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Sourcing em mudança

A eficiência e a ética encabeçam as prioridades de marcas, retalhistas e fornecedores de vestuário na gestão das cadeias de aprovisionamento. Mas o incentivo de alianças na criatividade, inovação e sustentabilidade consubstancia-se como uma forma de contornar a volatilidade do futuro.

A convenção da International Apparel Federation (IAF), que decorreu em Istambul no mês passado, recordou o número crescente de desafios enfrentados pelas marcas, retalhistas e fornecedores de vestuário nas suas cadeias de aprovisionamento, destacando, simultaneamente, a importância da criação de alianças no seio da indústria.

«Hoje, os compradores são espremidos entre um advogado e um perito químico. Talvez tenham ainda algum espaço para considerarem o produto, mas isso mudou drasticamente», afirmou Jan Hilger, consultor e ex-diretor de operações do grupo de moda alemão Ahlers. «No início da minha carreira, um comprador viajava para uma fábrica que realizava o sourcing». Atualmente, disse, os responsáveis de compras enfrentam a pressão das ONG relativamente às substâncias químicas, sustentabilidade e exigências éticas, entre outras temáticas.

«No passado, o produto era o centro das atenções. Atualmente, percorremos o globo em busca da oferta mais barata e certificamo-nos de que conseguimos satisfazer a procura que temos dos nossos stakeholders. Há muitos elementos que aqueles que trabalham com contratos têm de respeitar atualmente», referiu.

Isso não quer dizer que estas questões não sejam necessárias, a fim de limpar a indústria, mas com o seu crescimento, também aumentaram os desafios que aqueles que lidam com as cadeias de fornecimento têm de superar, a fim de operar de forma mais eficiente e ética.

Um catálogo de desafios

«Afirmando o óbvio, estamos num ambiente muito volátil», explicou Achim Berg, associado da consultora McKinsey & Company. «Vários dos fatores-chave para os mercados de aprovisionamento de vestuário estão a mudar. Em alguns desses vemos desenvolvimentos benéficos, se considerarmos a evolução dos preços do algodão, os preços do petróleo e do gás e a sua influência sobre as fibras sintéticas e a logística, e acordos de livre comércio. Por outro lado, vemos disputas políticas, vemos problemas em mercados-chave de abastecimento, se pensarmos no Bangladesh e nos desenvolvimentos aí ocorridos ao longo dos últimos três anos. Vemos, também, um aumento dos custos laborais em mais ou menos todos os mercados. E parece que a indústria terá de lidar com o facto da deflação do vestuário, que significa preços de abastecimento decrescentes, ter provavelmente chegado ao fim, depois de duas ou três décadas de declínio», afirmou.

Berg destacou, também, as alterações no consumidor final, à medida que os retalhistas e marcas adaptam os seus modelos de negócios. A Hugo Boss é um bom exemplo disso. Ao longo dos últimos sete anos, a casa de moda alemã passou de um modelo de atacado para dois canais adicionais: online e de retalho. «O retalho está a entrar no jogo, o que muda algumas das regras», acrescentou. «O omnicanal teve um impacto sobre o tamanho e o ritmo das encomendas, pelo que é necessário flexibilidade. A conformidade, que tem sido um tema quente, do nosso ponto de vista, continuará a ser um tema dominante. E, portanto, todos nós, do lado do comprador, do lado do utilizador, do lado do conselheiro, teremos de lidar com esses desafios», indicou.

Panorama turbulento

O panorama não parece menos sombrio para os próximos 12 a 18 meses, com a previsão de poucas mudanças no contexto do sourcing e com os custos a deverem aumentar.

Uma pesquisa realizada pela McKinsey & Co. no início deste ano, que contemplou os principais executivos de sourcing nos EUA e Europa, representando 60 mil milhões de euros despendidos, revelou que dois-terços dos inquiridos esperam que os custos de fornecimento aumentem em cerca de 1,1% ao longo dos próximos 12 a 18 meses. Desses, os players mais preocupados com o preço esperam um aumento de 2,4% e os compradores europeus, em particular, antecipam um pouco mais (1,4%) do que os americanos (0,2%), que se mostram agradados com a valorização do dólar e todos os benefícios daí decorrentes.

O principal promotor do aumento dos custos de aprovisionamento são as taxas de câmbio. O enfraquecimento do euro tornou-se um problema devido à maioria do comércio se efetuar em dólares, tornando-o desfavorável. O aumento dos custos laborais e dos preços das matérias-primas também figuram entre os principais desafios a enfrentar pelos responsáveis de sourcing.

Além disso, o panorama do sourcing e as conversas sobre a importância decrescente da China não se dissiparam. De acordo com a McKinsey, cerca de 72% dos responsáveis de compras afirmou que gostaria de reduzir a sua dependência face à China, uma mensagem que tem sido repetida nos últimos seis anos, à medida que alguns players apostam na diversificação numa tentativa de se tornarem menos dependentes do país.

