem de seguir os artistas pois é onde se irá desenvolver», explica Vergne, sublinhando que Los Angeles é «a cidade com a maior densidade de artistas no mundo».

Martha Kirszenbaum, diretora e curadora do centro de artes Fahrenheit, que se estreou recentemente numa área emergente da baixa de Los Angeles, aponta que «o ponto forte de Los Angeles são os artistas e as escolas, que têm treinado gerações de artistas».

A Cidade dos Anjos é conhecida por albergar algumas das mais prestigiadas escolas de artes do país, incluindo a CalArts, a Universidade da Califórnia Los Angeles (UCLA) e a Universidade do Sul da Califórnia (USC).

É, simultaneamente, o espaço de residência de muitos dos principais artistas contemporâneos, como John Baldessari, Catherine Opie, James Turrell, Chris Burden, Barbara Kruger, Paul McCarthy e Ed Ruscha.

As galerias, ainda que em número inferior às suas equivalentes nova-iorquinas, emergem a um ritmo crescente na cidade californiana, reconhecida pelos seus céus azuis e espaços abertos.

«Nova Iorque está tão saturada, seríamos a 700ª pequena galeria, enquanto LA está num estado muito interessante de fluxo», argumenta Karolina Dankow, diretora do grupo Karma International, que inaugurou recentemente uma galeria na cidade. «Todos reconhecem que muitas das grandes galerias estão a transferir-se para aqui», acrescenta, enumerando figuras como Larry Gagosian, um dos maiores negociantes de arte do mundo, ou Michele Maccarone, Gavin Brown e Matthew Marks, que se mudaram de Nova Iorque.

A Califórnia recebe simultaneamente novas feiras de arte, como a Paramount Ranch ou a Paris Foto Los Angeles. Também a Foire Internationale d’Art Contemporain (FIAC), uma das maiores feiras de arte contemporânea do mundo, tem contemplado a possibilidade de organizar uma versão do evento em Los Angeles.

O periódico The New York Times abordou esta tendência, destacando a ironia dos jovens criativos, como o músico Moby, se transferirem para a cidade, frequentemente satirizada pelos originários da Costa Leste. «Afugentados pelas rendas crescentes, invernos castigadores e mal-estar generalizado, os nova-iorquinos rumam ao oeste para a cidade de que antes troçavam», escreveu.

O calendário artístico da Costa Leste encontra-se frequentemente sobrecarregado com eventos como o Armory Show em Nova Iorque ou o Art Basel em Miami.

Por essa razão, «faz sentido vir para a Costa Oeste», sustenta Jean-Daniel Compain da Reed, responsável pela organização do FIAC e do Paris Photo.

É certamente difícil competir com Nova Iorque no que diz respeito ao número e dimensão das suas instituições culturais, como o Museu de Arte Moderna (MoMa), o Met e o Guggenheim, entre tantas outras. «Aqui não temos o [quadro] “Demoiselles d’Avignon” numa coleção permanente», aponta Vergne, referindo-se ao clássico de 1907 pintado por Picasso e que pode ser visto no MoMa.

Alcançar a Costa Este
«Estamos, por vezes, 100 atrasados em comparação com algumas instituições da Costa Leste», admite Michael Govan, diretor do Museu de Arte de Los Angeles, que celebrara este ano meio século de existência. «Temos uma ótima coleção mas, em muitos aspetos, estamos ainda a tentar alcançar os demais», esclarece Govan, acrescentando que recebeu doações de trabalhos de Edgar Degas, Andy Warhol e Claude Monet para a exposição “50 for 50”.

«Temos menos dos tradicionais blockbusters por aqui», reconhece. «Mas, apreciamos o nosso estatuto de ligeiramente descentrados e, para mim, é muito mais divertido aproveitar novos tópicos e projetos», contrapõe.

Em termos de visitantes, o LACMA, que recebe 1,2 milhões de visitantes anualmente, está muito aquém do nova-iorquino MoMA, que abre as suas portas para 2,5 milhões de pessoas anualmente. Porém, o número de visitantes do museu de Los Angeles duplicou em oito anos.

Govan destaca, também, o espetáculo organizado pelo museu sobre o cineasta americano Tim Burton, que passou também pelo MoMA, e uma retrospetiva do artista norte-americano James Turrell, que calcorreou o continente asiático. «Estabeleci, como elevada prioridade, que os nossos espetáculos devem viajar, porque acredito que Los Angeles, Califórnia, tem muito para dizer», justifica Govan.

Simultaneamente, a expansão artística de Los Angeles continua a um ritmo acelerado: os filantropos Eli e Edythe Broad pretendem inaugurar, já em setembro, um museu que irá abrigar a sua coleção de 2.000 obras de arte, incluindo obras de Warhol, Jean-Michel Basquiat, Roy Lichtenstein e Cindy Sherman.

Os irmãos franceses de origem marroquina Maurice e Paul Marciano, que alcançaram reconhecimento com o  lançamento da marca Guess, estão atualmente a trabalhar num projeto de criação de um museu, no qual pretendem expor a sua própria coleção.