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«Sei muito bem a responsabilidade que carrego nos ombros»

Com os ralis em pausa por causa do Covid-19, Armindo Araújo tem estado ainda mais voltado para a Lemar, onde trabalha desde os 18 anos. As máscaras de proteção têm aberto novas portas à empresa familiar, num cenário muito diferente do previsto no início do ano pelo administrador.

Armindo Araújo

A cumprir 20 anos de carreira enquanto profissional do desporto automóvel, onde soma cinco títulos nacionais absolutos e dois títulos mundiais, Armindo Araújo tinha acabado de vencer o Rali Serras de Fafe e Felgueiras, prova inaugural do Campeonato de Portugal, quando recebeu o Jornal Têxtil na Lemar.

Na altura, o impacto do novo coronavírus em Portugal e no mundo era ainda diminuto e os primeiros dois meses do ano estavam a trazer bons negócios à empresa, há muito parceira privilegiada de marcas como a Villebrequin, Puma e Kenzo.

Desde então, a Lemar não revelou sinal de abrandamento e até conseguiu abrir um «novo mercado», segundo Armindo Araújo, que à Lusa explicou, em meados de abril, que «estamos atentos e a tentar vender um produto de qualidade, certificado, e, por agora, temos tido uma boa aceitação».

Apesar destas mudanças, a visão do piloto e administrador da Lemar para o futuro mantêm-se. «A vida vai rolando, todos temos de nos adaptar a estas medidas de precaução, mas temos de andar. Se paramos, não morremos da doença, mas morremos da cura», sublinhou à Lusa, reafirmando, dessa forma, os objetivos que tinha já traçado na entrevista publicada na edição de março do Jornal Têxtil, que passava pelo crescimento sustentado, tendo por base a inovação do produto, a reatividade ao mercado, a atenção e resposta rápida ao cliente e, sobretudo, passos seguros numa trajetória evolutiva que começou há mais de oito décadas para a produtora de tecidos.

Como aconteceu a sua implicação no negócio familiar?

Trabalho na Lemar desde os 18 anos, mas toda a minha infância e juventude foi passada na empresa. Eu vinha quase sempre com a minha mãe, conheço os funcionários desde sempre, alguns inclusive andaram comigo ao colo em miúdo. Estamos a falar de uma empresa com 80 anos e eu tenho 42, portanto, muitas das pessoas aqui viram-me crescer, a construir a minha carreira no sector têxtil e também a construir a minha carreira no desporto automóvel.

Manteve-se sempre na Lemar, mesmo quando encetou uma carreira internacional no desporto automóvel?

Nunca abandonei a Lemar. Mesmo quando estive a correr lá fora, todos os momentos que estava em Portugal vinha à Lemar, sempre acompanhei o quotidiano da empresa.

Nunca tive um cargo específico, nem o meu irmão tem um cargo específico, nem a minha mãe tem um cargo específico – basicamente complementámo-nos os três. Toda a gestão da empresa é feita pelos três. Temos uma forma de estar muito simples: qualquer decisão que um dos três tome, prevalece, para o bem e para o mal. Nunca desautorizamos qualquer decisão tomada pelo outro. As estratégias da empresa, obviamente, são pensadas e depois decididas em conjunto, mas no trabalho diário cada um vai gerindo os problemas que surgem, quer seja na produção, quer seja na parte comercial, quer seja na parte financeira. Estamos os três atentos a todas as partes da empresa.

No início, o que mais o atraiu na empresa?

