Início Notícias Mercados

Subida dos preços ameaça indústria

O crescimento da produção industrial perdeu dinamismo em março, com os índices dos gestores de compras a mostrarem que a subida dos preços, tanto das matérias-primas como da energia, o covid-19 e a guerra na Ucrânia estão a abalar as expectativas de crescimento na Zona Euro, mas também nos EUA e na China.

Os índices dos gestores de compras da indústria (PMI) ajustados sazonalmente – um indicador compósito pensado para dar uma visão das condições operacionais na economia industrial – mostram um retrocesso generalizado no dinamismo em março e no primeiro trimestre de 2022, causado por um aumento da inflação e consequentemente dos preços, continuação dos surtos de covid-19 e a invasão russa da Ucrânia. As empresas também revelaram estar a pagar significativamente mais para adquirir as matérias-primas necessárias à produção dos seus artigos, indica um artigo do Sourcing Journal, que analisa a situação em diferentes mercados.

Zona Euro

O sector industrial da Zona Euro registou a continuação do abrandamento do crescimento no final do terceiro trimestre, com o PMI a descer para o valor mais baixo dos últimos 14 meses. O PMI industrial da Zona Euro da S&P Global baixou para 56,5% em março, em comparação com 58,2% em fevereiro, ilustrando a mais lenta melhoria nas condições operacionais dos produtores de bens desde o início de 2021.

O aumento das tensões geopolíticas foi sentido pelos produtores como um fator a pesar na procura e teve um impacto visível na confiança dos negócios, que caiu para o nível mais baixo desde maio de 2020. Houve ainda uma intensificação das pressões da cadeia de aprovisionamento durante o mês devido ao incremento do número de infetados por covid-19 na China e à invasão da Ucrânia pela Rússia, que alegadamente levaram a prazos de entrega mais dilatados.

Ao mesmo tempo, para além do aumento dos custos das commodities e da energia, a inflação nas matérias-primas voltou a acelerar em março e atingiu o valor mais alto dos últimos quatro meses. Para compensar as pressões sobre as margens, os produtores da Zona Euro subiram os preços para o nível mais alto dos últimos anos.

A produção industrial na região continuou a subir em março, em linha com a tendência observada desde julho de 2020. Contudo, a taxa de crescimento foi a mais lenta no atual período de crescimento, com as empresas em dificuldades para obterem matérias-primas e outros componentes.

As ausências de trabalhadores relacionadas com a covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia e uma certa letargia na indústria automóvel foram igualmente apontadas como entraves ao crescimento.

«Numa altura em que o esbater da última onda pandémica estava a criar ventos favoráveis para a recuperação da indústria da Zona Euro, com as economias a reabrirem e os constrangimentos da cadeia de aprovisionamento a aliviarem, a guerra na Ucrânia criou um preocupante contratempo», sublinha Chris Williamson, economista-chefe da S&P Global. «Embora o impulso na procura devido a um maior relaxamento das medidas de contenção de covid-19 tenha ajudado a assegurar uma expansão sustentada dos cadernos de encomendas da indústria e da produção em março, as taxas de crescimento arrefeceram acentuadamente por causa das sanções, aumento dos custos com a energia e novos constrangimentos da cadeia de aprovisionamento relacionados com a guerra. Um aumento da aversão ao risco entre produtores e clientes devido à incerteza causada pela invasão, em conjunto com uma crise provocada pelo aumento do custo de vida, ameaça levar o crescimento para níveis ainda mais baixos nos próximos meses, como refletido na queda das expectativas de crescimento dos produtores para o próximo ano», acrescenta.

EUA

A atividade económica no sector industrial dos EUA aumentou em março, com o PMI Industrial de março a registar 57,1%, uma descida de 1,5% face a fevereiro que assinala um abrandamento do crescimento, de acordo com o Institute for Supply Management (ISM). Um PMI acima de 48.7%, num determinado período de tempo, normalmente indica uma expansão da economia.

