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Shein quer ser verde, mas não convence

Seguindo outros players que estão a tentar mostrar-se como mais amigos do planeta, a chinesa Shein está a envolver-se em iniciativas ligadas à sustentabilidade, tendo inclusivamente apresentado o seu primeiro relatório de sustentabilidade e impacto ambiental. Mas as críticas não se fizeram esperar.

[©Shein]

A Shein, que vende moda online a preços baixos e está avaliada em 100 mil milhões de dólares, juntou-se no ano passado ao Pacto Global das Nações Unidas e à Iniciativa de Trabalho Responsável, embora não tenham sido revelados detalhes específicos sobre essa adesão. Em dezembro, a retalhista chinesa contratou um diretor de governança ambiental e social (ESG) e criou um fundo de responsabilidade social corporativa de 10 milhões de dólares.

A Shein, uma das marcas mais conhecidas no TikTok, publicou em fevereiro o seu primeiro relatório de sustentabilidade e impacto social e a 21 de abril, o dia anterior ao Dia da Terra, assinou um acordo não vinculativo com a Canopy, uma associação sem fins lucrativos ligada à floresta, para eliminar vestuário e embalagens provenientes de florestas antigas e em perigo.

«Na Shein, entendemos que proteger as nossas florestas é essencial para criar um planeta melhor para as gerações futuras», afirma Adam Whinston, diretor de ESG da marca. «A Canopy fez avanços importantes ao abordar as preocupações sociais e ambientais associadas às fibras celulósicas artificiais e estamos entusiasmados por nos juntarmos a empresas parceiras no compromisso para com a viscose responsável», acrescenta. Não é evidente quanta viscose a Shein usa, mas um porta-voz da retalhista revelou ao Sourcing Journal que era «considerável» e que a empresa espera converter milhares de toneladas para fibras preferíveis até 2025. Uma pesquisa pelo termo viscose no website da retalhista, que contempla mais de 600 mil produtos a cada momento, gerou mais de 29 mil resultados.

[©Shein]
Ainda assim, salientam os detratores da Shein, é a rotatividade que coloca em causa o desejo de sustentabilidade da marca. Mesmo o seu relatório de sustentabilidade e responsabilidade social, aponta David Hachfield, especialista têxtil do grupo de pressão suíço Public Eye, é pouco mais do que uma «farsa» porque não mostra «qualquer sinal de que esteja a afastar-se do seu modelo de negócio de promover o sobreconsumo», além de esforços dispersos como o aumento da utilização de poliéster reciclado. O que acontece com as devoluções também não se sabe, assegura.

Muitas promessas, pouca ação

Em termos de lançamento de produtos, a Shein ultrapassou a H&M em 6.584%, a Zara em 4.259% e a Boohoo em 1.385% desde o início do ano, de acordo com a empresa de análise de retalho Edited.

«A Shein não só tem uma imensa variedade de produtos, como a sua oferta supera a dos seus concorrentes em várias categorias principais», escreveu Kayla Marci, analista de retalho da Edited, numa nota aos clientes. «Um tweet que afirma que 280 dólares na Shein é igual a um ano de roupa até se tornou viral», acrescenta. No seu relatório de sustentabilidade, a Shein refere que a sua abordagem de comércio eletrónico não só reduz a necessidade de superprodução, mas também evita impactos decorrentes de iluminação, pisos, cabides de plástico e outras ameaças ambientais das lojas físicas.

Quando Elizabeth Cline, diretora de advocacia e política da organização sem fins lucrativos de sustentabilidade da moda Remake, analisou o relatório da Shein recorrendo ao seu sistema reformulado de classificação de responsabilidade, que concede pontos com base em ações e não em promessas, ela baixou a classificação da empresa da pontuação original de 5 para 0 em 150 pontos possíveis.

«Em 2021, a Shein obteve 5 pontos por ter uma política de bem-estar animal suficiente apenas porque aparentemente não estava a usar nenhum material proveniente de animais. Agora, passou a usar penugem e lã e não está claro se ou como os trabalhadores e animais dessas cadeias de aprovisionamento são protegidos», aponta Elizabeth Cline, que descreve o relatório da Shein como «cheio de reivindicações e objetivos infundados, falta de progresso demonstrável e pistas falsas que desviam a atenção das principais áreas de impacto da empresa, que é a exploração dos trabalhadores, emissões de carbono e resíduos».

