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Segredos para ganhar com a tecnologia

Com o caminho para implementar nova tecnologia a ser, muitas vezes, uma perspetiva assustadora – seja o design 3D e as ferramentas de prototipagem virtual ou o software de gestão do ciclo de vida do produto – algumas das dicas para gerir o processo incluem uma comunicação clara, expectativas realistas e a boa e velha paciência.

O velho adágio, atribuído a Heráclito, que «nada é permanente, exceto a mudança» é verdade no retalho, garantiu Nicole Jones, diretora de tecnologias de desenvolvimento de produto na marca americana de vestuário de tamanhos grandes Lane Bryant. E mudança é algo que Jones, que esteve já envolvida na implementação de cinco soluções de gestão de desenvolvimento de produto (PDM) e de gestão do ciclo de vida do produto (PLM) nos últimos 20 anos, conhece muito bem.

«Inicialmente toda a gente pensa que vai tornar o trabalho mais difícil, que é mais trabalho. Algumas das coisas mais difíceis com a implementação do PLM é que os utilizadores não sabem. E quando não sabem começam a criar cenários “apocalípticos” na sua cabeça sobre porquê algo pode fazer ou não fazer alguma coisa, ou quando é que algo vai ser implementado ou “ó meu Deus, o meu trabalho vai mudar completamente”», explicou a diretora de tecnologias de desenvolvimento de produto da Lane Bryant durante uma apresentação no evento Product Innovation Apparel em Berlim.

Não há soluções imediatas

À margem do evento, e em declarações ao just-style.com, Jones acrescentou que um dos grandes desafios que encontra é conseguir que os utilizadores percebam que o sistema não vai resolver os seus problemas de um dia para o outro. «O nosso processo de desenvolvimento no retalho situa-se entre quatro semanas e 52 semanas, dependendo da categoria de produto, por isso, muito do benefício em termos de tempo não é percebido até quase um ano após a implementação. E essa é realmente uma mensagem difícil de passar ao negócio – que pode não se ver agora, mas que vai compensar, ou que sim, pode ter que se fazer mais três coisas hoje, mas que poupa o equivalente a três semanas de trabalho a alguém mais tarde – e que o benefício em tempo real não é, necessariamente, reconhecido de imediato», explicou.

O tempo, parece, é também um elemento fundamental para gerir a implementação de ferramentas de design 3D com sucesso. Simon Kim, diretor de estratégia na CLO Virtual Fashion, sublinhou na sua intervenção a importância de dar aos utilizadores tempo para aprenderem e adaptarem-se a novas tecnologias. «Vimos muitos casos em que os designers que vão fazer workshops de formação desistem porque têm de regressar ao escritório devido à quantidade de trabalho que têm para fazer», explicou. «A adoção com sucesso funciona de dentro para fora, começa com as pessoas que percebem que o 3D pode ser benéfico para o seu processo e sentem-se tão apaixonadas com isso que contam aos colegas. É assim que a inovação deve espalhar-se numa empresa – é a forma mais orgânica de o fazer. Por isso, é dar-lhes tempo para aprender e a adoção com sucesso vai acontecer», acrescentou.

Também Ed Gribbin, presidente da consultora Alvanon, acredita que embora «as tecnologias 3D tenham o potencial para moldar a forma como a indústria faz negócios», os efeitos completos podem não ser sentidos durante muito tempo.

Mudança cultural

Em declarações ao just-style.com, Gribbin afirmou que a resistência à mudança se resume a uma questão cultural na indústria. «Penso que as empresas têm sido capazes de escapar com a ineficiência porque têm conseguido aprovisionar produto cada vez mais barato e agora chegaram a um ponto em que já não podem fazer isso», referiu. «Por isso estão a perceber que se não conseguem encontrar produtos mais baratos, têm de aumentar a sua rentabilidade sendo mais eficientes. Mas exige muitas mudanças culturais numa organização e muita liderança, por isso penso que é um verdadeiro desafio para a indústria», destacou.

