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Sourcing sob vigilância

Embora a ideia de uma linha de apoio de denúncia não seja uma novidade, a elevada penetração dos telemóveis significa que é agora mais viável para que as marcas e retalhistas consigam comunicar diretamente com os trabalhadores. Já foram lançados ou estão em vias de ser lançados diversos programas que usam telemóveis. A Adidas está a testar um serviço de denúncia de irregularidades por SMS, a Marks & Spencer tem experimentado um sistema de questionário em parceria com a Labor Link, e a Wal-Mart planeia criar um programa que comunica diretamente com os trabalhadores através de uma empresa denominada Labor Voices. E, mais recentemente, o grupo de marcas e retalhistas norte-americanas que compõe a Aliança para a Segurança dos Trabalhadores do Bangladesh anunciou o lançamento de uma linha de atendimento anónima ainda este ano, de modo que os trabalhadores possam relatar por telemóvel as suas preocupações sobre a segurança nas fábricas. A Adidas revelou em maio que tinha começado a experimentar mensagens de texto por SMS em diversas das suas fábricas na Indonésia. A empresa indicou que o sistema permitiu que as fábricas detetassem os problemas logo no início, tratando-os antes de se tornarem uma preocupação para os trabalhadores e sindicatos. O programa voluntário significa que os trabalhadores só podem participar se partilharem os seus números de telemóvel. A Adidas tem acesso aos dados de reclamações recebidas para assim monitorizar e acompanhar a forma como a gestão da fábrica lida com reclamações e verificar se existem situações críticas. Os diretores das fábricas podem enviar mensagens SMS para os telemóveis dos trabalhadores, o que significa que trabalhadores e gestores melhoraram a sua comunicação. A Adidas pode também partilhar informações com os trabalhadores através de texto, o que deverá ajudar a compreender os seus padrões laborais. A gigante do sportswear afirmou que os resultados do teste piloto têm sido «muito encorajadores» até agora e que, no primeiro mês após o seu lançamento, a direção da fábrica recebeu três vezes mais queixas e sugestões dos trabalhadores do que anteriormente. O sistema Labor Link, em implementação pela Marks & Spencer, funciona através de pesquisas anónimas estruturadas, que passam informações em tempo real para marcas e fabricantes, dando às empresas dados relevantes, de acordo com Heather Franzese, diretora do sistema. Franzese explicou que a empresa está atualmente a trabalhar para rastrear o excesso de horas extraordinárias na China, bem como a fazer estudos sobre a liberdade de associação na Índia. Obter o apoio da direçao da fábrica está «em sintonia com o seu próprio interesse», justificou Franzese, sublinhando que algumas pesquisas fornecem à gestão dados que são valiosos. «Por exemplo, muitas vezes fazemos estudos sobre a comunicação entre a gestão e o trabalhador, ou os níveis de satisfação do trabalhador. Isto é particularmente importante em locais como a China, onde as fábricas podem ter 100% de rotatividade de pessoal num ano», acrescentou, destacando ainda que os fornecedores podem responder a essa informação para tentar melhorar a retenção dos seus trabalhadores. A empresa britânica também realiza pesquisas na comunidade para validar o resultado que obtém da fábrica e contata diretamente com os trabalhadores sem o envolvimento da gestão da fábrica. Franzese enfatizou que em 20 anos de auditoria social, as marcas nunca tiveram, como atualmente, as ferramentas para ir diretamente aos trabalhadores. A Marks & Spencer é um dos primeiros retalhistas a experimentar o sistema da Labour Link e a sua responsável de comércio ético, Fiona Sadler, confirmou que a experiência tem sido muito positiva. O retalhista fez, até ao moment,o um estudo utilizando o sistema Labour Link e obteve uma taxa de resposta de 80%, o que Sadler descreveu como «fenomenal». Outra empresa que está a procurar ligar-se diretamente com a força de trabalho dos fornecedores é a Labor Voices, que foi contratada pela Wal-Mart para monitorizar as suas fábricas no Bangladesh. O presidente e CEO da Labor Voices, Kohl Gill, referiu que o sistema opera de duas formas: dando aos trabalhadores informação sobre os seus direitos no trabalho, bem como informação às marcas sobre as condições na fábrica. Outros benefícios para os trabalhadores incluem informação sobre os seus direitos laborais e os programas locais e serviços disponíveis, bem como perguntas sobre o que observam no local de trabalho: o horário, as condições e as questões de segurança, tudo através dos seus telemóveis. Gill explicou que o sistema ajuda os trabalhadores a tomar melhores decisões, permitindo-lhes conhecer os melhores lugares para trabalhar, além de dar a outras partes interessadas informações para tomarem melhores decisões de aprovisionamento. Atualmente, o grupo planeia estabelecer a ligação com os trabalhadores em 280 fábricas fornecedoras da Wal-Mart em menos de um ano. As informações serão enviadas para os trabalhadores através dos seus telemóveis, especialmente sobre condições de segurança e outras questões que eles devem esperar do seu empregador, como simulações de incêndio.