Início Notícias Tecnologia

Spray de nanofibras revoluciona tratamento de feridas

Desenvolvido pela startup israelita Nanomedic Technologies, o SpinCare pulveriza nanofibras, que formam uma espécie de segunda pele que, por sua vez, cobre por completo a área que precisa de ser tratada. Deste modo, diminui-se a probabilidade de infeções e a necessidade de substituição de curativos.

Com o formato semelhante a um brinquedo para crianças, o SpinCare emite uma rede de nanofibras de polímeros por eletrofiação que permanece intacta durante semanas. A startup israelita Nanomedic Technologies, uma subsidiária da Nicast, inventou um mecanismo de tratamento de queimaduras, feridas e lesões cirúrgicas que simula a estrutura da pele humana.

Através do dispositivo, deixa de existir a necessidade de entrar em contacto direto com a área ferida. Quando a pele se regenera, num processo que dura, normalmente, entre duas a três semanas (dependendo do tempo de cura de cada indivíduo), a camada sai naturalmente. «Não é preciso substituí-la», afirma Chen Barak, CEO da Nanomedic. «Colocamo-la uma vez apenas – no dia da aplicação – e ela permanece lá até que a ferida esteja totalmente curada», explica.

Chen Barak

Ao cobrir totalmente a ferida e ao evitar a mudança de curativos, o dispositivo diminui drasticamente a possibilidade de infeções. As feridas abertas têm um alto risco de infeção, o que pode conduzir a lesões no longo prazo, feridas crónicas e mesmo à morte. Tal é especialmente relevante quando ocorrem desastres ou emergências, alturas em que os hospitais ficam sobrelotados. Segundo a empresa, o SpinCare pode ser facilmente operado por equipas médicas ou voluntários com formação.

A Nanomedic já testou a ferramenta em 120 pacientes de hospitais israelitas e não houve registo de infeções. O SpinCare, «é totalmente personalizado», destaca o presidente da Nanomedic, Chen Katz. «Adapta-se a qualquer tamanho, qualquer espaço, em qualquer lado, sem contacto», assegura.

Além das feridas

O SpinCare conta com cápsulas de uso único. «É o mesmo modelo de uma máquina de café», exmplifica Chen Barak. Com a cápsula colocada, o dispositivo deve ser posicionado a cerca de 20 centímetros da ferida. Ao carregar no gatilho, ativa-se o processo de eletrofiação, com pulverização de uma espécie de teia de nanofibras diretamente na ferida. Trata-se de uma película transparente e protetora que permite aos pacientes e médicos monitorizar o processo de cura.

No próximo ano, com aprovação da FDA, a Nanomedic pretende expandir-se para serviços de urgência, ambulâncias e serviço militar, para dar resposta a desastres. O mercado mundial de tratamento de feridas deverá atingir os 35 mil milhões de dólares (cerca de 31 mil milhões de euros) em 2025, de acordo com um relatório da Transparency Market Research.

A Nanomedic junta-se assim a outras empresas que procuram reinventar o processo de tratamento de feridas. Investigadores da Universidade de Wisconsin-Madison, por exemplo, criaram um novo tipo de adesivo protetor que emite pequenos estímulos elétricos, reduzindo «drasticamente» o tempo que as feridas cirúrgicas demoram a sarar. Já os investigadores do Technion, um centro tecnológico israelita, e do Boston Children’s Hospital criaram recentemente uma «pistola de cola quente» que une tecidos humanos rasgados. A cola tem como objetivo subsistir os pontos e os agrafos, que muitas vezes são temidos pelos mais novos.

No futuro, a Nanomedic planeia entrar no mercado dos tratamentos domésticos, onde pretende que assistir os cuidadores no tratamento de feridas crónicas. O segmento das feridas crónicas deverá deter uma quota dominante no mercado de tratamento de feridas, devido ao envelhecimento da população. «Muitos sistemas de cuidados de saúde do mundo estão atualmente a dirigir-se para os cuidados domésticos. Já esta a acontecer. É uma revolução e nós vamos estar lá para a viver», assume a CEO da Nanomedic.

A Nanomedic está ainda a estudar a possibilidade de adicionar novas componentes ao dispositivo, como complementos antibacterianos, colagénio, silicone, canabinóides e, eventualmente, células estaminais. Tais avanços poderão conduzir o dispositivo para outros mercados, como da cirurgia plástica, estética e dermatológica.

A estimativa é que a aprovação da Food and Drug Administration, dos EUA, demore cerca de 12 meses, durante os quais a empresa se irá focar na produção e no lançamento na Europa no início de 2020.

Segundo as estimativas da Nanomedic, o preço final do produto (que ainda não foi definido) será mais acessível do que o dos adesivos tradicionais. Até ao momento, a Nanomedic angariou 7 milhões de dólares em financiamento, incluindo uma bolsa do programa Horizonte 2020, da União Europeia. «Facilitamos o processo de recuperação, permitindo aos pacientes regressar à vida normal o mais rapidamente possível», aponta Chen Barak, que recorda que as pequenas coisas, na verdade, acabam por fazer uma grande diferença. Nesse sentido, há um fator que os pacientes apreciam bastante. «Podem tomar banho com regularidade, apenas 24 horas depois da aplicação», revela a CEO.