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Sourcing sob investigação

Algumas das marcas de vestuário mais populares do mundo, incluindo a Forever 21 e a Michael Kors, estão sob escrutínio depois de um relatório recente ter apontado a sua falta de transparência sobre a respetiva cadeia de aprovisionamento.

A par destas, também as casas de luxo como a Prada, Fendi e Hermès estão entre as empresas de vestuário menos transparentes, com a Chanel a surgir em último lugar, informa a Vice News.

O relatório conjunto das organizações Fashion Revolution e Ethical Consumer classifica 40 grandes empresas de moda sobre a sua transparência acerca das respetivas cadeias de aprovisionamento e descobriu que 40% das empresas analisadas não dispõem de sistemas para monitorizar se estão em conformidade com as normas de trabalho.

Três anos depois do colapso do Rana Plaza, que matou mais de mil pessoas e feriu mais de 2.500, o relatório constatou que ainda é difícil para os consumidores – e até mesmo para as empresas de moda – responder à questão “quem fez a minha roupa” (ver Compras conscientes).

No período que antecedeu o dia 24 de abril, aniversário do colapso da fábrica do Bangladesh, as duas organizações incentivaram os consumidores a questionarem as empresas de vestuário sobre cada aspeto das suas cadeias de aprovisionamento, com perguntas relativas quer à origem das matérias-primas, quer a quem costurou as peças de roupa.

«A falta de transparência custa vidas», sublinha o relatório. «É impossível para as empresas conseguirem garantir que os direitos humanos são respeitados e que as práticas ambientais são sólidas sem saberem onde os seus produtos são feitos, quem os fez e em que condições», esclarece o documento.

A empresa mais bem classificada é a Levi Strauss & Co, seguida de perto pelo grupo Inditex, que detém a Zara, e a H&M, que detém a Cheap Monday e a &Other Stories.

Não obstante, apesar de o relatório elogiar estas empresas pela sua transparência, adverte que uma classificação elevada neste campo não significa que a roupa não seja feita em condições perigosas.

No caso da H&M, a boa posição no ranking surge na mesma altura em que uma outra organização criticou a empresa por “atrasos graves” nos reparos de construção em 32 fábricas no Bangladesh que fornecem a retalhista.

Vários grupos criticaram a H&M pela sua falta de progresso nas melhorias de segurança depois de aprovado o “Bangladesh Accord on Fire and Building Safety” (Acordo de Segurança de Edifícios e Incêndios no Bangladesh), um acordo vinculativo que mais de 100 marcas assinaram no rescaldo do colapso do Rana Plaza (ver Bangladesh, um ano depois).

«Depois de mais de dois anos e meio do Acordo do Bangladesh, todas as reparações impostas aos fornecedores da H&M já deveriam ter sido concluídas», advoga Scott Nova do Worker Rights Consortium em comunicado. «No entanto, a triste realidade é que quase nenhuma das fábricas fornecedoras da H&M no Bangladesh pode ser considerada segura», acrescenta.

A Vice News pediu a algumas das marcas classificadas no índice de transparência que comentassem o relatório. Apenas a H&M e a Lululemon responderam.

Ulrika Isaksson, porta-voz da H&M, saudou os resultados do índice de transparência e informou que a retalhista «acredita que a transparência é fundamental para o avanço da sustentabilidade e trabalha para aumentar ainda mais a transparência em toda a cadeia de valor».

Quanto ao Acordo do Bangladesh, Isaksson disse apenas que os fornecedores da H&M já reportaram todos os bloqueios possíveis e retiraram todas as portas que poderiam dificultar a saída em caso de incêndio. Este trabalho é um complemento aos requisitos obrigatórios, incluindo saídas de emergência, luzes de emergência, alarmes de incêndio, extintores, planos de evacuação e exercícios de evacuação regulares, explicou ainda a retalhista.

A Lululemon, que ficou a meio no índice de transparência, citou como exemplo a secção de sustentabilidade do seu website, que refere que a empresa está a adotar medidas para reduzir a sua pegada de carbono, o consumo de água e a quantidade de resíduos que produz. Porém, não indica onde os seus produtos são feitos.

Por vezes, as cadeias de aprovisionamento de moda são extremamente complexas e muitas marcas não detêm as fábricas nas quais as roupas são feitas, analisa ainda o relatório. «A determinada altura, algumas marcas podem trabalhar com milhares de fábricas», acrescenta o documento, citando as unidades fabris responsáveis pelo corte, costura e montagem das peças de vestuário, mas também aquelas instalações a jusante da cadeia, como a tinturaria, a tecelagem e os acabamentos, e a montante, como o cultivo das fibras, a fiação e tecelagem ou tricotagem.

«Muitas empresas não sabem onde as suas roupas são feitas. A grande maioria das marcas de moda não possui instalações de produção, o que torna difícil monitorizar ou controlar as condições de trabalho na cadeia de aprovisionamento», continua o documento.

Para construir este ranking de transparência, a Fashion Revolution enviou um questionário a 40 empresas de moda, mas apenas dez o preencheram. As restantes 30 empresas receberam pontuação com base em informações publicadas e de livre acesso. A organização explica ainda que a seleção das marcas teve por base o seu volume de negócios anual.

A Fashion Revolution adianta que, no próximo ano, espera ampliar o número de marcas para 100 e convida qualquer marca de moda ou retalhista com pelo menos 36 milhões de libras (aproximadamente 45,9 milhões de euros) em volume de negócios anual a integrar o índice de transparência de 2017.