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Sewbots perto da confeção do futuro

Embora a utilização de robótica na produção de vestuário continue distante face à maior parte do sector, as linhas automáticas para t-shirts e jeans estão a alinhar-se num horizonte não muito longínquo e, com elas, o potencial de revolucionar a atual cadeia de aprovisionamento de vestuário.

Pete Santora, vice-presidente de vendas e marketing na SoftWear Automation, uma spin-off da Georgia Tech, acredita que a indústria de vestuário está pronta para a mudança. Não só a cadeia de aprovisionamento longa e linear é hoje «irrelevante» face à necessidade de tempos de produção mais curtos e aumento da flexibilidade para responder às rápidas mudanças nas exigências do consumidor como «a cadeia de aprovisionamento sempre está estragada», sublinhou durante a conferência “Embrace Your Digital Reality”, organizada pela Gerber Technology na Texprocess (ver A realidade digital da Gerber).

«Criámos esta enorme cadeia mundial de aprovisionamento com base em mão de obra barata. Quando retirámos toda a produção dos EUA e fomos para o estrangeiro, esse foi o início de um processo completamente estragado… e a razão pela qual está estragado é que não é sustentável. Vamos para a China, consumimos mão de obra barata; vamos para o Vietname, consumimos mão de obra barata; vamos para o Bangladesh, consumimos mão de obra barata; vamos para a Etiópia, consumimos mão de obra barata. Mas estamos a ficar sem mão de obra barata para consumir. Por isso construímos um modelo de negócio com base num processo estragado. É aqui que vivemos. Compramos vestuário porque é barato, esperamos pelos saldos e isso impulsiona a necessidade de trabalho barato. Por isso, o input da automação, da robótica na produção de vestuário, permite-nos mudar este modelo para ficar mais perto do consumidor, para ficar mais perto da cadeia de aprovisionamento, estar mais integrado verticalmente e então encontrar aí uma redução de custo», explicou.

A empresa, sediada em Atlanta, passou os últimos oito anos a desenvolver linhas de produção completamente automatizadas para vestuário. Um dos primeiros projetos foi a confeção de jeans. «Fizemos a nossa primeira operação para jeans completamente autónoma, não tocamos em nada», revelou Santora. «O material começa num lado como peças cortadas, tiramos todos os dados de costura dos ficheiros do Accumark da Gerber, por isso quando o designer faz o design em 2D ou 3D, os dados para a costura já estão integrados no ficheiro que entra no robot. O robot usa então câmaras para ver a peça à medida que entra, direciona o artigo para o posto adequado e então usa a visão da máquina e robótica para mapear a trama do tecido e então, à medida que o tecido distorce, usamos os robots para continuar a manipular o tecido pela cabeça de costura, tal como faz uma costureira», referiu.

Comercialmente, contudo, a empresa tem atualmente «dezenas» da sua linha de produção automática Lowry em operação, a fazer artigos de têxteis-lar como tapetes para a casa de banho, toalhas e almofadas.

T-shirts com produção automática

Mas o próximo lançamento comercial é para a produção automática de t-shirts – que deve estar disponível no mercado dentro de um ano e meio. «Escolhemos t-shirts porque toda a gente usa t-shirts, mas 97% de todas as t-shirts feitas são exportadas… Isso significa que que são feitas em algum sítio onde não são consumidas. Os EUA, em particular, é o terceiro maior produtor de algodão, tem o algodão mais barato no mundial, é o algodão com maior qualidade do mundo… e ainda assim não fazemos t-shirts. Por isso, para nós as t-shirts são o produto que mostra quão insustentável é a cadeia de aprovisionamento», destacou Pete Santora.

Palaniswamy Rajan, CEO da empresa, acrescentou ao just-style.com que a primeira linha de produção completa de vestuário será capaz de fazer 10 a 20 operações e embora tivesse sido possível concentrar-se em produtos como vestidos de verão e tops de senhora com a mesma tecnologia, «o volume de produção é maior nas t-shirts. Com 11 mil milhões de t-shirts vendidas em todo o mundo a cada ano, isso significa que não é só para o mercado dos EUA. Há potencial para aplicar a tecnologia em múltiplas geografias do mundo».

Combinando visão de máquinas, robótica e computação avançada, a linha para a produção de t-shirts tem por base diferentes componentes da família Sewbot. A tecnologia de visão de elevada velocidade “vê” o produto e o material «como uma costureira», contando os fios individuais numa malha e a sua interseção para controlar e guiar a operação de costura na agulha. Os “budgers” são componentes individuais de um sistema de transporte de 360º que funcionam em uníssono para mover os painéis de tecido em qualquer direção numa superfície, enquanto as chamadas “budger balls” movem-se em diferentes direções para manipular ou esticar a malha de formas diferentes.