Gribbin acrescentou ainda que os que estão a «ganhar» estão a dar o exemplo aos que podem estar com dificuldades. «A cultura e a liderança são duas questões, mas há também a educação e o desenvolvimento profissional. Hoje os associados estão na empresa há muito tempo e entram numa rotina. Criamos toda uma divisão que faz formação e educação para tentar reunir as pessoas com as melhores práticas no que se passa hoje na indústria e pensamos que esse investimento em recursos humanos é absolutamente crítico se realmente se quiser afetar a mudança cultural no negócio», referiu.

Para Alexis Kantor, vice-presidente de vestuário e acessórios e desenvolvimento de produto na retalhista americana Target Corp, apesar da retalhista ter uma estratégia e um roadmap «muito, muito sólidos» sobre quais são as necessidades de tecnologia de design 3D da empresa, a principal dificuldade foi simplesmente as pessoas não estarem prontas para a mudança. «Não demos crédito suficiente a quanto a nossa cultura seria resistente à mudança», explicou.

«Apesar das pessoas irem online e comprarem coisas e nunca as terem visto e confiarem, no que diz respeito a uma decisão de negócios, essas mesmas pessoas, que provavelmente na noite anterior estavam no computador a comprar uma camisa fantástica online, estão a dizer “não sei, ainda não me parece, não tenho a certeza, é esta a forma como o tecido vai parecer, tem a certeza”. Há milhões de desculpas e realmente tem a ver com a nossa cultura e se estamos prontos para a mudança», referiu.

Apesar de ser a segunda maior retalhista nos EUA, Kantor afirmou que a Target «realmente tinha de repensar os seus próprios processos, as suas próprias ferramentas e as suas próprias mentalidades porque isso era uma grande parte» da questão. «Se as pessoas estiverem fixadas e determinadas que algo não vai funcionar, então não vai funcionar. Por isso, encontrem as pessoas que acreditam, mostrem os pequenos sucessos mas não subestimem a cultura», acrescentou.

Dever de partilhar

Segundo Kantor, o momento de mudança na empresa foi uma reunião com a Coach sobre as próprias experiências da empresa com o 3D. «Uma das nossas melhores experiências foi uma reunião com a Coach e a transparência que eles nos deram», revelou a vice-presidente de vestuário e acessórios e desenvolvimento de produto da Target Corp. «Agora sentimos que é nosso dever continuar a falar sobre as nossas aprendizagens e partilhar a nossa história. Nada do que partilhamos significa que vamos estragar o nosso negócio, só nos torna melhores – estamos todos à procura do mesmo. Este é apenas o momento do salto», referiu Alexis Kantor.

Um ponto em que Nicole Jones concorda. «Quanto mais comunicação houver com os utilizadores, melhor», indicou a diretora de tecnologias de desenvolvimento de produto na Lane Bryant. «Tem tudo a ver com comunicação e partilha de informação e falar com os associados», afirmou.

Não esquecendo os obstáculos que surgem sempre durante um processo de implementação, Jones referiu que a comunicação é «crítica», um ponto de vista suportado por Anastasia Charbin, diretora de marketing da fornecedora de soluções de gestão do ciclo de vida do produto Centric Software. «Quando se implementa alguma grande nova tecnologia que será usada por um grupo, a comunicação é a chave. As pessoas precisam de perceber que mudanças estão em curso e como vão ter um papel no sucesso do projeto. O lançamento do projeto deve ser desenhado de forma a que a equipa tenha um sentimento de contributo e satisfação quando se atinge os objetivos», sublinhou.

O diretor de estratégia na CLO Virtual Fashion, Simon Kim, foi mais longe e acredita que toda a indústria deve partilhar as suas histórias porque «o 3D toca todas as preocupações que temos e toda a gente no processo, do início ao fim. O 3D não é uma ferramenta de visualização, o 3D é uma nova linguagem na moda».