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Sourcing em risco

Do terrorismo às questões geopolíticas, da retoma económica dos EUA à emergência de novos mercados, as cadeias de aprovisionamento enfrentam grandes mudanças no futuro. Num cenário até 2025, há 12 tendências que vão influenciar a forma como as empresas têm de olhar para o sourcing.

O estudo “Is Your Luck Running Out? Managing Suplly Risk in Uncertain Times” da A.T. Kearney e da Rapid Ratings Internacional, conclui que os líderes atuais da cadeia de aprovisionamento asseguraram a sua posição estratégica ao centrar-se em atividades de elevado impacto e grande visibilidade. Contudo, a gestão do risco caiu para o fundo da lista de prioridades.

Como resultado, os autores do relatório afirmam que as cadeias de aprovisionamento estão a uma questão apenas de uma grande interrupção e que as empresas de contratação estão vulneráveis no «ambiente económico e geopolítico ténue» atual, onde muitas empresas públicas e privadas estão em situações financeiras precárias.

«Para a maior parte das organizações, não é uma questão de saber se, mas quando vai acontecer uma interrupção no aprovisionamento», afirma Carrie Ericson, vice-presidente na área Procurement and Analytic Solutions da A.T. Kearney e coautora do estudo. «Embora a maior parte reconheça este facto, poucos investiram nos sistemas e programas necessários para dar resposta», acrescenta.

Embora as interrupções sejam inevitáveis, os autores indicam que as organizações que conseguem identificar, diagnosticar e resolver rapidamente estas questões estão melhor posicionadas para gerir proativamente o risco na sua cadeia de aprovisionamento. As empresas que investem em práticas de gestão de risco que ligam estratégias de gestão de aquisição, categoria e aprovisionamento têm resultados otimizados.

O estudo enumera ainda 12 tendências que deverão moldar o ambiente operacional até 2025.

Realinhamento geopolítico

A instabilidade geopolítica está a aumentar, com a incerteza a curto prazo concentrada no Médio Oriente, no Norte de África e no Sul da Ásia. Os EUA, Rússia e China concorrem pela influência mundial em várias áreas, desde a cibersegurança a disputas territoriais. O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê que Brasil, Rússia, Índia, Indonésia e China estejam entre as 10 maiores economias mundiais até 2020, acima do Reino Unido e da França quando medido em PIB em paridade de poder de compra.

Este poder adicional vai colocar mais pressão sobre os recursos e escalar a concorrência entre os principais fornecedores, embora esta possa ser parcialmente compensada pela diminuição dos preços das matérias-primas de que muitos destes países dependem. As empresas que não implementarem estratégias para assegurar a continuidade do aprovisionamento podem encontrar-se no lado perdedor da equação oferta-procura.

Extremismo violento

O terrorismo intensificou-se nos últimos anos, colocando um maior risco para as grandes economias em todo o mundo. À medida que países e governos tentam controlar esta questão, sem dúvida que isso irá afetar as regras e regulamentação para a banca e rotas de envio internacionais.

A política governamental vai continuar a ser pressionada pelo conflito entre ameaças identificadas e promoção legítima do comércio mundial e direitos dos cidadãos. Com os governos a trabalharem para acabar com atividades ilícitas, as leis mais apertadas irão ter impacto na banca e nas rotas de envio, afetando potencialmente a rapidez e facilidade de utilização destas redes para propósitos legítimos de negócios e levar a tempos de entrega mais longos e a potenciais interrupções no fornecimento.

Retoma económica nos EUA

Os EUA estão a tornar-se no principal motor do crescimento económico mundial, graças às melhorias no mercado laboral, continuação do aumento da procura dos consumidores e inovação tecnológica. A economia do país deverá continuar a crescer a uma taxa anual de mais de 2% até 2020, levando o dólar a valorizar face a outras moedas. Embora isso torne as exportações americanas menos competitivas no estrangeiro, os materiais e serviços importados que entram nos produtos americanos (o custo dos bens vendidos) são igualmente menos dispendiosos, o que melhora a competitividade das cadeias de aprovisionamento.

Os sete em crescimento

Embora os mercados emergentes tenham recuperado rapidamente da crise financeira de 2008/2009, mais de 70% registou uma desaceleração do crescimento entre 2010 e 2014, sobretudo devido à menor procura nos mercados externos e respostas políticas inadequadas às mudanças no ambiente mundial. Os motores de crescimento mundial estão a mudar para a bacia do Pacífico e sete novos mercados emergentes têm o potencial de ter fortes performances nos próximos anos: Chile, China, Malásia, México, Peru, Filipinas e Polónia. Isto devido à sua força em vários fatores económicos, assim como tamanho e qualificação da sua força de trabalho, qualidade das infraestruturas, ambientes legais e estado das agendas de reforma estrutural. Um foco nestes sete mercados oferece às empresas oportunidades significativas para aproveitar o poder de aprovisionamento destes líderes emergentes e reestruturar as suas cadeias de valor para servir, ao mesmo tempo, estes crescentes mercados de consumo.

Um novo ciclo de queda

Os fatores mundiais de oferta e procura entraram num período de 13 a 15 anos de baixos preços das matérias-primas. No lado da oferta, a subida pouco convencional da produção de petróleo (permitida pelas novas tecnologias) e de biocombustíveis contribuíram para o excesso de recursos. Embora o Irão esteja ainda atrasado face ao calendário para recuperar os seus anteriores mercados de petróleo, a reintrodução do país como produtor mundial de petróleo vai eventualmente colocar mais pressão do lado da oferta.