Em miúdo vinha para cá brincar. O que acontece é que, a brincar, a brincar, vamos conhecendo a empresa, conhecemos as pessoas, que é o mais importante das empresas, conhecemos todos os cantos à casa, todo o tipo de máquinas e todos os artigos produzidos, e desde criança estava muito familiarizado com aquilo que o meu bisavô criou. Se, numa primeira fase, andávamos a brincar na tecelagem, para ver e acompanhar as máquinas, algo que sempre gostei, mais tarde começo a acompanhar a minha mãe nas feiras e a ter algum interesse também pela parte comercial, em conhecer os agentes que temos espalhados pelo mundo, a conhecer os clientes. Cada um vai seguindo o seu caminho, por onde se sente mais à vontade. O meu irmão, que está numa parte mais interna, segue mais a empresa no dia a dia, e eu tenho acompanhado a minha mãe, mais agora, na parte comercial fora de Portugal. Foi uma decisão natural, daquelas decisões que não se falam, não se conversam nem se decidem. O meu irmão está mais à vontade para estar por aqui e eu, também devido à minha outra atividade profissional, estou mais a viajar. E também gosto muito da parte de conhecer e de falar com as pessoas cara a cara. Gosto de falar com os meus agentes, porque é importante percebermos as dificuldades deles – ao entendermos as dificuldades dos agentes, vamos ao encontro daquilo que os clientes querem. Essa parte social, que por vezes até parece que nem estamos a trabalhar, permite captar muita informação, estar atento às novidades que vão aparecendo, que depois pode ser muito proveitosa para a empresa.

Em 2012 abandonou a competição. Foi uma decisão encarada como definitiva?

Sim, na altura achei que poderia ser definitivo. Mas para fazer um enquadramento, fui profissional desde 2002 até 2011, com projetos em várias marcas, da Citroën, da Mitsubishi e da Mini. Com a grande crise que Portugal atravessou, foi difícil arranjar financiamento para montar os projetos com a envergadura que estava a montar e decidi parar e não montar nenhum projeto desportivo no final de 2012. Os anos passaram, continuei ligado à empresa, a nível pessoal desenvolvi outro tipo de negócio e criei outros focos de interesse na minha vida, até que, em 2018, recebi o convite por parte da Hyundai Portugal para montar um projeto para eles, para ser piloto da Hyundai e voltar a correr no Campeonato Nacional. Fazer o Campeonato Nacional despende muito menos tempo, comparado com o Campeonato Mundial, e decido avançar – obviamente que tive alguma facilidade, porque tendo a minha mãe, o meu irmão e o meu pai na empresa, permite-me sair e não estar a acompanhar a 100% a Lemar quando estou a correr ou quando estou a treinar. Portanto, decidi abraçar o projeto desportivo em 2018, onde fui Campeão Nacional pela Hyundai, mas depois decidi mudar um bocadinho novamente a minha vida e, para estar mais confortável e dominar melhor o meu negócio desportivo, achei que a forma de estar no desporto automóvel era com um projeto próprio, um projeto que dominasse a 100%.

Por isso, decidi criar a Armindo Araújo Rally Team, onde sou o gestor único e exclusivo da minha equipa e que me permite, basicamente, decidir o que vou fazer e tomar as melhores opções comerciais e técnicas para o meu projeto desportivo.

Como se concilia duas atividades profissionais tão exigentes, a desportiva e a empresarial?

Aí está também muito da minha decisão. Quando somos pilotos das marcas, somos muito mais requisitados pela marca para fazer certo tipo de ações com eles. Sendo eu o gestor deste projeto, posso ajustar a minha agenda ao meu projeto desportivo e, portanto, permite ter muita mais flexibilidade de tempo e de meios para poder estar mais focado no meu projeto desportivo e mais focado na Lemar.

Há alguma fronteira entre as duas atividades?

Sinto necessidade de separar quando estou focado em determinados aspetos específicos da empresa ou do desporto motorizado. Mas de uma forma global não preciso de separar, porque tenho que ser profissional ao mais alto nível na parte desportiva e profissional ao mais alto nível na parte da Lemar e, portanto, tenho que ser um bom gestor no meu projeto desportivo, porque depende muito da minha boa gestão, tal como a Lemar precisa muito da nossa boa gestão – aqui não sou sozinho, sou eu, a minha mãe, o meu irmão e o meu pai. A parte da Lemar gerimos em grupo, a parte da Armindo Araújo Competições é uma coisa gerida por mim já há muitos anos, com muitos projetos, com muitas marcas, com muitos patrocinadores envolvidos e, felizmente, sempre tudo teve sucesso. Mas sei muito bem a responsabilidade que carrego nos ombros.

Que mais-valias trouxe a sua carreira de piloto de rali para uma empresa com o perfil da Lemar e vice-versa?