Há ainda capacidades de pegar e colocar a malha para mimetizar uma costureira a movimentar a malha com os seus braços e dedos, permitindo várias operações diferentes ao mesmo tempo.

De acordo com a SoftWear Automation, as 13 operações necessárias para a confeção de uma t-shirt – desde a inspeção de qualidade a transferes, gola, etiqueta, costura e bainhas – demora atualmente a 10 operadoras 348,6 segundos ou 5,8 minutos a concluir.

Contudo, calcula que uma operadora a supervisionar a linha de produção automática de costura pode realizar as tarefas em menos de metade do tempo: 161,2 segundo ou 2,69 minutos.

Além disso, se a produção atual por um turno de oito horas for de 669 t-shirts, a produção da linha automática da SoftWear Automation é quase o dobro, com 1.142 t-shirts. «Com a utilização da nossa linha de produção de t-shirts, uma única operadora pode fazer 1,25 milhões de camisolas por ano», indicou a empresa.

Chegada ao mercado

Com 18 meses ainda até ao lançamento comercial, Rajan afirmou que o tempo está a ser usado para assegurar que quando o sistema chegar às fábricas seja fiável para funcionar 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano «e possa ser usado nos próximos 100 anos ou mais».

O CEO explicou ao just-style.com que «queremos dar tempo para experimentar, para que quando o produto for enviado aos clientes, eles fiquem muito satisfeitos. Queremos que tenha provas de que funciona. Porque vai para fábricas, estamos muito conscientes de que os volumes de produção sejam mantidos».

Com os desafios de fazer com que os robots lidem com tecidos flexíveis com a mesma destreza da mão humana, é uma das principais razões pela qual a automação e a robótica tem demorado a assumir as confeções, Rajan afirmou que a SoftWear Automation não vai seguir os concorrentes e endurecer os tecidos antes da costura.

«Não fazemos nada ao tecido, porque a nossa perspetiva é que os tecidos têm revestimentos e acabamentos para lhes dar um look específico, por isso se o endurecer e depois remover [o endurecimento] muda a propriedade, muda o acabamento. Por isso tivemos muita atenção para ter a certeza que é possível trabalhar os tecidos no seu estado natural. Trabalhamos em manter um toque suave no tecido», acrescentou o CEO.

O interesse na linha de produção de t-shirts é já elevado, com três encomendas por parte de empresas americanas. O sistema está também no radar de alguns produtores estrangeiros que querem diversificar mais as suas capacidades de produção nos EUA, mais próximo dos designers de produto e dos grandes centros de procura, assim como produtores estrangeiros em busca de formas de combater o aumento do custo de mão de obra, mas também a falta de pessoal qualificado.

Embora a empresa não revele o custo da linha de produção de t-shirts, refere que o investimento para «pré-encomendas que recebemos de clientes nos EUA é de cerca de dois anos».

A SoftWear Automation está ainda a aceitar pré-encomendas para células automáticas para bainhas de jeans. Embora as linhas completamente automáticas de produção de jeans estejam na mira da empresa, estas peças de vestuário implicam cerca de 30 a 40 operações. «Conseguimos fazer em laboratório, mas ainda não testamos numa fábrica 24 horas, sete dias por semana, 365 dias por ano», explicou Rajan.

Impacto da automação

Um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) do ano passado afirma que a utilização de robots de costura em mercados de destino como a China, Europa e EUA coloca uma ameaça significativa ao emprego.

«Nós criamos emprego, mas é um tipo diferente de emprego», respondeu Rajan, destacando o potencial de aumentar o emprego na distribuição, no comércio eletrónico ou no retalho «porque há mais produtos a serem produzidos. Ou, se estou a aprovisionar mais materiais localmente, isso significa que estou a criar mais emprego na produção de tecidos ou na agricultura, por isso há um efeito multiplicador. Então cria-se uma economia de serviço porque se está a criar uma indústria de bens e serviços para apoiar isso».

O CEO da SoftWare Automation acredita que «a tecnologia tem que avançar. Há ansiedade em relação à perda de emprego e à transição, mas a ansiedade tem visão curta. Temos de pensar além e temos de perceber como transformar a economia de outras formas, é reeducação, reformação. Uma das coisas que continuam a assombrar a indústria é a exploração de trabalhadores e como é que se resolve isso? A exploração diminui com a automação».