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Sourcing da América Central na recarga

O aprovisionamento de vestuário nos países da América Central, especialmente Guatemala, Honduras e El Salvador, passou de uma paralisação total gerada pela pandemia à produção de EPIs, atingindo quase o funcionamento integral. Os especialistas, contudo, estimam que o total potencial do mercado ainda está por ver.

[©Unplash]

As exportações de vestuário da região, cuja maior parte é enviada para os EUA com isenção de direitos, cresceram 46,44%, para 1,08 mil milhões de metros quadrados equivalentes nos primeiros cinco meses de 2021 comparativamente com o mesmo período do ano passado, revelou Sharon Perez, gestor de desenvolvimento de negócios de activewear e calçado na Lenzing Fibers, num seminário da Texworld Lenzing denominado “Central America Sourcing Strategy.”

Juntos, os países do Acordo de Livre Comércio da América Central (CAFTA, na sigla inglesa), que inclui também Nicarágua, República Dominicana e Costa Rica, são o terceiro maior fornecedor de vestuário dos EUA, fincando apenas atrás da China e do Vietname.

«Da Guatemala, estamos a dois dias de envio de barco para Miami ou Los Angles. Essa é uma grande oportunidade que temos. Acredito que precisamos de mais investimentos na indústria têxtil da região, por exemplo, nos tipos de fios que podemos produzir», afirma Davide Piazza, diretor comercial da Liztex, destacando que a pandemia enfatizou a oportunidade da região perante o mercado dos EUA no que diz respeito aos tipos de materiais que pode fornecer.

Segundo Diego Cuenca, gestor sénior de vendas da Mercados Internacionales, sediada no El Salvador, a América Central tem significativo potencial para crescer enquanto fornecedora de retalhistas e marcas dos EUA. «Há muitas oportunidades de estar tão perto do maior mercado final do mundo e isso está a melhorar lentamente, mas temos que o fazer mais rápido se trabalharmos juntos. Também é importante observar que a América Central já produz vestuário há 30 ou 40 anos, então a força de trabalho é muito experiente», considera.

[©Liztex]
Por sua vez, a Liztex tem-se expandido para a produção de partes de baixo e uniformes completos devido não somente à forte procura, mas também a um imperativo de expandir além de fios e malhas. Além disso, a empresa apostou ainda em acabamentos de tecidos, nomeadamente no controlo de temperatura, acabamento sem rugas e libertação de sujidade.

Com a pandemia, as empresas da América Central lidaram com a crise de diversas formas e muitas como a Liztex viram os negócios desacelerarem e os cancelamentos de pedidos a acumularem, no entanto, depois de alguns meses, os equipamentos de proteção individual foram uma das soluções, adianta Davide Piazza.

«Depois disso, começámos a fazer muitas malhas porque as pessoas trabalhavam em casa e compravam t-shirts, camisolas de malha e calças macias. Deste modo, a Liztex começou a produzir fios 100% para malhas. Quando a indústria voltou a funcionar, começámos tudo de novo com uniformes tecidos. Por isso, realmente não sentimos uma grande falta de pedidos durante a pandemia e agora podemos fazer o negócio crescer novamente», esclarece o diretor comercial.

Um novo olhar

O El Salvador confinou totalmente a 18 de março de 2020 e a Mercados Internacionalies viu-se obrigada a fechar portas, mas no mês seguinte as produtoras têxteis foram consideradas como indústria essencial e pode voltar ao ativo e fabricar EPIs. «Acho que as relações entre as fábricas e as empresas têxteis ficaram ainda mais fortes durante a pandemia e muitos pedidos que deviam ser produzidos no El Salvador foram transferidos para Honduras e Guatemala. Isso foi bom para nós, porque fazemos negócios em toda a região», conta Diego Cuenca ao Sourcing Journal.

Em junho de 2020, o país voltou ao ativo e os negócios começaram a reanimar, com o El Salvador a «120%». «De momento está a crescer exponencialmente. Quase todas as fiações estão reservadas e a maior parte da produção também está cheia. Saímos da pandemia e entramos nesta enorme procura e estamos tentar responder, e espero que continue», elucida o gestor sénior de vendas da Mercados Internacionales

[©Unplash]
Já a SanMar, nas Honduras, reformulou o negócio, para produzir máscaras e batas, quando se tornou parte de uma coligação contratada para fornecer máscaras ao governo dos EUA, de acordo com Jorge Colindres, diretor sénior de produção do fabricante. «Houve um período em que estávamos principalmente a fazer EPIs. Depois começamos a voltar às t-shirts. Porém tivemos um quarto trimestre muito bom no ano passado e continua até hoje. A procura mudou definitivamente, com muitas vendas online. Todas as t-shirts e produtos básicos de lã estão com procura alta», indica.

Com toda a evolução, a SanMar optou por construir uma nova fábrica têxtil de 800 mil metros quadrados nas Honduras para aumentar a capacidade. «Com as empresas a lutar para tirar encomendas da Ásia agora, com todos os problemas logísticos que estão a acontecer, acho que vou começar a motivar algumas empresas a repensar as respetivas cadeias de aprovisionamento e a olhar novamente para a América Central», afirma.