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«Somos muito mais acessíveis do que a maioria»

À frente do Departamento de Engenharia Têxtil desde o início de 2017, Teresa Amorim, professora associada com agregação, acredita que o bom momento da indústria têxtil portuguesa e a sua mudança para produtos com maior valor acrescentado foram os principais responsáveis pelo ressurgimento da procura pela licenciatura em Engenharia Têxtil.

No entanto, a diretora do DET destaca que os movimentos são cíclicos e, como tal, tem como objetivo não só preparar os alunos para as exigências da vida profissional, mas também manter a relação de proximidade entre professores, alunos e indústria e criar uma estrutura forte que permita ao DET prosperar e continuar a contribuir para o sucesso da ITV no futuro.

Que análise faz sobre este ressurgimento da carreira de engenheiro têxtil?

Esta mudança é devida, essencialmente, à recuperação do sector têxtil e à recuperação de empresas que já tinham uma estrutura bem estabelecida e que começaram a alterar um pouco a sua produção para produtos de alto valor acrescentado. Esses produtos de alto valor acrescentado necessitam de técnicos com uma formação mais aprofundada, nomeadamente os engenheiros têxteis, que eles achavam que eram prescindíveis. Mudou-se completamente de paradigma. Os empresários agora pensam essencialmente na parte de materiais de alto valor acrescentado, com funcionalidades. Mesmo aquelas empresas que estão a instalar fiação, estão a instalar fiações topo de gama. Os objetivos das empresas mudaram completamente. Hoje a indústria já não atua como aqui há uns anos, em que dizia que era preferível uma máquina a um engenheiro. Começaram a ver que um bom engenheiro, com uma boa preparação, é essencial. E, ao descobrirem isso, os próprios empresários voltaram-se para a universidade.

Quando houve o auge do sector têxtil, começou a haver muitos alunos – tínhamos cerca de 50 alunos e, a seguir, aconteceu aquilo que já era de esperar: houve um excesso de engenheiros têxteis no mercado. Agora parece-me que estamos interessados em aumentar o numerus clausus, mas talvez não até esse volume, porque a indústria é, sem dúvida, uma indústria pujante, ou está a ser nesta altura, mas será que tem capacidade para mais de 30 engenheiros por ano?

Que papel reconhece ao DET nessa resiliência da indústria?

É difícil de dizer. O número de alunos que se candidatava ao curso diurno era muito baixo e era impossível funcionarmos com aquele número de alunos. Tivemos de analisar qual seria o público interessado em vir para a universidade e a opção foi o pós-laboral, essencialmente com pessoas com maior idade ou que tivessem outro tipo de formação inicial que pudessem abarcar alguns conhecimentos do sector têxtil. Foi uma solução temporária.

Como é que engenharia têxtil sobreviveu aqui e não sobreviveu nas outras universidades?

Nas outras universidades, a nível público, havia na Covilhã. E se compararmos a atratividade da Universidade do Minho com a Universidade da Beira Interior, estamos em muito melhor posição, portanto, aí já é uma vantagem que temos. Quanto ao privado, é conhecido que aí há outro tipo de problemas.

Tivemos a vantagem de a estrutura que temos na universidade e a atratividade desta universidade a nível de engenharia ser muito superior, no caso, à da Beira Interior.

O que pretende fazer de diferente neste seu mandato de dois anos?

Aquilo de que nos apercebemos é que a procura é cíclica. Mas os ciclos eram relativamente longos e agora estão cada vez a ser menos longos. Ou seja, estamos evidentemente numa época de sucesso. Agora temos de nos preparar para o próximo ciclo, que provavelmente vai entrar dentro de poucos anos. Os ciclos começam a apertar-se cada vez mais.  O último foi, talvez, à volta de 20 anos e agora vai ser metade, provavelmente. A forma como as coisas evoluem está a ser muito mais rápida.

Todas as mudanças obrigam também a que haja uma reação muito mais rápida da vossa parte. Têm vindo a refrescar o corpo decente?

