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Sasia na vanguarda da reciclagem

O tema da economia circular começou, nos últimos anos, a estar na ordem do dia, mas na Sasia já remonta há quase sete décadas. Fundada em 1952, a empresa de reciclagem têxtil tem dado nova vida aos desperdícios da ITV e os novos investimentos, na ordem dos 2 milhões de euros, deverão suscitar mais procura.

Os resíduos pré-consumo chegam à Sasia provenientes de vários pontos do mundo – 50% vêm de Portugal, os restantes de outros países, incluindo da América Latina e da Ásia – para ganharem uma nova vida e serem usados na fiação, em geotêxteis, na indústria automóvel ou noutras.

«Recebemos os materiais pré-consumo de empresas, portuguesas ou estrangeiras, e fazemos o desfibramento», explicou Miguel Ribeiro da Silva, administrador da Sasia, durante a visita do Roteiro da Inovação da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. «Todos os materiais são analisados à chegada e, depois de transformados, são analisados em laboratórios, no Citeve e na Quality Lab, porque temos de dar uma garantia aos nossos clientes da sua composição», afirmou.

A empresa está dividida em diferentes linhas de produção, automatizadas, consoante a origem e o fim das fibras. Na entrada, o material é cortado, sendo, em seguida, transferido para um silo onde fica a repousar. Passa depois, através de um sistema de tubagem, para uma máquina que transforma estes resíduos em fibras, passíveis de serem usadas novamente.

«Estamos a produzir mensalmente à volta de 800 a 900 toneladas, que são depois aplicados em diversos mercados diferenciados», revelou Miguel Ribeiro da Silva.

Múltiplos destinos

Cerca de 55% da produção da Sasia tem como destino mercados internacionais na Europa e em África. «O mercado português é relativamente pequeno», admitiu administrador. «Vendemos, por exemplo, produtos para a indústria automóvel que aqui em praticamente Portugal não existe. Em Espanha, há oito ou nove marcas de automóveis a serem fabricadas», exemplificou. No continente africano, África do Sul, com artigos para enchimento, e Angola são dois mercados importantes.

Além da certificação de qualidade da ISO 9001, a empresa está a investir na certificação GRS – Global Recycle Standard para garantir que «o produto que chega às lojas é feito com artigo reciclado».

Investir para inovar

Recentemente, a Sasia investiu dois milhões de euros numa nova linha produtiva, que substituiu outra já ultrapassada. «Começou a trabalhar em dezembro e favorece-nos porque aumenta a capacidade produtiva e aumenta principalmente a inovação», justificou Miguel Ribeiro da Silva. «Esta linha oferece-nos inovação, qualidade dos materiais, capacidade produtiva e melhora a questão energética – gasta menos porque foi preparada para isto», adiantou ao Portugal Têxtil. «As máquinas foram produzidas pela construtora com o nosso know-how, dentro daquilo que vimos ao longo dos anos. Há materiais que são muito difíceis de reciclar e com esta máquina é possível reciclá-los, porque foi feita especificamente», acrescentou.

Com 30 trabalhadores, a especialista em reciclagem cresceu no ano passado, tendo encerrado 2018 com um volume de negócios de 5 milhões de euros. Para 2019, «pensamos ter um aumento, no mínimo, de 15% a 20%», antecipou Miguel Ribeiro da Silva, graças à aposta em novos produtos e ao crescimento nos mercados tradicionais.

Procura em crescimento

Com quase 67 anos de atividade – que serão cumpridos a 1 de setembro de 2019 –, a Sasia tem sentido, contudo, uma mudança no mercado ao longo das décadas. «Na altura da fundação, havia muito resíduo têxtil das fiações, havia muito algodão que vinha das colónias e havia no Vale do Ave muitas fiações. Os fundadores da empresa iam às fiações, recebiam o resíduo do algodão, tornavam a limpá-lo, reciclavam-no e tornavam a vendê-lo para fazer fio. Foi assim que começou», contou o administrador.

Hoje, «sentimos que há mais procura. Estamos com muitos projetos em curso, tanto nacionais como internacionais, com empresas que nos têm pedido produtos sustentáveis», reconheceu. O projeto Tenowa, da Riopele, foi um dos que integou o know-how da Sasia. «Toda a gente está preocupada com os recursos naturais, toda a gente está preocupada com o ambiente e, neste momento, já é uma realidade. Claro que estas coisas demoram o seu tempo. As empresas querem fazer produtos sustentáveis, querem aplicar o resíduo, querem reciclar os produtos que têm para entrar na economia circular. É uma preocupação que já toda a gente tem», sublinhou Miguel Ribeiro da Silva.

«Quando em Famalicão se fala do têxtil não se fala só da qualidade do produto acabado. No têxtil há uma enorme dependência de matérias-primas e muitas delas estão fora de Portugal. Com a Sasia, conseguimos também mostrar ao país e ao exterior como é possível ser o mais autónomos possível», destacou Paulo Cunha, presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Famalicão. «Apostar na Sasia significa um contributo muito relevante para que Famalicão continue a crescer enquanto Cidade Têxtil que é, atingindo novos patamares e novos produtos, muito ligados aos reciclados», concluiu.

Libório Ribeiro da Silva, Paulo Cunha, Miguel Ribeiro da Silva