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Segunda-mão procura ganhar dimensão

As empresas de moda em segunda-mão estão a lutar para conseguir adquirir rivais mais pequenas para ganhar dimensão, numa altura em que a procura por artigos previamente usados está a aumentar, impulsionada pela escassez de stocks nos retalhistas tradicionais provocada pelos constrangimentos no aprovisionamento.

Vestiaire Collective [©Vestiaire Collective]

Empresas que chegaram recentemente à Bolsa de Valores, como a Poshmark e a ThredUp estão a começar a comprar empresas mais pequenas para se defenderem da concorrência de marcas de vestuário com grande capacidade de investimento, como a Levi Strauss & Co e a Urban Outfitters, que lançaram os seus próprios negócios de vendas em segunda-mão.

O crescimento em volume é essencial para as empresas de vestuário em segunda-mão conseguirem lucros constantes numa indústria conhecida por margens apertadas e inventário inconsistente, referem os analistas citados pela Reuters.

«Empresas como a ThredUp e a Poshmark têm de demonstrar crescimento e uma das coisas que provavelmente farão nos próximos anos é adquirir outros players, talvez em países estrangeiros», afirma Neil Saunders, diretor-geral da empresa pesquisa de mercado GlobalData.

A indústria de vendas em segunda-mão deverá crescer 11 vezes mais rápido do que o sector do retalho de vestuário no geral no período até 2025, de acordo com a GlobalData, impulsionada também por uma crescente consciencialização sobre as consequências ambientais da fast fashion.

Poshmark [©Poshmark]
Isso pode tornar a indústria num íman para negócios, à medida que as empresas procuram crescer rapidamente para capitalizar um boom que as estimativas da indústria sugerem que pode mais do que duplicar o tamanho do mercado de vestuário em segunda-mão dos EUA, para 76,4 mil milhões de dólares (cerca de 65,8 mil milhões de euros), até 2025.

A Poshmark, uma plataforma de vendas diretas do consumidor para o consumidor, que cobra uma comissão de 20% sobre cada transação, fez a sua primeira aquisição no início de outubro, de uma empresa que autentica ténis. A retalhista está a analisar mais potenciais aquisições, especialmente nos mercados externos, numa altura em que procura aumentar em mais de 500 milhões de dólares a sua liquidez.

«Até agora, os quatro países em que entrámos – EUA, Canadá, Austrália e Índia – foram todos orgânicos, mas certamente há lá também oportunidades de crescimento inorgânico», indica, à Reuters, o CEO Manish Chandra.

A rival ThredUp comprou o site europeu Remix Global em julho, numa tentativa de expandir-se para além dos EUA, uma aquisição que acredita poder impulsionar a expansão na Europa.

A Etsy, por seu lado, adquiriu a app britânica de moda em segunda-mão Depop por 1,6 mil milhões de dólares. Mais consolidação «vai acontecer», tinha já anunciado Julie Wainwright, CEO da especialista em moda em segunda-mão de luxo The RealReal, no início deste ano.

Grandes players atentos

As perturbações na cadeia de aprovisionamento, que estão a dificultar a colocação de novos modelos nas lojas – o vestuário tem os níveis mais altos de artigos esgotados online entre os sectores de retalho dos EUA neste período que antecede a época de Natal, segundo a Adobe Analytics –, estão a beneficiar os vendedores de artigos em segunda-mão.

O Tradesy, um marketplace de segunda-mão apoiado por Richard Branson, que angariou 67 milhões de dólares numa ronda de financiamento no início deste ano, espera que a escassez de novas peças de vestuário se traduza em fortes vendas na época de Natal. Segundo a CEO, Tracy DiNunzio, a empresa prefere o crescimento independente, mas está aberta a «outras possibilidades».

Outras empresas têm-se mostrado maduras para atrair o investimento de atores do universo da moda já bem estabelecidos. A plataforma direcionada para a gama alta Vestiaire Collective angariou 215 milhões de dólares este ano como parte de uma ronda de financiamento que incluiu o grupo de luxo francês Kering, que detém agora uma quota de 5% da empresa.

«Não consigo imaginar nenhum grande ator da moda ou do vestuário a não fazer parcerias ou a não investir ou a não comprar uma start-up de sucesso (de vestuário em segunda-mão)», salienta Jon Copestake, analista sénior do grupo Global Consumer da EY.

Levi’s Secondhand [©Levi’s]
A Levi Strauss lançou no ano passado o seu próprio website Levi’s Secondhand, onde vende peças em denim usadas e autenticadas, provenientes, em grande parte, dos seus próprios clientes.

Outras empresas de vestuário, como a Urban Outfitters, estão a optar por marketplaces de consumidor para consumidor, onde a empresa liga compradores e vendedores de vestuário usado e recebe uma comissão de 20% sobre as vendas.

Com margens baixas, aumentar o volume de vendas é importante. A Urban Outfitters afirma que focar-se num modelo peer-to-peer, no qual uma empresa fornece uma plataforma para transações entre indivíduos em vez de se envolver diretamente nas vendas, é fundamental para que o seu modelo de negócio funcione.

«Este é um jogo de volume. Num modelo de marketplace peer-to-peer, a escala é muito mais possível e há muito mais potencial para fazê-lo rapidamente, porque a plataforma não é o juiz da oferta», resume David Hayne, diretor de tecnologia da Urban Outfitters.