São atividades que se complementam muito. Sou, em Portugal, um dos poucos pilotos que corre apenas com patrocínios. Represento há 15 anos a Galp, a maior empresa portuguesa, e há 18 anos a Meo, que é o antigo Grupo PT. São empresas com valores muito grandes e para representarmos estas empresas temos de ser grandes desportistas e, ao mesmo tempo, grandes gestores e ter uma imagem forte para estas marcas. Isto é um negócio. A Galp não me patrocina pela amizade que tem comigo. Tenho que ser uma mais-valia para a Galp e a Galp tem de ser uma mais-valia para mim. A Câmara Municipal de Santo Tirso, eu sou de Santo Tirso, é meu patrocinador desde o meu primeiro rali, há 20 anos – faço este ano 20 anos de carreira. Portanto, não é cor política, não é amizade com o presidente, porque já passei por vários presidentes e todos eles consideram que a nossa relação é boa para a imagem do município. Todo o meu projeto envolve parcerias com o mais variado tipo de entidades, em que criamos uma imagem forte e somos uma mais-valia um para o outro. Este tipo de gestão, esta forma de estar no desporto, aplica-se muito à Lemar. A Lemar tem uma imagem a defender, tenho de gerir a Lemar e tratar o nome Lemar, que é de uma empresa com 80 anos, com muito respeito. Tenho de tratar muito bem os meus antepassados, tenho que estar muito atento também àquilo que o mercado vai pedindo e vai mudando, porque achamos que o caminho é numa direção, mas o mercado está a pedir noutra e temos que readaptar a empresa para o outro lado. Desde muito jovem, ter tido essa responsabilidade na mão com os projetos desportivos deu-me alguma estaleca, alguma experiência para poder estar aqui com outro à-vontade e com outra visão.

A Lemar marcou presença, pela segunda vez, na ISPO Munich. Há uma viragem para a área do desporto, mais técnica, ou trata-se apenas de um complemento ao negócio da moda?

Não temos nenhum enfoque específico. Estamos sempre atentos aos mercados todos que nos possam aparecer e estamos muito focados em evoluir permanentemente e em estar preparados para responder às necessidades dos nossos clientes.

É evidente que a Lemar tem um enfoque muito grande na moda, tem um enfoque muito grande no banho, no mar e nos calções de banho de homem e tecidos para estas especificidades, mas abraçamos todo o tipo de artigo, desde casualwear a sportswear e activewear, fazemos tecidos para sapatos, para calças, para sacos… Fazemos tecidos para variadíssimas situações. Temos que estar atentos àquilo que o mercado nos está a pedir e o desporto é mais um negócio que temos ao lado de outros.

Há uma estratégia desenhada por segmentos de produto?

A Lemar opta por não ter essa estratégia. Não estamos focados em vender tecidos para calções de banho de homem, porque aí estaríamos a estrangular o nosso negócio. A estratégia é não ter essa estratégia. Queremos abrir para podermos estar em todos os segmentos. Portanto, quando alguém nos diz que somos só de banho, tenho de dizer “também somos banho”.

Mas são os tecidos para calções de banho que deram maior notoriedade à empresa.

Sim, porque somos uma referência mundial nos tecidos premium para calções de banho. A nossa qualidade e o empenho que temos posto neste tipo de artigos, e também os clientes que nos compram estes artigos, faz com que sejamos uma das grandes referências.

Que balanço faz da participação na ISPO?

Um balanço positivo, mais uma vez, reflexo do nosso posicionamento. Os contactos correram bastante bem, temos um agente na Alemanha que consideramos muito interessante e com uma atitude para com o mercado muito interessante e, portanto, acredito que a ISPO é para continuar nas nossas apostas, pelo menos no médio prazo.

A presença num certame tão diferente da Milano Unica ou da Première Vision Paris implicou alguma mudança na coleção?