Do lado da procura, o abrandamento da economia da China significou um declínio de dois dígitos no crescimento da importação de matérias-primas. As recentes previsões do FMI e do Banco Mundial preveem que o ciclo de queda das matérias-primas vá continuar até pelo menos 2020. Embora isso vá aumentar o poder de consumo, vai também criar desafios para muitos países que exportam matérias-primas. As cadeias de aprovisionamento que se apoiam nestes países podem estar em risco de interrupção de fornecimento por causa da instabilidade política resultante do abrandamento do crescimento económico.

Mudanças climáticas aceleram

Com os fenómenos meteorológicos extremos a tornarem-se mais frequentes, os custos económicos das mudanças climáticas estão a aumentar. Mais de 7.500 inundações, tempestades, secas e incidentes com temperaturas extremas tiveram lugar entre 1980 e 2012. Esta volatilidade não só tem um impacto negativo nos custos das matérias-primas, mas também tem o potencial de causar problemas secundários, como desordem social, à medida que os preços dos produtos alimentares sobem além do poder de compra das pessoas com menores rendimentos. Por outro lado, o degelo no Ártico está a abrir novas rotas de envio e a desbloquear o acesso a recursos naturais como minerais, terras raras e grandes quantidades de petróleo e gás.

Ondas de despovoamento

Os mercados emergentes vão deparar-se com a migração, mas o rápido envelhecimento nos mercados desenvolvidos vai criar os maiores desafios de despovoamento com os resultados económicos mais significativos. Dois dos principais impactos do despovoamento na cadeia de aprovisionamento são a falta de mão de obra e falha ou enfraquecimento das infraestruturas de transporte. À medida que a falta de mão de obra leva ao aumento dos salários que os empresários têm de pagar para atrair trabalhadores, também leva à diminuição dos impostos que o governo usa para construir e manter a infraestrutura de transportes e negócios. Além disso, com os mercados de consumo a mudarem devido à diminuição da população, as cadeias de aprovisionamento têm de ser reestruturadas para levar os investimentos para as regiões onde as bases de clientes estão a crescer.

Revolução das TI

As atuais tendências de tecnologias de informação vão perturbar a legislação em vários sectores e desafiar os modelos de negócio tradicionais. Por exemplo, quem orquestra as redes ou os criadores de plataformas económicas que tiram vantagem de centros de trabalho móvel e ativos não utilizados vão conseguir cadeias de aprovisionamento mais rápidas e eficientes em termos de custos. Ao mesmo tempo, estas empresas vão tornar-se mais suscetíveis aos riscos de fornecedores e parceiros que podem interromper todo o negócio, necessitando uma identificação mais sofisticada dos riscos e sistemas de gestão.

Por último, à medida que o governo começa a lidar com a ascensão da economia partilhada, novos regulamentos estão a emergir, criando uma maior complexidade para os gestores de aprovisionamento.

Ascensão das máquinas

A sofisticação tecnológica e a crescente presença de dispositivos inteligentes, sistemas autónomos e robots vão remodelar os negócios e as famílias. Segundo a previsão de crescimento da Gartner, os dispositivos relacionados com a Internet das Coisas vão crescer de cerca de 4 mil milhões em 2014 para 25 mil milhões em 2020. O acesso aos dados fornecidos por esta tecnologia deve diminuir o custo geral das cadeias de aprovisionamento e retirar o risco associado, permitindo que os gestores de aprovisionamento respondam mais rapidamente a interrupções no fornecimento.

Evolução da inteligência artificial

Os avanços na inteligência artificial estão a criar oportunidades para investigação e desenvolvimento, assim como casos de utilização nos negócios, mas estão a levantar questões sérias sobre o futuro do trabalho e até da humanidade. Contudo, continua a dúvida sobre se a inteligência artificial irá mudar a correlação entre produtividade e emprego.

Independentemente do prazo em que isso aconteça, o impacto vai sentir-se nas cadeias de aprovisionamento com a diminuição dos custos gerais e pela possibilidade de ter uma alocação mais eficiente dos recursos.

Insegurança cibernética

As crescentes questões relacionadas com segurança cibernética vão desafiar governos e negócios. Com todos os dispositivos e sistemas ligados e vulneráveis a ataques, as estimativas colocam as perdas mundiais resultantes do cibercrime entre 375 e 575 mil milhões de dólares (331 e 508 mil milhões de euros) anualmente, afetando os principais mercados, como os EUA, Alemanha, Japão, França e Reino Unido. A Internet das Coisas falha em fortes sistemas de segurança e está altamente vulnerável a roubo de dados.

Implicações para as cadeias de aprovisionamento mundial incluem a necessidade de gerir a privacidade, assegurar a propriedade intelectual e proteger da perda de volume de negócios – todos desafios que vão resultar em custos mais elevados.

A natureza de mudança do poder

O poder está cada vez mais difuso e breve. Ao mesmo tempo, as empresas ficaram sob ataque à medida que perdem vantagens no controlo de informação. Os indivíduos têm agora muito mais poder na nova tecnologia e informação mais rapidamente disponível, levando a um aumento das expectativas de serviços, transparência e rápida mudança.

Além disso, a ascensão da classe média está a levar a um maior individualismo e expectativas de serviços customizados. À medida que as pessoas em todo o mundo se mudam para as áreas urbanas, o poder está a ficar concentrado nas cidades. Isto apresenta novos desafios e oportunidades, incluindo mercados de consumo mais concentrados, exigindo a reavaliação das cadeias de aprovisionamento para alinhar com a natureza de mudança do poder.