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«Sr. Trump, cuidado. O calçado português está a chegar»

O 20.º congresso da UITIC- International Union of Shoe Industry Technicians reuniu mais de 500 pessoas no Porto e debateu tecnologias, trabalho, formação e sustentabilidade.

Ana Teresa Lehmann

Foi a apresentação bem-humorada de Alberto Castro, presidente da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD) que marcou o primeiro dia do congresso da UITIC- International Union of Shoe Industry Technicians), ontem, 17 de maio, no Porto, organizado em parceria com a Apiccaps e o Centro Tecnológico do Calçado em Portugal (CTCP). O responsável da IFD, mais conhecida por Banco do Fomento, contou a história da indústria do calçado com recurso a títulos e letras de músicas.

«Há umas décadas falava-se em «I will survive». O Governo fugia de tudo, de estar nestas conferências. Precisávamos de um plano estratégico de ação», assegurou o economista. Depois, Alberto Castro admitiu que o sector passou por um momento «One size doesn’t fit all», em que cada empresa tinha as suas linhas de ação. Seguiu-se a fase «It takes two to tango» em que se começou a tentar trazer um peso mais político para o sector, e mostrar que a indústria tinha produtos de alto valor. «Tínhamos planos a cinco anos, mas eram planos portugueses porque começamos com um e acabamos com outro. A flexibilidade é muito importante para esta indústria sexy», afirmou Alberto Castro, salientando que «de repente, mudámos da música «I will survive» para «We shall overcome».

Alberto Castro

Mas, para o presidente da IFD, a música seguinte deve ser «Safety in numbers», tendo em conta que o preço médio do produto mais do que duplicou desde o final dos anos 90. Agora, o sector dança ao som de «Where do we go from here», reconheceu Alberto Castro. Para o economista a resposta está numa música de Frank Sinatra: «New York, New York». «Senhor Trump cuidado. O calçado português está a chegar», avisou.

A secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann, esteve na abertura do congresso e realçou que o sector do calçado «é um exemplo de modernização em tradição. O novo consumidor é muito diferente dos anteriores. E isso traz mudanças. Os negócios precisam de ser flexíveis, técnicos. E o calçado transformou um sector tradicional em um do futuro».

Impressão 3D e sapatos vegan

Num dia de trabalhos virado para a tecnologia e seu impacto nas diferentes fases de produção e venda, Matt Priest, da americana FDRA, garantiu que já há uma revolução no calçado. «Uma das coisas que mudou muito para a nossa indústria é o Flyknit da Nike com um novo processo que faz com que muito poucas peças sejam cosidas, reduzindo custos laborais e tempo», explicou. A multinacional norte-americana está a trabalhar com impressoras 3D, uma tecnologia que dominou os debates no congresso.

«A tecnologia 3D existe há décadas e estamos agora nas últimas indústrias que a abraçam: o calçado e as bolsas. Isto tem 40 anos de vida», revelou Chris Hillyer, da também americana Deckers Brands. «Nos EUA já não temos fábricas locais e precisamos de atravessar um oceano. Isso demora eternidades. E o 3D ajuda a colmatar este problema, a comunicar como será o produto», salientou, referindo que o design «3D é muito diferente da impressão em 3D».

Miguel Davia Aracil, da espanhola Inescop, defendeu mesmo que o «designer precisa de pensar em design e não em impressão 3D». Já Andreas Tepest, da alemã Deichman, reconheceu que «ainda há muita resistência nas fábricas da China a usar este programa».

Sara Andrade

Além do desafio tecnológico, as questões relacionadas com a sustentabilidade e as matérias-primas também estiveram em cima da mesa. Claude Eric Paquin, da Federação Francesa de Calçado, recordou que «ainda usamos o mesmo material que usavam os nossos antepassados. O consumidor quer produtos duráveis. Todos pensam vegan hoje e há dois anos ninguém pensaria nisso». Sara Andrade, da revista Vogue, deu o exemplo de um material parecido com pele, só que feito de cogumelos.

Voltando às raízes, Christophe Cumin, do francês CTC – Centre Technique du Cuir, falou de como as formas dos sapatos são ignoradas pela maioria da cadeia de produção e vendas. «Pelo menos para os próximos anos precisamos de formas para fazer sapatos. O meu sonho é que toda a gente no mundo use sapatos confortáveis e bons. A maior parte do tempo, os compradores nem sabem o que é a forma. Muitas fábricas no mundo não estão interessadas nisto, é só uma ferramenta. Queremos conhecer a ligação entre estes instrumentos e os pés», elucidou. A instituição a que pertence comprou 25 mil formas entre 1960 e 2017. «Desenvolvemos algoritmos para comparar e modificar. Não queremos fazer a mesma para toda a gente, mas tomar conta do pé que lá entra», sublinhou.

Pedro Carvalho

A portuguesa AMF também vai continuar a usar formas, apesar de ter adquirido o exclusivo de uma nova tecnologia de 3D bonding. Pedro Carvalho, responsável da empresa dedicada a calçado técnico e de segurança, destacou que entre as vantagens desta tecnologia está o facto de que se juntam todas a peças num molde em alguns segundos, não é preciso coser, etc. «Reduz custos de produção, energia e laborais. E só estamos a falar do segmento de sapatos de segurança», apontou. Paralelamente, a empresa está a conceber uma «nova fábrica para o século XXI. Estamos a desenhar uma unidade que inclua as características do mercado do futuro», anunciou.

Por seu lado, Vasco Rodrigues, da Universidade Católica, deu conta do panorama mundial da produção de calçado. «87% dos sapatos são feitos na Ásia», afirmou. Uma das tendências é a redução de quota da China, ainda que mantenha mais de 67%. O país que mais cresceu em exportações foi o Vietname, com um aumento de 75%.

O segundo e último dia do congresso, que terminou hoje, foi dedicado sobretudo à sustentabilidade, formação e transferência de conhecimento.

Régy Lety Soex, do francês CTC, deu conta de um projeto para reciclagem de sapatos e que tem o seu principal desafio no couro, que liberta materiais perigosos quando incinerado, enquanto Matteo Pasca, da italiana Arsutoria apresentou a iniciativa Learn2Work, uma «escola de produção» que ajudam jovens que não estudam nem trabalham a aprender um ofício adequado aos seus interesses e capacidades.