Temos uma coleção bastante grande, que pode tocar várias partes – mais para moda ou mais para mar ou mais para desporto ou mais para artigos de trabalho e segurança. Quando fazemos a nossa seleção de artigos para ir a uma ISPO, focamo-nos obviamente mais em artigos que possam ser utilizados na área do desporto. Temos artigos com acabamentos especiais, com capacidades térmicas, antibacterianas, temos artigos com capacidades elásticas diferentes, temos artigos com variadíssimas propriedades, que podemos oferecer para produzir roupa que os atletas se sintam mais confortáveis na montanha, na praia, a correr. Hoje, contudo, a moda também está aplicada ao desporto e cruzam-se muito – também temos essa valência, ao fazermos produtos com capacidades para desporto, mas a tocar a moda. Conseguimos cruzar isso, o que é muito importante para nós.

A sua experiência enquanto profissional do desporto tem alguma influência no desenvolvimento de produto?

De alguma forma sim, porque tenho uma capacidade de análise um bocadinho diferente. Sendo eu um desportista, tenho uma capacidade de análise diferente de um técnico e consigo perceber, por vezes, quais são as diferenças que podem aparecer numa ficha técnica e aquilo que é o nosso tato, o que é a nossa experiência a usar determinado tipo de tecido, o que sentimos. Aí sim, essa capacidade de análise pode dar-nos, por vezes, algumas vantagens, porque também utilizo este tipo de artigos em alta competição.

Que papel desempenham as feiras na expansão internacional da Lemar?

Antes de mais, convém lembrar que a minha mãe foi uma visionária, e temos que lhe dar mérito. Atualmente, todas as empresas falam em feiras, mas a minha mãe faz feiras internacionais há 25 anos. Quando ninguém falava em feiras, a minha mãe já andava lá fora a fazer feiras. Nós, eu e o meu irmão, hoje temos a felicidade de ter esse trabalho já feito, esse difícil trabalho que é entrar nos mercados internacionais e nas feiras internacionais. Estamos lá fora nas feiras porque achamos que temos que estar no mundo. A Lemar quer, cada vez mais, estar pelo mundo todo. E tem algumas feiras de referência em que está 100% focada e, ano após ano, vai fazendo pequenas experiências em novas feiras que vão surgindo no mercado. Umas correm bem e a Lemar decide continuar a apostar nelas e alarga o seu leque de feiras. Outras podem não correr tão bem e a Lemar faz apenas algumas tentativas e depois pode abandonar o mercado, se achar que não é viável para a empresa. Mas estamos sempre atentos a novas feiras e tentamos fazer o máximo número de feiras possível, tentamos arranjar agentes em todos os países, porque não ligamos à dimensão do país, ligamos a querer estar lá e damos a mesma atenção a todos os mercados. Temos uma filosofia de alocar os nossos comerciais aos países – cada comercial tem os seus países para tratar e trata diretamente com os agentes. A nossa filosofia, a nossa estratégia é esta e quanto mais tivermos, mais vamos tentar fazer. Obviamente que há países que não são tão interessantes como outros e vamos fazendo uma seleção.

Qual é a quota de exportação direta da empresa?

Diria que exportamos cerca de 50%. Nunca podemos esquecer Portugal, porque tem muito potencial. Acho que a Lemar está bem equilibrada nessa balança: está bem cá dentro, está bem lá fora e quer crescer nos dois.

O core da Lemar é a tecelagem. Há planos para alargar a atividade industrial?

Não, neste momento não estamos a pensar nisso. Obviamente que, dando os nossos acabamentos fora, poderíamos pensar em adquirir uma tinturaria ou uma estamparia. Mas acho que, para fazermos as coisas bem feitas, para termos um bom acompanhamento ao cliente, neste momento, a nossa dimensão está bem com a tecelagem e não faz muito sentido dispersar para outra área produtiva. Temos bons parceiros e acho que é melhor criarmos uma ainda melhor relação com os nossos parceiros, envolvermos mais os nossos parceiros – estou a falar das tinturarias e estamparias que trabalham para nós – e trazê-los para os nossos problemas, trazê-los para as nossas vitórias e envolvê-los no nosso negócio. Acho que é melhor esta cultura do que querermos abraçar tudo, depois podermos dar um passo maior do que a perna e as coisas não correrem bem. Se tivermos estas parcerias bem construídas e bem oleadas, e quando todos ficam a ganhar, o serviço e o produto final vão ser muito melhores. Não nos podemos esquecer que o cliente final é sempre aquele para quem todos estamos a trabalhar e vai ficar bem servido, com boa qualidade e rápido. Hoje em dia temos que ser muito rápidos a entregar ao cliente: temos que produzir, que acabar, que fazer o transporte e entregar ao cliente. Isto antigamente era preparado com meio ano de antecedência, agora há poucas semanas, poucos dias para preparar tudo. Por isso, prefiro esta boa relação, estas boas parcerias – dão-nos mais dinâmica e mais rapidez do que estarmos a querer tomar conta de tudo a 100%.