No entanto, como aponta Berg, as exportações de vestuário da China ascenderam aos 207 mil milhões de dólares (cerca de 195,7 mil milhões de euros) no ano passado, em comparação com o número dois da lista, o Bangladesh, cujo valor se fixou em 25 mil milhões de dólares. E a produção no país continua a crescer. «O papel da China enquanto one-stop-shop [expressão que implica a disponibilização de todos os serviços necessários em apenas um lugar] está ligeiramente sob pressão, mas só ligeiramente», lembrou Achim Berg aos delegados. «Os últimos números sobre o índice de produção indicam que esta está a crescer a um ritmo mais lento, mas mesmo assim, continua a crescer. Alguns países europeus gostariam de ter o crescimento do PIB entre 6% e 7%. O consumo de vestuário está a aumentar ainda mais rápido e, portanto, a China está preocupada com o facto dos responsáveis de compras sondarem outros países, mas ainda está saudável e mantém-se em crescimento num mercado que fica satisfeita por alimentar», acrescentou o associado da McKinsey.

Evitar inconsistências futuras

Apesar destes desafios, Roland Schuler, presidente da Associação Internacional de Designers e Executivos de Vestuário (IACDE), acredita que a questão atual prende-se com a forma de evitar inconsistência no futuro. «As palavras-chave poderão ser construir pontes – não da Europa para a Ásia – mas construir pontes em todo o mundo. As alianças são um fator-chave do sucesso futuro comum. É importante criar alianças na criatividade, engenharia e sustentabilidade nas cadeias de aprovisionamento», disse aos delegados.

As ferramentas de colaboração na educação, em particular, serão importantes se a indústria pretender manter um fluxo constante de designers de moldes e engenheiros técnicos experientes, destacou. As trocas entre associações, think-tanks, convenções e intercâmbios de know-how permitirão construir esta rede, acredita.

Esta é uma opinião partilhada por Jan Hilger, que acredita que as colaborações poderão ajudar a desmistificar alguns dos desafios, em particular para as pequenas e médias empresas, que não beneficiam da influência ou capacidade de investimento das multinacionais de maior dimensão para enfrentar as exigências que a indústria impõe sobre elas.

«O que podemos aprender uns com os outros e o que podemos fazer melhor no respeitante à aprendizagem e flexibilidade serão a garantia para a sobrevivência. Por que temos de lutar uns contra os outros? É suficiente fazer isso no mercado, mas na vertente do sourcing e aquisições? O poder da multidão, a trabalhar em conjunto, parece estar adormecido», referiu o consultor e ex-diretor de operações do grupo de moda alemão Ahlers.

Entre os domínios nos quais as pequenas empresas podem unir forças para que não tenham de «travar essa batalha sozinha», estão as substâncias restritas e as auditorias, apontou Hilger. «Todas as auditorias são praticamente iguais. É um desperdício de recursos e isso deixa-me irritado porque procuramos poupar cada cêntimo num tecido. No entanto, nas auditorias perdemos milhões. Existe um desequilíbrio e isto poderia ser solucionado se as empresas trabalhassem em conjunto», afirmou, acrescentando que «do ponto de vista do mercado, não existe essa pressão, temos de criar ideias diferentes. Não podemos apenas fazer negócios da mesma forma como fazíamos há dez anos. Às vezes temos de abandonar o círculo para encontrar novas formas de colaboração».

Destino de sourcing

No entanto, os destinos de sourcing permanecem no topo da agenda para muitas empresas de vestuário.

Retomando o relatório McKinsey, os executivos de sourcing acreditam que o Bangladesh testemunhará o maior crescimento em valor, apesar das tragédias vividas na indústria. Para as grandes marcas, deslocar os destinos de sourcing pode ser extremamente difícil, lembrou Berg.

O Vietname surge imediatamente depois do Bangladesh entre os principais hot-stops de sourcing, enquanto a Índia, Myanmar e a Turquia surgem conjuntamente na terceira posição. Curiosamente, a Etiópia figura na lista pela primeira vez, seguindo-se aos três últimos.

A proximidade está, também, a tornar-se cada vez mais importante, especialmente para as empresas de pequena e média dimensão.

«A Turquia, especialmente para os responsáveis de compras europeus, é o destino de sourcing de eleição quando se trata de proximidade, permitindo encurtar os prazos de entrega, nas encomendas menores e ter mais flexibilidade», explicou Berg. «Cerca de 61% dos inquiridos pretende aumentar o sourcing realizado na Turquia e outros 9% pretende aumentar significativamente. A Turquia é, claramente, o destino favorito», sublinhou.

Berg também destacou a África Subsariana como um «novo furo de água» que os executivos de sourcing consideram cada vez mais. Cerca de 40% dos inquiridos acredita que a indústria se está a deslocar cada vez mais para a África Subsariana, com 20% desses a demonstrar um compromisso efetivo.

Hilger, no entanto, partilha uma visão mais cética sobre o crescimento potencial do sourcing de proximidade. «Tenho visto declarações sobre o regresso da produção à Europa. Eu seria muito cuidadoso relativamente a esta afirmação e gostaria de perguntar, a que nível do produto e em que produtos? Talvez em fatos e vestuário de luxo, mas não tenho a certeza de que as t-shirts alguma vez possam regressar à Europa. Nós, enquanto europeus, esperamos que isso se verifique, mas não se prende apenas com os custos laborais, está relacionado com competências e regiões», conclui.