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Subcontratar com inteligência – Parte I

Designs fantásticos e conceitos de loja extraordinários podem ajudar os retalhistas a assegurar crescimentos significativos no topo da cadeia de fornecimento. Mas, para que a base da cadeia possa crescer, a capacidade dos retalhistas em subcontratar de forma inteligente e flexível, para obterem o máximo benefício da cadeia de valor, é um dos principais contributos, argumenta Rohit Kuthiala. Rohit Kuthiala trabalha há vários anos na subcontratação de tecidos e vestuário a nível internacional. Actualmente é colaborador numa das empresas líderes da cadeia de fornecimento de vestuário internacional, estando envolvido na subcontratação e distribuição de vestuário para algumas das principais marcas europeias. Hoje em dia os negócios apresentam um nível de complexidade sem precedentes. Como resultado, o sucesso depende tanto de factores internos como: eficiência operacional, equipas talentosas e motivadas, boa gestão e fantástico serviço a clientes, como de factores externos, nomeadamente gastos no consumidor, preço do petróleo, abrandamento no mercado imobiliário e taxas de juro elevadas. Face a esta forte concorrência, é necessário um grande esforço para que uma empresa seja capaz de se reinventar continuamente, de forma a manter os consumidores a entrarem nas lojas e conseguir que essas entradas sejam convertidas em vendas efectivas. Dentro de dez anos é provável que o negócio seja ainda mais complexo e competitivo do que hoje em dia. No entanto, as empresas bem sucedidas vão continuar a ser as que se reinventam, mudam, adaptam, improvisam e encontram caminhos para aumentar a eficiência e a produtividade em todas as áreas de actividade. Tudo isto enquanto accionistas ansiosos esperam uma taxa de retorno cada vez maior sobre os seus investimentos, comparando o retorno do investimento feito no retalho com o retorno do investimento no petróleo, alta tecnologia e outras indústrias com rápido crescimento. Não sendo mais capazes de depender de apenas uma economia para gerar resultados estelares ano após ano, os retalhistas britânicos vão precisar de se expandir para os mercados internacionais, a um nível como até agora ainda não se verificou. Marks & Spencer e Tesco já provaram o sucesso na Rússia e na Europa de Leste respectivamente, e estão agora a olhar para as enormes oportunidades que existem na China e na Índia. Mas não se pode esquecer os retalhistas da Europa Central e dos EUA, que vão tentar e conseguir expandir no Reino Unido. Para além destes, algumas empresas asiáticas também vão tentar conseguir entrar no mercado britânico de gama alta, à medida que o bom desempenho económico nos seus países gera o excesso de capital necessário para investir na expansão no mercado externo. Especificidades da subcontratação No que diz respeito à subcontratação, apesar dos comentários serem específicos para os retalhistas de primeira linha no Reino Unido, são também aplicáveis a todos os retalhistas europeus. Com cada vez mais restrições comerciais a serem eliminadas (quotas, estruturas de tarifas elevadas, etc.), os próximos anos vão manter a tendência na quebra de preço à medida que as barreiras são eliminadas e novos ganhos de produtividade são conseguidos. Os retalhistas de artigos de gama baixa vão transpor alguns dos benefícios para os consumidores. Outros retalhistas vão provavelmente passar quantidades variáveis dos lucros conseguidos para os consumidores, que mesmo assim vão optar pelos preços mais baixos como principal factor (mas não o único) para a decisão de compra. Um aspecto fundamental é o conceito de benefício concretizado, o qual se encontra directamente relacionado com a capacidade do retalhista em ser capaz de subcontratar de forma inteligente e flexível, de maneira a obter o máximo benefício de qualquer ganho na cadeia de fornecimento. A maior parte dos retalhistas no Reino Unido passam a responsabilidade das suas decisões de subcontratação para o comprador. O comprador escolhe o fornecedor que, sendo capaz de responder aos requisitos da encomenda, apresenta o menor custo. Por vezes, o fornecedor mais barato é “forçado” a aceitar condições de entrega mais apertadas. Este sistema apresenta duas questões: 1. Será possível conseguir mais barato que o mais barato destes fornecedores? Afinal, a escolha é entre um leque restrito de fornecedores, que não contém obrigatoriamente o mais barato de todos. 