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Sourcing omitido das promessas ecológicas

A lista de empresas que se comprometem a atingir a neutralidade de emissões de carbono tem vindo a aumentar, impulsionada por uma maior consciencialização da produção e do consumo. Contudo, o impacto ambiental das cadeias de aprovisionamento que lhes estão subjacentes parece ser omitido destas promessas.

No final de janeiro, a cadeia de supermercados Sainsbury’s anunciou que iria eliminar totalmente as emissões de gases com efeito de estufa ao longo de todo o negócio e respetivas operações até 2040 – uma década antes do prazo estipulado pelos seus concorrentes e pelo Reino Unido. Com um investimento de mil milhões de libras (1,19 mil milhões de euros), a empresa promete atingir a neutralidade de carbono nos próximos 20 anos, propondo-se a implementar um programa de alterações que se concentra na redução de emissão de gases com efeito de estufa, do desperdício alimentar, das embalagens plásticas e do consumo de água, bem como no reforço da reciclagem, biodiversidade e alimentação saudável e sustentável.

Seguindo o seu exemplo, a retalhista de vestuário casual Fat Face assumiu o mesmo objetivo, encurtando o limite temporal para 2025. A ideia é minimizar as emissões de carbono, pelo menos, até aos 40% e compensar as restantes através da plantação de árvores e do apoio a projetos que reduzam as emissões globalmente. A empresa acrescenta ainda que o desperdício não será lançado para aterros sanitários, os plásticos descartáveis serão eliminados em todo o negócio e 100% da energia consumida na sua sede e lojas britânicas terão origem em fontes renováveis.

Apesar destas iniciativas estarem no caminho certo, John Perry, diretor de cadeia de aprovisionamento e logística na empresa de consultoria Scale, salienta que o anúncio da Sainsbury’s omite quaisquer promessas relacionadas com a melhoria das credenciais ambientais da sua rede de aprovisionamento, responsável pela grande maioria das emissões. «Para assumir compromissos de neutralidade de carbono que atinjam ganhos significativos e duradouros, as empresas têm de garantir que a sua postura está devidamente refletida na sua rede de aprovisionamento, o que significa uma parceria com fornecedores que partilhem os mesmos valores e objetivos sustentáveis», explica.

FatFace

Neste sentido, Perry acredita que o esforço sustentável de um negócio só é verdadeiramente credível mediante uma parceria coesa e íntima entre retalhistas e fornecedores. «As empresas têm de privilegiar mais relações estratégicas duradouras, de modo a apoiar ideias para o longo prazo e o consequente investimento em iniciativas sustentáveis. Estabelecendo e comunicando expectativas através de um código de conduta dos fornecedores é uma forma particularmente eficiente para os negócios envolverem a respetiva rede de aprovisionamento nos seus esforços sustentáveis», argumenta.

Indústria da moda unida

Recentemente, o CEO da Gucci, Marco Bizzarri, dirigiu-se, em comunicado,  à indústria da moda e alertou para a necessidade de implementação de uma estratégia 360º graus que assuma «total responsabilidade» pelas emissões de gases com efeito de estufa geradas pelas suas atividades.

De facto, a organização Carbon Trust admite que cerca de 80% do impacto de carbono total de uma empresa está para além do seu controlo operacional direto. Bizzarri argumenta que os esforços de redução atuais, bem como as inovações que lhes estão subjacentes, não estão sequer perto de dar resposta ao problema.

Em novembro, o executivo lançou o “CEO Carbon Neutral Challenge”, com o objetivo de abordar imediatamente a questão das emissões de carbono. O desafio propõe que as empresas adotem uma estratégia anual para, primeiramente, evitar e reduzir as emissões e, posteriormente, compensar as restantes (escopos 1, 2 e 3 do Protocolo de Gases com Efeito de Estufa), através de soluções baseadas na natureza, que apoiem a proteção de ecossistemas críticos e ajudem a minimizar as alterações climáticas.

A esta iniciativa, soma-se a Carta da Indústria da Moda para a Ação Climática, que juntou mais de 90 marcas e retalhistas de moda globais, onde se inserem a Adidas, Gap Inc, H&M e Inditex. Este compromisso conjunto está alinhado aos objetivos do Acordo de Paris e prevê que a indústria atinja a neutralidade de carbono até 2025.

Contudo, Maya Rommwatt, ativista de moda do grupo ambiental Stand.earth, destaca que os compromissos estipulados nesta iniciativa não são suficientemente ambiciosos. «Gostaríamos de observar os signatários a prometerem cortes mais profundos e rápidos nas emissões [de carbono]», sustenta. «Isto significaria comprometerem-se a reduzir a poluição nas suas cadeias de aprovisionamento globais em, pelo menos, 40% até 2025, estabelecendo objetivos específicos relativos à energia renovável para as suas fábricas, assim como evitar falsas soluções como atingir a “neutralidade de carbono”, mediante compensações em massa», continua.