Que política de investimentos tem adotado a empresa?

Temos feito investimentos sempre muito calculados. Todos os anos temos investido em maquinaria, na parte física da empresa também, em responsabilidade social, em responsabilidade ambiental e temos tentado acompanhar as novas tendências da sociedade nos tempos modernos. Convém enquadrar que isto é uma empresa que tem a mesma base de há 80 anos. Portanto, a Lemar tem algumas dificuldades estruturais que não teria se fosse uma empresa nascida num parque industrial dos tempos modernos, e pudesse fazer as evoluções, e tivesse as estruturas básicas normais de uma empresa atual. Temo-nos transformado muito em cima de uma base de uma empresa de 80 anos.

Temos tido alguns desafios grandes para poder evoluir, mas tudo tem corrido bem e acho que, neste momento, toda a empresa está muito mais bem estruturada do que há alguns anos, com as remodelações físicas que fizemos, com a qualidade dos trabalhadores também, que tem sido muito tida em conta, a qualidade também no processo industrial, que também tem sido muito grande. Há sempre mais para evoluir, mas acho que estamos no caminho certo.

Quais foram os últimos grandes investimentos efetuados?

Compramos dois teares Tsudakoma a jato de ar, o último modelo, que penso que neste momento ainda são os dois teares mais modernos que a Tsudakoma vendeu para Portugal. Basicamente são dos teares mais rápidos em termos mundiais a produzir e têm a particularidade de poderem tecer até oito cores. Praticamente toda a tecelagem está equipada com teares Tsudakoma, o meu avô já comprava teares da Tsudakoma e a minha mãe continuou a comprar teares da Tsudakoma. Temos uma boa relação com esta construtora japonesa e estamos muito satisfeitos com esta operação.

Também realizaram fortes investimentos nas instalações.

Sim, construímos três pavilhões, um parque de estacionamento e toda a parte de sustentabilidade ambiental da empresa, incluindo tratamento de resíduos. Todos os investimentos foram feitos com capitais próprios, nos últimos três anos.

Há novos investimentos em cima da mesa?

Estamos a olhar para a frente, atentos a novos negócios e a alguma tendência que possa aparecer para podermos reagir ainda mais rapidamente. Por exemplo, tivemos agora um negócio entre mãos que precisávamos de comprar mais dois teares para aumento de produção e comprámos imediatamente, para fazer face a um cliente com uma encomenda fora do normal. É esta reatividade que nos permite servir bem o cliente e captar as encomendas.

Um dos temas incontornáveis da atualidade é a sustentabilidade. Como têm procurado responder a esta questão?

A Lemar, já há muitos anos, tinha tocado essa tecla da sustentabilidade, mas o mercado não pedia e as pessoas não eram sensíveis aos tecidos e aos fios reciclados. Portanto, não conseguíamos evoluir. Nos últimos tempos tem havido uma febre por tecidos reciclados e, atualmente, propomos uma vasta oferta de artigos reciclados e ecológicos – quase todas as marcas nos estão a pedir isso. Estamos muito focados para esse tipo de artigos agora, mas convém realçar que a Lemar – também aqui uma política muito da minha mãe – sempre primou por comprar todas as matérias-primas na Europa e certificadas. Sempre procuramos atuar num segmento alto, premium, e quisemos que esse segmento fosse servido sempre com os melhores fios e as melhores matérias-primas que o mercado pudesse oferecer. A nossa luta nunca foi oferecer o preço mais baixo. A grande luta da Lemar é sempre oferecer o melhor tecido e, neste caso, até o mais ecológico e o mais certificado. O caminho é por aqui e não na luta dos preços esmagados.

Qual é hoje o perfil do cliente da Lemar?