[©Shein]
Embora a Shein tenha sublinhado que auditou 700 dos seus pontos de produção em 2021, também indica que 83% deles exigem ações corretivas, esclarece David Hachfeld, coautor de um estudo de novembro sobre as condições de trabalho da Shein. O relatório não menciona quantos fornecedores a retalhista usa no total ou onde eles estão sediados. A Public Eye acredita que a Shein emprega cerca de 1.000 pessoas, a maioria na cidade de Guangzhou.

De acordo com a própria Shein, 27% das fábricas auditadas estão mal equipadas para um possível incêndio – o estudo da Public Eye descreve janelas com grades, escadas bloqueadas e nenhuma saída de emergência em algumas das empresas visitadas. Outras 14%, indica a retalhista, apresentaram violações em relação ao horário de trabalho – os trabalhadores com quem a Public Eye falou trabalhavam 75 horas semanais, com apenas um dia de folga por mês, em violação da lei chinesa. Cerca de 12% dos fornecedores auditados foram ainda apanhados em violações de tolerância zero, o que significa que é necessário tomar medidas corretivas de imediato.

«Pelo que sabemos, [a Shein tem] uma expectativa de extrema rapidez e flexibilidade», explica David Hachfeld. «[Espera que os seus] fornecedores possam entregar produtos em poucos dias. E isso, é claro, está a criar muita pressão, especialmente [em relação a] horários de trabalho». Em entrevistas com os trabalhadores, os investigadores da Public Eye descobriram que os preços por peça são «extremamente baixos», o que significa que o custo dos preços baixos da Shein está a ser «passado aos trabalhadores», o que é outra bandeira vermelha da prática de compras, acrescenta.

À medida que a inflação continua a pesar, os trabalhadores podem ficar numa situação ainda pior do que antes, alerta Neil Saunders, diretor-geral de retalho da GlobalData. «A Shein baseia-se num preço ultrabaixo e fará questão de manter essa posição mesmo num ambiente inflacionário», garante. «Apesar do seu enorme poder, não tem capacidade de contornar nem mitigar a inflação através de economias de escala – que já são abrangentes. Existem, portanto, duas soluções. Em primeiro lugar, pode aumentar marginalmente os preços, considerando que, uma vez que todos os outros no mercado estão a subir os preços, ainda manteria a sua posição competitiva. Em segundo lugar, pode tentar manter os preços pressionando cada vez mais os fornecedores e a mão de obra», equaciona.

No relatório, a Shein indica que as grandes violações têm de ser resolvidas em 30 a 90 dias dependendo da sua gravidade e que a incapacidade de o fazer pode resultar na cessação do vínculo comercial. Contudo, a forma como isso irá acontecer está pouco detalhada, segundo David Hachfeld, que considera ainda que simplesmente abandonar os fornecedores quando «os problemas são demasiado grandes» não é «uma abordagem sustentável».

Espaço para melhorias

[©Shein]
O trabalho da Shein em termos ambientais é igualmente vago, realça Elizabeth Cline, dando como exemplo o facto da Shein asseverar que está a comprar lã de fornecedores certificados, mas sem adiantar que certificações está a usar ou como está a rastrear a cadeia de aprovisionamento de matérias-primas. A retalhista também não avança dados em relação à gestão de águas residuais nem às emissões de carbono.

«É evidente que a Shein planeia inspirar-se no manual da H&M e colocar ênfase em matérias-primas recicladas e afirmar que o seu modelo de negócio de fast fashion tem menos resíduos porque está alicerçado na procura do consumidor», elucida Elizabeth Cline.

A Shein está ciente das críticas. «Apoiamos o nosso relatório e reconhecemos que há trabalho a fazer», declara um porta-voz ao Sourcing Journal. «A transparência na nossa indústria é importante e estamos empenhados em aumentá-la ao longo do tempo, com base neste relatório», afiança.

David Hachfeld reconhece que o relatório da Shein faz lembrar os relatórios de sustentabilidade de há uma década, onde as empresas «apresentavam algo muito superficial, sobretudo uma mensagem de relações públicas com alguns factos que não eram passíveis de serem provados». O especialista da Public Eye acredita que a «Shein pode apresentar relatórios mais sofisticados no futuro. Espero, na verdade, que nos próximos anos, vejamos mais detalhes. Por isso talvez seja por ser o primeiro relatório, mas na realidade, para uma empresa deste tamanho e com um diretor de ESG experiente, é bastante embaraçoso que seja um documento tão fraco», conclui.

Uma ideia que Adam Whinston vincou em comunicado, afirmando que «vamos partilhar informação adicional à medida que são implementadas novas iniciativas e medimos o impacto dos programas existentes. O empenho da Shein para com a sustentabilidade e impacto social será provado através de ações, não declarações».