Isso era aquilo que desejávamos, só que está condicionado pelo regulamento da função pública. Temos muita dificuldade em contratar pessoal, a todos os níveis, desde docentes a técnicos. Ultrapassa completamente a direção do departamento.

Há uma cultura diferente na relação entre professores e alunos no Departamento de Engenhara Têxtil. Na sua opinião, a que se deve?

Temos uma cultura de proximidade com os alunos. Acho que isso não tem só a ver com a disponibilidade, mas tem a ver com a postura desde o início. Eu fiz o curso na Universidade do Porto e havia uma diferença enorme na relação entre o professor e o aluno. Não conseguíamos chegar a alguns professores, era praticamente impossível. Aqui começou com professores novos e começou do zero. A postura foi completamente diferente e tem sido cultivado esse tipo de postura. Temos relatos de alunos de outros cursos que dizem exatamente isso, que somos muito mais acessíveis do que a maioria. Eu considero uma mais-valia. Cada vez mais isso é importante, até porque depois é aquilo que se vai manter ao longo da vida profissional dos alunos – quando eles têm problemas, necessitam de atualizações e continuam sempre a bater-nos à porta.

Olhando para a formação hoje ministrada e para as exigências atuais da indústria, sente necessidade de empreender mudanças curriculares?

Pessoalmente penso que há um certo número de unidades curriculares de base que se devem manter, porque são conhecimentos que os alunos devem ter e que os podem ajudar durante toda a vida, não só na engenharia têxtil mas também noutro tipo de engenharia, eventualmente. Já nos últimos anos é importante que eles tenham acesso a tudo quanto é novidade, quer a nível de tecnologias, quer a nível de inovação dos processos. É muito importante que eles tenham essa noção e que consigam abarcar alguns conhecimentos que depois permitam que eles próprios se adaptem a essa evolução.

Para isso, os três anos da licenciatura são suficientes?

As cadeiras de base já são uma boa preparação, mas falta-lhes alguma experiência mesmo ligada ao sector, porque eles acabam por ter muito pouco contacto com a inovação, alguns processos mais sofisticados. Na licenciatura não há estágio, há um projeto. É uma pena eles não terem um estágio numa empresa, porque tinham o primeiro contacto com o mundo industrial – há grandes diferenças entre a universidade e o mundo industrial e, da minha experiência, nem todos têm uma adaptação fácil. Está-se a tentar mudar porque algumas empresas estão a propor pequenos estágios durantes as férias. E isso é muito interessante, será uma pequena introdução ao sector. Em breve vamos ter também os alunos a poderem ir às empresas, para que possam ter acesso a equipamentos topo de gama. Nós temos a obrigação de dar as noções básicas de como é que o processo funciona, mas depois o passar daí até ao trabalhar com as máquinas, às especificidades, só no local de trabalho é que se pode ver.

Em que ponto estão essas parcerias com a indústria?

Temos tido contactos com algumas empresas e, no fundo, também elas próprias estão a propor-nos que os alunos possam lá ir. Há mesmo um grupo de empresas que até espaço nos está a propor para os alunos terem aulas e desenvolverem projetos aí.

Que outra oferta formativa está prevista nesta área?

Aquilo que está em cima da mesa é, essencialmente, oferecer cursos de curta duração e de formação contínua, que acho que é o mais importante. Estamos muito interessados nisso e, infelizmente, não temos tido muito sucesso. Temos, e já propusemos a nível da TecMinho, alguns cursos e aparece-nos um número muito pequeno de pessoas interessadas, o que quer dizer que depois não temos capacidade de dar resposta. Temos, por exemplo, formação na parte de controlo de qualidade, em que temos alguns pedidos, mas depois faltam às aulas e é difícil conseguir conciliar os horários.

O que gostaria de deixar como marca sua no DET?

Uma organização suficientemente autónoma que pudesse deixar de ser suportada por A, B ou C, portanto, em que todos tivessem um contributo para um departamento excelente.