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Salários em discussão

A provisão de um salário de sobrevivência para os trabalhadores da cadeia mundial de aprovisionamento de vestuário é uma questão em discussão e parece suscitar tantas perguntas como respostas. A mais recente pesquisa sobre o assunto sugere agora que «a escalada de preços compostos» é um dos principais obstáculos à introdução de um salário de sobrevivência nesta indústria. «Pensar os salários de sobrevivência de forma diferente» é um dos conselhos dados no último estudo da holandesa Fair Wear Foundation (FWF), que estabeleceu uma parceria com o European Outdoor Group para analisar a questão do salário de sobrevivência nas cadeias de aprovisionamento de vestuário de outdoor do mundo real. O estudo sustenta que, embora a maior parte das empresas pensem nos seus compromissos de salário de sobrevivência como uma responsabilidade e um fardo, deviam passar a aceitar o pagamento do salário de sobrevivência «como um custo de produção básico, juntamente com o custo das matérias-primas e as margens dos produtores». A pesquisa, feita junto de seis marcas – Deuter, Haglöfs, Kjus, Mountain Force, Odlo e Vaude – e uma fábrica – KTC –, membros da FWF, analisa as ligações entre as práticas de marca, salários e preços da indústria de outdoor e o custo para os consumidores. O objetivo é tentar ultrapassar questões essenciais, como a forma de cálculo do salário de sobrevivência, quanto os custos laborais terão de subir e quais são as implicações para o custo dos produtos, tanto para as marcas como para os consumidores. Mas talvez a conclusão mais interessante que saiu da pesquisa, e que está detalhada no relatório da FWF “Living Wage Engineering”, é que o modelo de sourcing dominante na indústria de vestuário complica a simples ideia de que os consumidores podem pagar um pouco mais para assegurar que são pagos salários de sobrevivência. A prática de «escalada de preços compostos» é comum na indústria de vestuário, uma vez que simplifica os cálculos de subida de preços ao longo da cadeia de aprovisionamento que milhares ou até milhões de produtos percorrem diariamente. Essencialmente, o que acontece é que o preço pago em cada passo da cadeia de aprovisionamento – dos agentes a retalhistas, marcas e empresas de envio – é calculado em relação com o preço cotado na fase anterior. Contudo, isso significa que a transferência direta de fundos para cobrir salários mais altos é mais complicada do que parece inicialmente. Por exemplo, a percentagem de um agente de vendas pode ser calculada como 24% do FOB (preço pago por produto às fábricas). Por isso, se o FOB antes do salário de sobrevivência for 10 dólares, então o agente cobra 2,40 dólares. Mas se o salário de sobrevivência aumentar o preço FOB para 11 dólares, significa que o valor cobrado pelo agente aumenta para 2,64 dólares. Não interessa se é grande ou pequeno – um aumento nos salários leva a uma subida dos valores para o agente e, consequentemente, aumenta os preços na maior parte dos outros pontos na cadeia de aprovisionamento, até ao IVA. Uma versão da escalada de preços compostos é também visível ao nível da unidade produtiva, quando as margens brutas das fábricas aumentam simplesmente devido ao aumento dos salários. Quando a subida dos preços em cada passo da cadeia de aprovisionamento é calculada, o efeito nos preços no retalho é um aumento que pode chegar aos 15% – em vez de um máximo de 7% para os mesmos produtos se as taxas não aumentarem com os salários. Esta prática não só se torna num grande obstáculo à implementação do salário de sobrevivência, como mostram os cálculos da FWF, como também significa que a grande maioria dos fundos adicionais cedidos pelos consumidores em nome do salário de sobrevivência iriam, na verdade, ser direcionados para outras fases na cadeia de aprovisionamento. A pesquisa da Fair Wear Foundation também abrangeu um conjunto de outras questões, incluindo o impacto dos salários de sobrevivência nas margens das fábricas e nos preços do retalho pagos pelos consumidores. Em termos gerais, concluiu que os salários das fábricas tinham de aumentar entre 10% e 102% para atingir o valor de referência do Asia Floor Wage. E se os salários base na fábrica aumentarem para o nível do salário de sobrevivência, então todos os salários nessa fábrica terão de aumentar. Os cálculos também sugerem que só o impacto de um salário de sobrevivência aumentava o FOB em 2% a 12% – e que as marcas irão incorrer num aumento adicional de 1% a 2% acima do custo dos aumentos de salários apenas para tentarem manter os seus compromissos. Este não é um custo negligenciável para a empresa, sobretudo se estiver a produzir centenas de milhares de unidades de um produto. Contudo, é neste ponto que o efeito da “escalada de preços compostos” começa a complicar ainda mais as coisas. O trabalho com o European Outdoor Group ajudou a FWF a olhar para a questão do salário de sobrevivência nas cadeias reais de aprovisionamento de vestuário de outdoor – onde as relações entre as marcas e os seus fornecedores tendem a ser mais estáveis, com prazos de entrega mais longos e melhor planeamento. Em contrapartida, os que estão na esfera da moda são impulsionados por tendências sempre em mudança, prazos de entrega curtos, longas listas de fornecedores, vantagens limitadas junto dos fornecedores, relações sem compromissos entre comprador e fornecedor e uma enorme concorrência dos preços. Entre os próximos passos para os investigadores está tentar perceber os preços numa gama mais variada de produtos e de fábricas e desenvolver ferramentas simples para ajudar as empresas a calcularem rapidamente o impacto de um salário de sobrevivência e, em último caso, determinar as fábricas mais capazes de dar resposta. É, por isso, necessário fazer abordagens alternativas à escalada de preços compostos nas cadeias de aprovisionamento. Uma questão que «será difícil de responder» porque está muito enraizada, sustenta, mas que é fundamental para implementar um salário de sobrevivência que não faça com que os preços no retalho sofram uma espiral ascendente. O relatório também reconhece que a abordagem ao cálculo do salário de sobrevivência deve ir além do preço individual do produto e abranger as coleções completas – espelhando a forma como as marcas de vestuário têm em conta diferentes preços e margens numa gama.