É um perfil médio-alto. Temos clientes como a Villebrequin, no banho, a Puma, no desporto, e a Kenzo, na moda, por exemplo.

Como têm evoluído os mercados?

Temos mercados estabilizados, como Itália, França, Espanha e EUA. Mais recentemente apostamos no Japão, uma daquelas apostas difíceis mas que está a ter sucesso para a Lemar. Também temos apostado na América do Sul, nomeadamente na Colômbia, mas os resultados têm sido mais difíceis, há sempre um ou outro cliente bom que fica, mas, olhando de uma forma geral, há mercados que correm melhor. Já tentámos igualmente a China… Mas entre os novos mercados que estejam a registar maior sucesso destaca-se o Japão. Exigiu um tempo de maturação, porque não foi na primeira investida que fomos bem sucedidos, mas persistimos e hoje temos já clientes que nos pedem para usar a marca Lemar no seu produto acabado. Dá-nos um certo orgulho quando os clientes compram tecido e pedem para usar a marca Lemar nas peças. E o Japão já nos pede isso. É uma mentalidade diferente, é uma cultura diferente e temos de ter a capacidade para nos adaptar.

Há novos mercados em vista?

Há sempre mercados em vista. Estamos muito atentos a novas feiras que possam aparecer, porque as feiras realmente são uma boa porta de entrada em novos mercados. Com as feiras temos melhor acesso até a agentes, que nos trazem clientes, e, portanto, é esse o caminho que fazemos.

Que expectativas tem para 2020?

O ano começou bem, tem-nos corrido bastante bem, estamos com bons níveis de produção e bons níveis de faturação. Existe agora esta nuvem negra do coronavírus nos mercados, que pode causar algumas dificuldades nos próximos tempos. Diretamente, ainda não nos afetou muito, apenas em alguma logística para as feiras futuras. Não sabemos o quanto isto nos vai prejudicar, à Lemar e a todo o tecido empresarial português, mas janeiro e fevereiro foram meses que nos correram bastante bem.

Que impacto este coronavírus pode ter nos negócios?

Enquanto não descobrirmos a dimensão, vai ser difícil fazer contas, porque se realmente tudo ficar paralisado, piorar nos próximos meses, isto vai-nos afetar diretamente no nosso dia a dia. Tenho clientes em Itália, com empresas com cerca de 1.000 funcionários, que basicamente puseram os funcionários todos em casa. Ninguém vai trabalhar. Se isso acontecesse na Lemar, o cenário era manifestamente perigoso, como em qualquer empresa nacional. Portanto, ainda não sabemos que impacto terá nas empresas, mas o cenário não é bonito. Se for para casos extremos, dificuldades extremas iremos ter.

Com 24 anos de experiência na indústria têxtil, que análise faz do momento do sector?

Não me considero muito experiente. Tenho a felicidade de estar bem rodeado, tenho muito que aprender, agora o mercado têxtil é um mercado muito difícil, mas também historicamente as coisas foram sempre difíceis. O que a Lemar tem feito nos últimos anos é basicamente não entrar no negócio de massas, não entrar no negócio de quantidades e entrar sempre nos negócios de nichos de mercado, com maior valor acrescentado. Foi isso que a minha mãe trouxe para esta empresa e hoje, olhando para trás, vejo que foi, sem dúvida, a melhor opção trabalhar a qualidade, com grandes marcas, e desenvolver novos produtos. Foi o que nos conseguiu manter e fazer evoluir neste caminho difícil, porque é um caminho de desafios diários. Não andamos aqui a copiar nada, estamos sempre a inventar. E inventar todos os dias é muito desafiante.

Já a Lemar cumpriu 80 anos em 2019. Na sua perspetiva, que marca deixaram as três gerações anteriores?