«O sector industrial dos EUA continua num ambiente impulsionado pela procura e restringido pela cadeia de aprovisionamento», explica Timothy R. Fiore, presidente do ISM Manufacturing Business Survey Comittee. «Em março, foram feitos progressos para resolver os problemas de escassez de mão de obra em todos os níveis da cadeia de aprovisionamento, que irão resultar numa maior quantidade de produção e entregas dos fornecedores… março trouxe de volta o aumento dos preços, devido essencialmente à instabilidade nos mercados energéticos mundiais», acrescenta.

Fiore afirma que o sentimento de um painel de executivos da cadeia de aprovisionamento continuou «fortemente otimista em relação à procura», com seis comentários positivos de crescimento por cada comentário cauteloso, uma diminuição face ao rácio de 12 para 1 de fevereiro.

[©Unsplash/Allan Wadsworth]
«A procura expandiu-se, com o índice de novas encomendas a permanecer em território de crescimento, apoiado por um crescimento mais baixo de novas encomendas para exportação», indica. «O índice de inventário de clientes continuou a um nível muito baixo e o índice de encomendas de acumulação manteve-se em território de forte crescimento. O consumo cresceu durante o período, embora a uma taxa mais baixa… o índice de preços aumentou pelo 22.º mês consecutivo, a uma taxa dramaticamente mais alta em comparação com fevereiro», resume.

O vestuário, couro e produtos semelhantes, assim como o mobiliário e artigos relacionados lideraram as 15 indústrias produtivas, incluindo fábricas têxteis, que registaram crescimento em março.

O índice de preços do ISM subiu 11,5% no mês passado, para 87,1%, indicando que os preços das matérias-primas aumentou pelo 22.º mês consecutivo e registou o maior crescimento mensal desde dezembro de 2020.

Em março, todas as 18 indústrias reportaram ter pago mais pelas matérias-primas, numa lista que é liderada pelo vestuário, couro e produtos semelhantes, incluindo as fábricas têxteis.

China

A introdução de maiores restrições para conter a disseminação da mais recente onda de covid-19 na China pesou muito na performance da indústria em março, de acordo com o PMI da indústria da Caixin China compilado pela S&P Global.

As empresas registaram o declínio mais acentuado na produção e novos negócios desde o início da pandemia em fevereiro de 2020, com as restrições relacionadas com a mobilidade a levar a uma deterioração mais grave da performance dos fornecedores. O estudo indica que a pressão dos custos também se intensificou, com os custos dos inputs e as taxas sobre os produtos acabados a aumentarem ambos às taxas mais altas dos últimos cinco meses.

A atual disrupção das operações, o aumento dos custos e a recente invasão da Ucrânia pesaram na confiança dos empresários para o resto do ano, que em março caiu para o valor mais baixo em três meses.

[©Unsplash/Rendy Novantino]
O PMI para a China baixou para 48,1% em março, em comparação com 50,4% em fevereiro, assinalando uma renovada deterioração nas condições de negócios. Embora, no geral, seja modesto, o ritmo de declínio foi o mais acentuado desde fevereiro de 2020, destaca o estudo. A queda no PMI foi em parte impulsionada por uma nova quebra sólida na produção das empresas chinesas em março.

Da mesma forma, as novas encomendas em março baixaram à taxa mais alta desde fevereiro de 2020, com as empresas a comentarem que a procura interna e externa diminuiu, tendo as encomendas para exportação caído ao ritmo mais alto dos últimos 22 meses. Os custos das matérias-primas, no geral, subiram a um ritmo acelerado em março, com a taxa de inflação a atingir o máximo dos últimos cinco meses. As empresas procuraram passar os custos adicionais para os clientes na forma de preços de venda mais altos.

«Os políticos estão a enfrentar desafios duplos… melhorar o nível de precisão das medidas de controlo da epidemia para conseguir um equilíbrio entre manter a ordem normal da produção e da vida e salvaguardar a saúde e segurança das pessoas, assegurando que as políticas fiscais e monetárias são implementadas de forma precisa», elucida Wang Zhe, economista sénior no Caixin Insight Group.