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Sandália de pobre para rico

A twittosfera paquistanesa foi invadida por comentários mais ou menos divertidos para descrever a “recuperação” feita por Paul Smith das “chappals” – sandálias compostas por uma sola de couro ou de borracha revestida e de uma parte superior que deixa entrever o calcanhar e as pontas dos dedos dos pés. Em Peshawar, cidade de origem das “chappals”, situada no noroeste do Paquistão, os retalhistas troçam ao ver imagens da versão “paulsmithiana” das suas adoradas sandálias a um preço que poucos locais terão possibilidade de pagar. A 500 dólares o par, ou seja, 50 mil rúpias – o equivalente a cinco meses de trabalho com salário mínimo no Paquistão –, as sandálias de Paul Smith são aproximadamente entre 30 e 100 vezes mais caras do que as “chappals” locais. «É preciso estar louco para pagar 50 mil rúpias por umas sandálias que se pode ter por 1.500 a 2.000 rúpias», afirma Mansoor Khan, fervoroso admirador das sandálias “made in Peshawar”. Mas Zahir Shah, gerente da loja de sandálias local ” Style Collection”, defende este preço desmedido com «Paul Smith é uma marca que vende». Além do preço, as sandálias incendiaram o debate pelo seu design considerado obsoleto aos gostos locais. «Este design está fora de moda. Mas temos clientes de 60 anos ou 70 anos que ainda procuram este design de vez em quando», graceja Kamran Khalil da loja Shoe Shop de Peshawar. «Estou orgulhoso de saber que as sandálias tradicionais dos pachtuns (povo do norte do Paquistão) estão agora disponíveis no Ocidente, mas os designers devem desenvolver esforços no sentido de ter um design atual», explica mais seriamente. As “chappals” de Paul Smith, pretas, brilhantes e decoradas com uma fita rosa, têm um look antiquado, sustenta Farhad Ullah, cuja família especializou-se ao longo de décadas na fabricação dessas sandálias. «No seu tempo, o meu pai confecionou sandálias com esse look, mas hoje já não há procura por tal modelo. Apenas os militares reformados e os policiais ainda o encomendam», acrescenta. Depois de um dia de indignação nas redes sociais e uma petição online, o designer britânico alterou a descrição do modelo, originalmente batizado “Robert”, para reconhecer que era realmente de inspiração “peshawar”.