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Russos apertam o cinto

As divergências das políticas internacionais e a depreciação da economia da Rússia, particularmente afetada pela desvalorização do rublo, têm contribuído para a diminuição do consumo entre os segmentos mais afluentes da sociedade russa, afetando o mercado de artigos de luxo do país.

A woman walks with her shopping bags in "Via Montenapoleone" one of the luxury fashion streets in Milan on the first day of the summer sales period on July 05, 2008 . AFP PHOTO / GIUSEPPE CACACE (Photo credit should read GIUSEPPE CACACE/AFP/Getty Images)

Quando o rublo entrou em colapso em dezembro de 2014, Dmitri Gourji duplicou o preço dos seus artigos de luxo e pediu ao senhorio do seu espaço comercial no centro de Moscovo para reduzir o preço da renda. Em pouco tempo, o empresário russo recebeu telefonemas de clientes furiosos, que ameaçavam boicotar os produtos. «Ressentiram-se do aumento de preços», revela. «Deixaram-me sem outra alternativa que não fosse reduzir as nossas margens e compartilhar a dor».

As tensões económicas e geopolíticas que pesam sobre a economia russa penalizaram gravemente o país, em tempos um exponencial mercado de artigos de luxo, e transformou a forma como até mesmo os mais afluentes encaram o dinheiro. Os mais abastados concentram-se, agora, em produtos dispendiosos, percebidos como peças únicas e investimentos seguros, de acordo com o Euromonitor.

A aspirante classe média russa, cujas poupanças evaporaram com a desvalorização do rublo no ano passado, viu-se obrigada a refrear os gastos. As viagens ao estrangeiro foram, também, adiadas. Os gastos dos turistas russos no exterior caíram 17% em 2014 e continuaram a diminuir nos primeiros meses deste ano, indicou o Global Blue, um grupo de restituição de impostos internacionais.

Em Moscovo, onde geralmente há uma grande sobrevalorização dos artigos de luxo importados, muitos retalhistas estão a reduzir as margens e a oferecer «preços europeus», num esforço para animar as vendas murchas. O presidente Vladimir Putin apresentou a crise económica e a desvalorização do rublo como uma oportunidade para os produtores nacionais anularem a concorrência de produtos importados. Porém, à exceção da vodka e do caviar, os russos dispõem de poucas marcas de luxo nacionais, um legado da era comunista. Dmitri Gourji pretendia mudar essa realidade quando, em 2007, lançou a sua própria marca de joias e acessórios.

Abandonando as funções de gestor de distribuição exclusiva do grupo de luxo Alfred Dunhill na Rússia, Gourji mergulhou na cultura do seu país em busca de inspiração para botões de punho decorativos, canetas, brincos, bolsas de couro e xailes de seda e caxemira. «As empresas de luxo que oferecem algo especial ao mercado russo estão em melhor posição para sobreviver à crise», afirma, desdobrando um xaile impresso com uma pintura que encomendou à artista Sonya Utlina. Potenciando o patriotismo crescente que se vive na Rússia, a Cvstos, um fabricante suíço de relógios de luxo, revelou recentemente o modelo “Orgulhoso em ser russo”, com a representação da águia bicéfala nacional estampada no visor.

A empresa contratou o ator francês Gérard Depardieu, uma celebridade na Rússia, depois de ter adotado a cidadania em 2013, para promover o relógio e outros produtos exclusivos direcionados para o mercado russo. As autoridades russas previram um resultado suave para a economia do país, com uma contração de 2,8% do PIB este ano, seguido de uma leve recuperação em 2016. Contribuindo para o aumento da confiança, surge o facto do rublo ter valorizado substancialmente este ano, embora não o suficiente para compensar totalmente a depreciação desastrosa de 2014.

No entanto, a menos que as tensões geopolíticas face à Ucrânia suavizem, o crescimento económico da Rússia – e os gastos dos consumidores no segmento de luxo do mercado – deverá permanecer discreto num futuro próximo, segundo o relatório “Global Powers of Luxury Goods 2014”, produzido pela Deloitte Touche Tohmatsu. O que preocupa verdadeiramente os retalhistas internacionais é a quebra dos padrões de vida, a par da propaganda antiocidental do Kremlin, que poderá gerar sentimentos de antipatia face aos bens americanos e europeus. Isso é improvável de acontecer na extremidade superior do mercado russo, onde as marcas ocidentais de luxo são vistas como um acessório vital, sinónimo de adesão à classe bem sucedida, refere Angela Sapovskaya, diretora-executiva e fundadora do Tri&Co, um grupo de moda especializado em produtos de caxemira de alta qualidade. «Muitos russos são viciados em marcas e vão continuar a despender em roupas de luxo, mesmo que isso signifique viver à míngua», acrescenta Sapovskaya. Com a estagnação das vendas de bens de luxo em 2014 e as perspetivas incertas para o futuro, algumas marcas estrangeiras refrearam os seus planos de inauguração de lojas em regiões russas e estão a concentrar-se nas cidades prósperas de Moscovo e São Petersburgo, de acordo com a Euromonitor.

A casa italiana Salvatore Ferragamo, que tem nos clientes russos parte substancial das suas vendas de casacos de pele e sapatos, acrescentou, recentemente, dois outlets à sua rede moscovita, apesar de um início de ano fraco. Por seu lado, a casa de moda de luxo Prada abriu uma loja em São Petersburgo em 2014. Um resultado positivo da crise cambial para os retalhistas prende-se com a diminuição das rendas, em tempos altíssimas, praticadas em Moscovo.

Os promotores imobiliários debatem-se com a dificuldade de encontrar inquilinos para os centros comerciais recém-concluídos na capital, revela Michael Rogójin, diretor do departamento de retalho da CBRE, empresa comercial internacional de serviços imobiliários. Encontrar empresas que desejam posicionar-se na cidade tem sido um desafio, admite.Os proprietários de lojas locais nas ruas de prestígio que rodeiam o Kremlin, que são o lar de nomes como Chanel, Gucci e lojas próprias da Louis Vuitton, estão menos dispostos a aceitar os valores cobrados. Dmitri Gourji visita o seu senhorio uma vez por mês para apelar a reduções na renda, avaliada em Euros. «Tem que chorar, se quiser sobreviver», sublinha.