O meu bisavô, Leandro Magalhães D´Araújo, foi o responsável por criar a Lemar, na altura uma microempresa familiar. O meu avô, Américo Salgado de Araújo, foi o primeiro a comprar teares a jato de água em Portugal. Foi uma grande inovação naquela altura e permitiu produzir tecidos em quantidade, tecidos novos. Houve um boom e o meu avô realmente foi visionário por trazer máquinas daquelas, naqueles tempos, para cá. A minha mãe, Manuela Araújo, dá uma viragem completa quando internacionalizou a empresa. Foi atrás de mercados novos, pôs a Lemar no mundo e criou uma filosofia da Lemar estar no mercado completamente diferente da que era no tempo do meu avô. Não tem comparação nenhuma. A Lemar tem a marca dela muito vincada. A cara da Lemar ainda é a minha mãe e acho que deve continuar e, assim sendo, ainda me permite fazer algumas corridas. Só posso correr porque a minha mãe está aqui.

Qual gostaria que fosse o seu legado?

Quero continuar o trabalho da família e de uma forma cada vez mais profissional, porque a Lemar tem sido cada vez mais profissional. Não quero que a Lemar cresça muito, não é o meu objetivo. O meu foco maior é ter as pessoas certas a trabalhar comigo. Tenho trazido muitas pessoas que estudaram comigo para aqui, um dos meus braços direitos, que está no planeamento da empresa, foi um antigo team manager, que estudou comigo e era diretor da equipa quando corria nas motas, há 25 anos. Tenho trazido pessoas mais novas para a empresa, para todos nos identificarmos mais uns com os outros. Acho que todos eles terem orgulho na posição em que estão e serem responsáveis pelo lugar em que estão, saberem o que têm a fazer, é muito importante para eu estar num patamar de supervisão. Sendo a quarta geração, quero seguir aquilo que os meus antepassados fizeram e não ter sonhos fora da medida nem achar que temos que ir para patamares pouco reais. Quero dar passos comedidos, como a minha mãe deu, como o meu avô deu, que permitiram construir uma empresa sólida. É uma filosofia muito mais interessante do que estar a abraçar desafios demasiado grandes, com demasiados riscos. Todos os dias a Lemar está a evoluir e tenho que continuar a evolução que a empresa tem tido. Não crescer em demasia, porque este ramo de negócio não é de massas, não é de milhões de metros, é um ramo muito de nicho de negócio e acho que temos que nos especializar em produtos muito técnicos e complexos, que é o que a Lemar tem feito.

Que ambições acalenta ainda como profissional do desporto automóvel?

Corro enquanto tiver prazer em correr. Neste momento corro porque gosto daquilo que faço, acho que sou competitivo e acho que tenho trazido ao desporto automóvel uma nova forma de estar. Não é só estar dentro do carro, não é só colar um autocolante no carro, é envolver os meus patrocinadores. Tenho as melhores empresas nacionais comigo e ter criado estas parcerias, esta ligação que temos, esta estrutura, que criei e na qual tenho uma equipa a trabalhar comigo permanentemente, permite proporcionar algo novo aos parceiros e acho que eles já nos consideram uma referência. Mas não há nenhum projeto que faça a mais de um ano. Tenho patrocinadores a quererem assinar comigo a três e a quatro anos e eu não assino. Prefiro assinar ano a ano, mas sabendo que tenho um ano completamente controlado, assumido por todas as entidades e que seja uma coisa que eu quero. Já não quero comprometer-me por vários anos.

Cogita o regresso ao Mundial de Ralis?

O Campeonato do Mundo envolve meios financeiros muito grandes e nós temos que ser completamente racionais. Há duas formas de ir para fora: para se dizer que se vai e que se está a fazer o Campeonato e as condições são medíocres – é uma opção que não é a minha e, por isso, está fora de questão; e há outra que é ir com condições para ganhar. Após a primeira corrida do Campeonato Nacional tive, obviamente, várias aproximações de “o próximo passo tem que ser lá fora”.

Mas não estou a trabalhar nisso. Uma carreira internacional não faz parte do meu sonho neste momento. Revejo-me mais numa carreira tipo a do Carlos Sainz, em que possa até mudar de categoria, de modalidade, fazer alguma prova todo-o-terreno, ir a um Dakar. É uma sequência natural de um piloto com a minha idade e com aquilo que já fiz. Voltar ao Mundial de Ralis pode acontecer, até pode acontecer já este ano, não está fora de questão, mas voltar a montar uma carreira para subir para uma equipa oficial, com 42 anos, não é o passo mais lógico.