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Sector Têxtil é moeda de troca”

Juan Casanovas é o mais jovem presidente de sempre da Federação Internacional da Lã (IWTO), eleito por unanimidade, e o segundo espanhol a aceder ao cargo. Cargo esse que acumula ainda com o de director-geral da empresa de lanifícios Juan D. Casanovas, uma das mais importantes do sector, e o de conselheiro de administração da Euratex, em representação do Consejo Intertextil Español. O Noticiero Textil entrevistou-o longamente sob as questões que fazem a actualidade do sector da lã e do têxtil em geral.
Noticiero Textil (NT) – Que significado tem para si a sua eleição como presidente da Federação Internacional da Lã? Juan Casanovas (JC) – Constitui um motivo de grande alegria, principalmente porque os 24 países ou comissões nacionais que pertencem à Federação foram unanimes na sua votação, o que não se verificava há já algum tempo, embora seja verdade que não havia nenhum outro candidato, pelo que não houve qualquer concorrência. Cheguei mesmo a pensar que era um acto de inconsciência colectiva, já que alguns votaram sem me conhecer, e poderiam ter-se abstido. Suponho que viram a possibilidade de mudança, de rejuvenescimento da Federação, o que de facto existe e é um repto importante.
NT – Porque é que não houve mais nenhum candidato? JC – Talvez devido à situação económica geral, o que leva as pessoas a quererem consagrar-se por completo às suas empresas. O que é natural, já que eu próprio estou a agir assim. Mas no final houve muita pressão de países como a Itália, a Austrália, a França e a Espanha para que me apresentasse, ao que após um período de reflexão acedi.
NT – Qual é a actual constituição da Federação? JC – A Federação representa os interesses da indústria têxtil mundial da lã. Agrupa 24 países, representados através das suas federações nacionais, incluindo desde os criadores de animais até aos industriais do sector, e oito membros associados entre organizações relacionadas com os produtos de lã, como a Woolmark Company.[nota PT: Portugal está representado pela ANIL].
NT – Como se consegue obter o equilíbrio entre a cadeia? JC – Os criadores de animais têm uma mentalidade agrícola, vendem a matéria-prima, e a indústria compra-a e transforma-a. O equilíbrio nem sempre é fácil de manter, pois nem sempre os criadores entendem as necessidades da indústria. Por vezes o diálogo é difícil como, por exemplo, no caso da contaminação das lãs, já que muitos criadores não querem assumir os custos das reclamações. Estamos numa cadeia de procura e produção, desde a matéria-prima até ao produto-final, ou visto de outra forma, desde as necessidades do consumidor até à matéria.
NT – Em que consiste a mudança que pretende levar a efeito na Federação? JC – Há anos que a Federação está construída desde baixo, desde os criadores, quando na realidade tudo é dirigido pelas necessidades do mercado. Na Federação debate-se muito os aspectos técnicos relativos à lã, mas isso não impulsiona as vendas. O nosso objectivo é vender mais quilos de lã e, para tal, temos que perguntar ao mercado o que é que quer e como o quer. É nisto que consiste essa mudança. Trata-se simplesmente de obedecer à lei do mercado, seleccionando e desenvolvendo os produtos que procura.
NT – E os criadores compreendem bem esta mudança? JC – Os criadores devem escutar e compreender o que quer o consumidor, e se este quer lãs baratas terão que produzir lãs baratas através da investigação e do investimento. O mais importante, e esta é a mensagem que procuro transmitir, é que a lã não foi vendida até que o artigo na loja não tenha sido vendido. E até que os criadores não compreendam que com a venda que efectuaram apenas trespassaram a propriedade da lã para o elo seguinte não se implicarão no resto da cadeia.
NT – A mensagem parece simples, mas como pensa convencê-los? JC – A mudança que estamos a levar a cabo irá reflectir-se em Maio no Congresso Anual da Federação, que decorrerá em Evian, e ao qual queremos dar um importante impulso mediático convencendo os últimos elos da cadeia, os confeccionadores e os grandes retalhistas de todo o mundo, a participar e a restaurar a motivação perdida em outros elos da cadeia. Para despertar o interesse dos retalhistas está previsto oferecer-lhes as conclusões de um complexo estudo sobre os futuros hábitos de vestir do consumidor e a sua possível evolução. Seguir-se-á um debate entre retalhistas para conhecer as suas opiniões sobre as conclusões do referido estudo, assim como as suas percepções sobre o consumo da lã e as vantagens e benefícios que oferece, sob o seu ponto de vista, ao consumidor. De igual modo, as empresa que se dedicam à investigação, como a Australian Wool Innovation, ou as empresas dedicadas à promoção comercial como a Woolmark Company explicarão aos retalhistas que desenvolvimentos e inovações existem ou se espera introduzir no mercado e como é possível ajudá-los a promover, dentro das suas cadeias, os novos desenvolvimentos dos produtos de lã, identificando os benefícios que oferecem aos consumidores e as vantagens comerciais daí derivadas para os retalhistas. Com isto pretendemos que, definitivamente, se conheçam melhor todas as iniciativas de investigação e promoção dos produtos laneiros no mercado final, e que essas vantagens impliquem que se possa vender mais lã.
NT – Que posição tem a lã actualmente? JC – A lã representa 3% do consumo mundial, embora em outros anos tenha sido superior. As fibras sintéticas, cujo consumo era zero há alguns anos, representam hoje 50% do consumo das fibras mundiais, estando a conquistar terreno à lã e ao algodão. Não obstante, no que se refere aos produtos de confecção de vestuário exterior, o peso da lã é seguramente mais elevado do que aquele que estes valores indicam. Embora seja mais cara, a roupa de lã apresenta inúmeras vantagens em relação a outras fibras, já que dura muito mais, é muito mais confortável, é menos sujeita à ruga e à sujidade do que o algodão, tem um alto nível de transpirabilidade e protege do calor e do frio, e tal como reconhecem os próprios confeccionadores é muito mais fácil de confeccionar.
NT – Mas se tem tantas vantagens, porque é que não se consome mais lã? É o preço que penaliza o seu consumo? JC – Existe uma tendência para o casual, que aposta nas mesclas de diferentes fibras, e também nos leva a crer que tudo tem de ser barato. Estamos imersos num ciclo vicioso pois as empresas despedem cada vez mais trabalhadores, que perdem o seu poder aquisitivo como consumidores, ficam cada vez mais endividados e o vestuário deixa de ser uma prioridade para eles. Se uma camisa tem que ser cada vez mais barata, chegará o momento em que os custos de fabricação não poderão ser mantidos e ter-se-á que importá-la, o que produzirá ainda mais desemprego e minorará a vontade de consumir. A instabilidade laboral dificulta um maior consumo. Na Europa existem dois mil postos de trabalho no sector têxtil e vestuário que estão em perigo. Mas enquanto as entidades públicas responsáveis não fizerem um esforço para forçar a redução das taxas às quais os países como a China e a Índia submetem as nossas exportações vamos continuar a estar em completa desvantagem.
NT – Mas essa reclamação é frequentemente interpretada como um discurso proteccionista. JC – Nunca gostei do discurso proteccionista. A China e a Índia são grandes consumidores de têxteis e a ITV europeia poderia vender muito mais para a China, Índia, EUA ou Brasil, que são países muito proteccionistas, se não existissem essas barreiras que nos impedem de tal. Os consumidores desses países têm vontade de comprar produtos europeus, mas estamos penalizados pelas suas taxas, o que diminui a nossa competitividade e capacidade de produção, enquanto que os custos fixos vão incrementando com a impossibilidade de aumentar o nível da produção. E as enti