2. Será que podemos confiar no mais barato para responder aos requisitos da encomenda e da qualidade? Os artigos estão a ser produzidos no país que apresenta menores riscos em termos de novas regulamentações governamentais de importação e menor incerteza política? A atribuição de encomendas mais tradicional é feita pelo comprador ao fornecedor, de acordo com custos e condições de entrega. Em muitos casos, um comprador do mesmo retalhista não tem a percepção do volume de negócio que é apresentado pelo comprador que se encontra sentado ao lado com o mesmo fornecedor. O retalhista perde aqui uma oportunidade de utilizar economias de escala e de monitorizar os volumes de negócio colocados a este fornecedor, com base na capacidade das empresas que ele está a utilizar e no país de origem em causa. Se o fornecedor é suficientemente grande e possui a massa crítica para concretizar uma operação de subcontratação bem desenvolvida, tudo corre bem. Mas, na maioria das situações, não é este o caso e uma poupança de 20 cêntimos de libra na compra transforma-se num custo de rebaixa de 10 libras. Portanto, onde está a poupança? Confiar em apenas um fornecedor para entregar o melhor custo possível sobre um produto, nem sempre é a melhor opção. Poucos fornecedores podem oferecer capacidades de subcontratação em diversas regiões, de forma a incorporar os benefícios da subcontratação em termos globais para o retalhista. Tal não significa que não possa ser feito. Existem benefícios significativos que uma empresa com capacidade de subcontratação inteligente (Smart Sourcing Company, ou SSC) pode alcançar com uma função de subcontratação mais envolvida e desenvolvida. Benefício do custo: dividir a produção Quando a subcontratação é assumida pelo retalhista, grossista ou até mesmo por um fornecedor visionário, como uma função chave, sendo desenvolvida com o objectivo de fornecer benefícios múltiplos para o negócio, o primeiro impacto é uma significativa diminuição dos custos nos bens adquiridos. Como exemplo temos o caso de um comprador para um retalhista de renome, o qual questionou dois dos seus principais fornecedores, um localizado no Bangladesh e outro na China, sobre o custo para um artigo de vestuário em malha. Como resultado obteve a seguinte matriz de custos: Este trata-se de um modelo real baseado numa peça de vestuário de gama média fabricada em empresas equivalentes nos dois países. O comprador colocou a encomenda confidencialmente com o fornecedor do Bangladesh, na medida em que é o mais barato para os custos considerados. No entanto, a empresa SSC consideraria o melhor de cada origem em termos globais. O fio e as aplicações seriam comprados na China e enviados para processamento no Bangladesh, de forma a que o fio mais barato, a produção e os benefícios do SGP (Sistema Generalizado de Preferências) pudessem ser conseguidos para esta produção. O resultado seria um preço incrivelmente baixo, impensável ao considerarmos as estratégias convencionais de subcontratação. Agora, se considerarmos uma empresa que subcontrata 150.000 peças de determinado estilo de vestuário todos os anos, o modelo poderá implicar uma poupança de 85.500 dólares apenas no custo de compra para a empresa SSC. Algumas empresas levaram esta perspectiva um pouco mais longe até à fase da fibra de algodão. O económico e fortemente subsidiado algodão norte-americano é transportado para as fiações chinesas e depois o fio é enviado para o Bangladesh. Esta opção acrescenta novas poupanças de custos ao modelo considerado anteriormente. As actuais tecnologias de informação e comunicação (TIC) permitem acompanhar e controlar cada estilo ao longo das diversas fases de produção. O fenómeno de divisão da produção também já começa a englobar as fases do fabrico do vestuário. Com o comércio global a tornar-se verdadeiramente global, cada região ou país ganha competência por excelência em determinada área e trabalha apenas aquela área. Uma empresa SSC recebe agora uma encomenda para, por exemplo, 50.000 pares de calças. A primeira pergunta não é saber em qual país ou fornecedor se deve colocar a encomenda, mas onde se obter o fio. A partir daqui é necessário determinar em qual país produzir o tecido e depois qual a empresa que vai produzir o artigo final, para que a encomenda seja satisfeita ao melhor preço, dentro dos prazos e recorrendo à melhor especialização. Cada país ou região trabalha e contribui na função em que possui excelência operacional e significativa competitividade em termos de custos. Este é o futuro da subcontratação. Uma nova realidade à qual as forças de mercado levarão todas as boas empresas a alcançar. Não se trata apenas de comprar, mas comprar com inteligência, e este é o tipo de subcontratação que contribui para o crescimento da base da cadeia de fornecimento.