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Sourcing procura proximidade

Embora a China tenha ganho algum dinamismo no último ano, devido à sua posição privilegiada nos equipamentos de proteção individual, a diversificação do sourcing deverá prosseguir e o Institut Français de la Mode aponta Portugal como um dos possíveis beneficiados.

Dominique Jacomet

O impacto na procura de vestuário provocado pelo Covid-19 foi, nas palavras de Dominique Jacomet, conselheiro sénior do Institut Français de la Mode (IFM), durante a conferência digital “A indústria da moda em 2021/2022: o que esperar!”, «um choque brutal nunca antes visto», do qual as diferentes regiões estão a sair a diferentes velocidades. A China, por exemplo, parece estar completamente recuperada, a Ásia como um todo está em recuperação, os EUA avançam a um ritmo mais lento e a Europa está em dificuldades.

O impacto em França, contudo, foi inferior ao esperado, com uma queda na procura de vestuário limitada a 15%, em comparação, por exemplo, com Espanha, onde a descida foi de 40%, com a Alemanha (-30%) ou com Itália (-25%). Ao nível das categorias de produto, ainda focando no caso de França, houve impactos díspares. Os números do IFM mostram que o vestuário de homem foi o que registou uma queda mais acentuada (-20,9%), seguido do vestuário de senhora (-17,6%). Números positivos só mesmo nos têxteis-lar, cujas vendas aumentaram 1,5%.

O mesmo aconteceu com os canais de distribuição, onde só os pure players de vendas à distância, incluindo catálogos, tiveram uma evolução positiva (+16,1%).

Os dados mostram ainda uma «rápida retoma» após o fim das limitações impostas pelos vários confinamentos, com crescimentos na procura na ordem dos 7% em agosto e de quase 15% em dezembro (em comparação com os meses homólogos de 2019) em França. Na Europa a 27, no terceiro trimestre houve uma subida de 61% face ao trimestre anterior, indicou Dominique Jacomet.

Se a nível do consumo há esta expectativa que com a reposição da confiança dos consumidores, o mercado irá retomar – embora seja necessário ter em conta que as gerações mais novas continuam atraídas pela moda mas são consumidores ativistas, empenhados em questões sociais, como a inclusão, ou ambientais, como a sustentabilidade –, ao nível do sourcing há também boas notícias para a produção portuguesa, uma vez que «a relocalização do sourcing que estava a acontecer antes, vai retomar», apontou Dominique Jacomet, depois da China ter temporariamente assumido um lugar de destaque, sobretudo graças à sua posição dominante nas máscaras de proteção.

Portugal atrativo

A quota de mercado da China tem vindo a cair desde 2015, altura em que atingiu um pico de 39%, situando-se em 2019 em 31%. O país continua, no entanto, a ser o principal fornecedor de vestuário da União Europeia a 28, incluindo em 2020. Na tabela dos 25 países mais importantes em termos de valor nas importações da UE houve, todavia, movimentações no ano passado, nomeadamente o facto do Bangladesh ter ultrapassado a Turquia como segundo fornecedor e, sobretudo, a subida meteórica de Myanmar, que de 25.º fornecedor em 2010 passou para 8.º em 2020, e, em sentido contrário, de Marrocos, que de 6.º passou para 9.º, e da Tunísia, que de 5.º passou para 10.º.

Ainda assim, «pensamos que vai haver mais deslocalização para países do Mediterrâneo e mais deslocalização para a UE – a boa notícia é que Portugal é considerado atrativo», salientou o conselheiro sénior do IFM.

Segundo um estudo realizado em dezembro de 2020 pelo IFM sobre destinos de sourcing em 2021, 51% dos inquiridos disseram que gostariam de reduzir as suas compras na China. A situação é mais estável no Bangladesh (57% pretende manter) e para o Vietname (61% apontou a manutenção do mesmo nível de compras). As opiniões inclinam-se mais para aumentar o sourcing em Marrocos (46%) e na Turquia (40%), enquanto a estabilização é a resposta mais dada para as compras na Tunísia, algo que Dominique Jacomet atribui «a todas as dificuldades internas» no país.

Já 40% dos inquiridos indicaram que Portugal, mas também França, deveria crescer nas suas compras. «Temos esta questão da relocalização, mas também a questão de novas localizações devido à reindustrialização», justificou o conselheiro sénior do IFM. «O made in Europe está de volta para alguns nichos no vestuário, temos marcas de vestuário baseadas no made in e na sustentabilidade e também nos têxteis temos novas instalações para a fiação de linho e para tecelagem, por exemplo», salientou.

O sourcing responsável em termos ecológicos é, de resto, uma das tendências no pós-Covid, reforçou Dominique Jacomet. Quase 50% dos inquiridos afirmaram que iriam aumentar a utilização de matérias-primas sustentáveis certificadas, 42% apontaram o uso de materiais reciclados, 22% a rastreabilidade dos materiais e 16% avançaram com a ideia de que deixariam de usar certas matérias-primas, como pelos e lãs mohair e angorá.

De acordo com o mesmo estudo, o comércio eletrónico é igualmente uma oportunidade, já que 89,8% dos inquiridos revelaram que pretendiam investir no desenvolvimento de comércio eletrónico e 36,7% aumentar o sourcing de proximidade.

Não obstante, tudo isto depende da taxa de inoculação da população e da obtenção da imunidade de grupo. «A vacinação é a chave económica para o futuro da indústria têxtil e vestuário», assegurou o conselheiro sénior do IFM.