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Segurança máxima

A mesma tecnologia que possibilita os pagamentos através do smartphone está agora a ser utilizada para identificar produtos de designer contrafeitos. Os microchips estão ao serviço do luxo e contra a falsificação.

As falsificações estão em todo o lado (ver Contrafação chinesa nos EUA). O frequente logotipo “LV” na movimentada Canal Street de Nova Iorque ou a pilha de bolsas tipo Chanel no Grand Bazaar de Istambul já não causam particular surpresa nos dias que correm.

A contrafação continua a assolar o sector de luxo, custando às empresas europeias de vestuário e acessórios perto de 26,3 mil milhões de euros anualmente – cerca de 10% das suas vendas –, surtindo ainda impacto na reputação das marcas, analisa o portal de moda Fashionista.

As marcas têm vindo a recorrer a associações comerciais e mecanismos legais para colocarem um ponto final na produção e venda de imitações. Todavia, recentemente, começaram a procurar soluções criativas e tecnológicas por iniciativa própria.

Recentemente, a Moncler anunciou que na sua coleção primavera-verão 2016, todos os produtos vão conter microchips com tecnologia RFID (sistema de identificação por radiofrequência), cada um contendo uma identificação única que permitirá que os utilizadores autentiquem os seus produtos através dos smartphones ou através do website code.moncler.com.

Ao recorrer à mesma tecnologia que permite que os utilizadores da Apple Pay façam pagamentos através do iPhone, será muito mais fácil os clientes identificarem se o casaco Moncler é uma farsa.

Ainda assim, a Moncler não é a única marca de luxo italiana a incorporar microchips na batalha contra a falsificação. Começando na coleção pré-outono de 2014, a Salvatore Ferragamo incorporou tecnologia RFID na sola esquerda dos sapatos para permitir que a empresa verificasse a sua autenticidade. Desde então, adicionou as etiquetas aos produtos de outras categorias, incluindo bolsas de senhora, calçado masculino e pequenos artigos em couro.

A tecnologia RFID não é novidade, mesmo na esfera do retalho (ver RFID de pedra e cal na moda). Grandes retalhistas como a Walmart, a Marks & Spencer ou a Zara (ver Inditex mais tecnológica) têm vindo a integrar estes chips nos seus produtos, a fim de melhorar o rastreamento e a gestão de inventário, possibilitando uma avaliação mais rápida onde os produtos estão na cadeia de aprovisionamento, quantos têm em stock num determinado armazém, loja ou até mesmo numa prateleira e reabastecer em conformidade.

Marcas como a alemã Gerry Weber, que incorporou a RFID nas suas etiquetas em 2011, assistiram a aumentos de vendas na ordem dos dois dígitos quase imediatamente depois da integração da tecnologia, porque são agora capazes de reabastecer os seus produtos de forma mais precisa e eficiente, revelou Steven Owen, vice-presidente executivo de vendas e marketing da NXP Semiconductors, que produz as etiquetas para a Gerry Weber, bem como para a marca Viagra da Pfizer.

Outras empresas têm utilizado es tecnologia para combater o roubo, usando os números de série dos microchips para impedir as pessoas de entregar produtos não registados nas lojas, ou controlar os fornecedores que produzem ilegalmente excesso de stock e o vendem no mercado aberto.

Owen sublinha ainda que, embora esta tecnologia seja conhecida há anos, as empresas têm sido lentas em integrá-la, em parte porque a construção de um sistema que identifica e rastreia todo o inventário de uma empresa requer um investimento considerável.

A solução também se tornou mais atraente à medida que a qualidade e sofisticação destes sistemas aumentaram e o tamanho e o preço dos chips diminuíram. A tecnologia custa à Gerry Weber, por exemplo, 9 centavos de dólar (aproximadamente 8 cêntimos) para marcar cada um dos cerca de 30 milhões de peças que produz por ano.

Mas, tal como acontece com qualquer nova tecnologia – particularmente mo âmbito dos dispositivos de tracking (rastreamento) –, as preocupações com a privacidade proliferam. A Gerry Weber desativa as suas etiquetas nos pontos de venda, mas a Moncler e a Ferragamo atuam de forma diferente.

Na Europa, onde as leis de privacidade de dados são mais rigorosas, é necessário «dizer ao cliente que se está a fornecer um produto desse tipo com um chip RFID e número de série», sublinhou Owen. A Burberry, por exemplo, divulga os usos de RFID no seu website. Existem algumas leis americanas estaduais que proíbem, por exemplo, a exploração ilícita da tecnologia RFID nos cartões de identificação, mas nada que exija que um retalhista divulgue que os chips são incorporados nos produtos que vendem.

Não é difícil imaginar um dia em que tudo – das lâminas de barbear às notas – tenha microchips. E a tecnologia só vai ficar mais sofisticada ao longo do tempo. No ano passado, investigadores da Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, apresentaram um protótipo para a incorporação de RFID em fios. Há cerca de três meses lançaram uma empresa, a Advanced E-Textiles Ltd, para levá-los para o mercado.