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Solução à vista para decompor plástico

A reciclagem já começa a enraizar-se na mentalidade e práticas dos consumidores. Contudo, desde que o plástico foi inventado, apenas 9% foi reciclado até aos dias de hoje. De uma enzima produzida sinteticamente pode surgir a solução para a crise mundial de poluição por resíduos plásticos.

Há três anos, uma equipa de cientistas japoneses descobriu uma bactéria com a capacidade de decompor o plástico. O organismo, que vivia no solo de um aterro sanitário da cidade de Sakai, no Japão, conseguia quebrar as ligações moleculares de um dos plásticos de uso mais recorrente, o polietileno tereftalato, mais conhecido por PET. Um ano mais tarde, outro fungo com a mesma habilidade foi encontrado num aterro do Paquistão e, em 2018, um estudante universitário deparou-se com a mesma descoberta em Houston, nos EUA.

Deste modo, é facilmente presumível que a natureza parece estar a proteger-se contra as enormes quantidades de plástico que persistem no ecossistema terrestre. Neste sentido, uma equipa de investigadores do grupo de I&D Hitachi, em parceria com a especialista em inovação Cambridge Consultants, planeia recorrer à biologia sintética para produzir uma enzima capaz de decompor este tipo de material. «Ao atacar o problema biologicamente significa que podemos conseguir criar uma grande variedade de soluções», afirma James Hallinan, gestor de desenvolvimento de biologia sintética na Cambridge Consultants.

O projeto, integrado no âmbito do programa de parceria Kyōsō-no-Mori, visa «investigar as aplicações e modelos de negócio com recurso à biologia sintética, de forma a dar resposta ao desafio global de resíduos plásticos», descreve a Cambridge Consultants na sua plataforma online. A equipa tem vindo a explorar novas formas de produzir este tipo de material, sem recorrer às substâncias petroquímicas, ao mesmo tempo que decompõe o plástico presente nos aterros sanitários e nos oceanos, que, de outra forma, iria ainda subsistir durante centenas de anos.

De facto, um estudo de 2017 indica que das 8,3 mil milhões de toneladas produzidas desde que o plástico foi inventado, só 2 mil milhões de toneladas desapareceram, sendo que apenas 9% do total foi reciclado.

Vantagens da reciclagem biológica

James Hallinan acredita que «no futuro, cada vez mais produtos serão fabricados através de processos biológicos, comparativamente às formas tradicionais, que recorrem a químicos, nomeadamente petroquímicos». Com efeito, a reciclagem através da engenharia biológica traz uma grande vantagem sobre os processos tradicionais: o plástico não precisa de estar limpo e pode ser decomposto na sua totalidade. «Devolvemos os plásticos aos seus componentes iniciais que, nessa altura, estarão numa melhor posição para serem posteriormente reutilizados e reincorporados em novos materiais», explica o gestor.

Este processo de decomposição pode representar um incentivo à reciclagem para as empresas e consumidores, já que no final obterão um produto de melhor qualidade comparativamente àquele processado por vias tradicionais, equiparando-se ao material virgem. «Pode criar-se uma maior vontade económica, mais vontade industrial para este tipo de materiais», considera James Hallinan.

Por outro lado, surge ainda a possibilidade das enzimas otimizadas poderem ser aplicadas diretamente ao ecossistema e não apenas nas instalações de reciclagem, o que pode representar uma solução para eliminar os plásticos já descartados. Esta é uma hipótese que ainda requer uma investigação mais profunda, dado que a equipa tem de ser capaz de garantir que não se impõem quaisquer consequências negativas advindas da distribuição em escala desta enzima, além da obrigatoriedade de uma aprovação legislativa e respetiva regulamentação. «Não queremos começar a degradar plásticos que são importantes para as pessoas – não queremos que os frascos de champô do Walmart se comecem a decompor porque esta bactéria estaria distribuída por toda a parte», ressalva o gestor.

Este não é o único projeto a ser desenvolvido neste âmbito. No Reino Unido, um grupo de cientistas que estudava a bactéria descoberta pelos japoneses criou acidentalmente uma enzima que cumpria as mesmas funções de forma mais eficaz, decompondo o plástico em dias, ao invés de semanas. No Laboratório Nacional de Energia Renovável dos EUA, também uma equipa iniciou novos progressos com uma enzima – à qual atribuíram a denominação PETase – para acelerar o mesmo processo. E, em França, a startup Carbios desenvolveu um organismo capaz de decompor plásticos PET para que possam ser transformados em novos produtos com a mesma qualidade que o material virgem, inovação que lhe valeu a parceria com grandes empresas como a Pepsi e a Nestlé.