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Serralves foi palco de diálogo entre criativos e empresários

Tal como foi noticiado emartigo anterior, a Associação de Estudos Superiores de Empresa (AESE), em colaboração com a Associação Portuguesa de Cultura e Desenvolvimento (APCD), promoveu no dia 18 de Março, a realização de um seminário para empresários, criativos e profissionais do sector da moda, subordinado ao tema «Moda: Design e Indústria. Diálogo possível». O seminário teve lugar em Serralves e contou com o apoio da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal (ATP). O Jornal Têxtil acompanhou o evento.

O objectivo principal desta iniciativa foi fazer umbenchmarking de práticas de cooperação nas indústrias têxtil e de vestuário italiana e reflectir sobre a realidade portuguesa com a participação de empresários e criativos portugueses, conhecendo algumas experiências nacionais de sucesso resultantes da cooperação entre criadores e empresas e identificando e promovendo outras formas de colaboração. Os destinatários deste seminário são os industriais, representantes de empresas de prestação de serviços, gestores de cadeias de distribuição e gestores de grandes marcas, ligados à indústria da moda.

A Professora Emanuela Mora, socióloga, docente universitária e investigadora no Centro de Estudos da Moda da Universidade Católica de Milão abriu o seminário com uma conferência, durante a qual descreveu os factores que contribuíram para o sucesso e internacionalização da moda italiana. Dentro destes factores destacou o facto de no Norte de Itália se concentrarem todas as indústrias que apoiam a criação da moda no vestuário e calçado: a fiação e tecelagem de seda, lã, fibras e o equipamento têxtil. Muito importante foi o facto destas indústrias terem cooperado entre si, no sentido de aproveitar a abertura após a 2ª Guerra Mundial do mercado norte-americano à Europa, começando pelos produtos franceses, bem como o crescimento da procura do «ready to wear» na Europa. Na abordagem destes novos mercados, os italianos enfatizaram o culto do belo e da arte, conceitos associados a Itália e, particularmente a Florença. Ligaram a moda à tradição e a comunicação foi sempre baseada nesta ligação. Emanuela Mora chamou ainda a atenção para o facto dos designers italianos cultivarem cada um o seu próprio estilo: em Valentino uma feminilidade elegante, em Armani uma imagem de rigor e simplicidade. Esta afirmação de estilo contribui para a criação de um imaginário da marca, neste caso da «griffe» que facilitou todo o processo de comunicação e adopção por parte de potenciais consumidores. Na sua análise, a docente universitária e investigadora, considerou «criatividade difusa» como o conceito-chave da moda italiana, uma vez que a criatividade está presente em toda a fileira têxtil. Terminou chamando a atenção para o facto do conceito «moda» estar a ser substituído pelo conceito «estilo», mas que apesar desta mudança, é absolutamente necessário manter a coerência de uma marca.

O painel de empresários «Falar com designers de moda», integrou Graça Canedo daPetit Patapon, Paulo Nunes de Almeida daTRL-Têxteis, Gonçalo Esteves daQuebramar e José Alexandre Oliveira daRiopele. Todos os oradores foram unânimes em afirmar que o design contribui decisivamente para acrescentar valor ao produto, o que se repercute no maior volume de vendas. José Alexandre Oliveira daRiopele, considerou os desfios que se avizinham, nomeadamente o alargamento da UE, como vantajosos, uma vez que estimulam profundas mudanças e afirmou que devemos valorizar o que temos, passando obviamente pelo diálogo indispensável da indústria com os designers, referindo neste contexto, o trabalho de desenvolvimento de produtos da Riopele sob a responsabilidade da estilista Niki Bosch e do novo projecto do grupo Riopele, via Texarte com a Vicri. Falou também da estratégia de expansão no Brasil, com a cadeia de lojas da marca de vestuário feminina Chocolate. Gonçalo Esteves da “Quebramar” descreveu a experiência muito positiva da sua empresa referindo que desde que constituíram um gabinete de design há dois anos, apostando também numa rede de lojas da marca, os resultados da empresa tinham crescido exponencialmente. Paulo Nunes de Almeida descreveu a transição para um novo paradigma de desenvolvimento industrial, em que os empresários têm de arriscar ter um design próprio, mas defendendo ao mesmo tempo a grande capacidade de trabalho e de qualidade que se reconhece na indústria têxtil portuguesa e as ligações a outras empresas internacionais. Foi ainda notado o nosso atraso em relação à qualificação de designers de moda em relação a outros países da Europa e também Estados Unidos. Quanto à Petit Patapon, marca desenvolvida e comercializada pela Distebe, empresa do grupo Tebe, Graça Canedo salientou o facto da marca ter iniciado em 1999 um processo de expansão internacional, preparando-se para abrir a sua 100ª loja e de já estar a produzir duas linhas de têxteis técnicos para a marca de vestuário infantil.

Depois de um pequeno intervalo, seguiu-se o painel de criativos «Falar com empresários de moda», moderado por Graça Franco, directora-adjunta da Rádio Renascença e jornalista do jornal Público. Este painel foi mais polémico do que o anterior, mas teve o mérito de despertar o diálogo entre os intervenientes convidados e a assistência. Os intervenientes foram Nuno Gama, criativo da marcaMaconde, José António Tenente, Anabela Baldaque e Ana Paiva, criativa da marcaOnara, que descreveram também as suas experiências. Foi afirmada a importância de ter o apoio por parte da indústria na realização das colecções, sejam para uma marca empresarial, ou uma «griffe». José António Tenente disse ter tido grandes dificuldades ao longo do seu já longo percurso profissional, mas recentemente diz ter encontrado em cinco parcerias a possibilidade de concretizar os seus trabalhos. Anabela Baldaque, com alguma mágoa, disse ter sido impossível, devido à falta de feedback dos empresários do sector, rentabilizar o grande sucesso, traduzido em propostas comerciais de um volume já bastante apreciável, que obteve na última edição do Portugalfashionem Nova Iorque. Nuno Gama mostrou-se muito satisfeito com o seu trabalho ligado fortemente à componente industrial e salientou o quanto tem aprendido com esta sua ligação à Maconde. A referência às dificuldades sentidas pelas marcas nacionais quando abordam empresas de tecidos portuguesas, foi da responsabilidade de Ana Paiva, que salientou a pouca flexibilidade destas empresas em assegurar entregas de quantidades mais pequenas, ou mais variadas ou mais adaptadas à colecção da marca, sendo por isso usual as marcas nacionais comprarem os tecidos no estrangeiro, nomeadamenteem Itália. O responsável da Riopele discordou em parte, salientando que a atitude das empresas está a mudar, uma vez que o caminho da flexibilização da produção não tem volta.

No encerramento dos trabalhos, esteve presente a Secretária de Estado do Comércio e Indústria, Dr.ª Maria do Rosário Ventura, que afirmou o empenho do governo em apoiar a indústria portuguesa tendo referido como exemplos o programa Dínamo e a «Semana das Marcas» a iniciar precisamente na semana seguinte.

No final, os participantes puderam ainda visitar uma exposição fotográfica subordinada ao tema «Do tempo e da moda – 1949/1989» na sala hexagonal da Casa de Serralves. Nesta exposição foram destacadas como épocas marcantes a 2ª Grande Guerra e a emergência de um novo segmento de mercado, que veio a marcar as mudanças na moda do século XX: a juventude. Esta exposição foi coordenada cientificamente por Maria Helena Alvim, docente universitária e investigadora e Presidente da Associação Portuguesa de Investigação Histórica sobre as Mulheres. A coordenação artística foi assegurada por Kinga Azeredo, designer de interiores.