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Sustentabilidade domina Marques’Almeida

Tornar a marca sustentável é um dos objetivos da dupla de designers, que recentemente apresentou um manifesto de responsabilidade ambiental e social com metas para 2022 que abrangem das matérias-primas à relação com os fornecedores.

«A nossa preocupação nestes meses tem sido, sobretudo, como tornar a marca mais sustentável e a nossa abordagem criativa foi um pouco dominada por essas preocupações de sustentabilidade. O nosso processo criativo passou a ser mais como uma resposta a um problema», explica Marta Marques ao Jornal Têxtil. Uma abordagem que estava no ADN da marca, já que «para dizer a verdade, a nossa resposta criativa, do ponto de vista estético, sempre foi instintiva», afirma Paulo Almeida.

A dupla de designers, que habitualmente se apresenta na Semana de Moda de Londres e no Portugal Fashion, criou uma coleção «muito mais coesa, mais pequena, com materiais sustentáveis» e que reflete também a comunidade que gira à volta da Marques’Almeida. As propostas foram dominadas pelo denim característico da marca, mas não só, em versões que percorreram uma paleta abrangente, do branco ao prateado, passando pelo amarelo, preto, verde azeitona, cor-de-rosa, azul e laranja, em versões sólidas ou tie-dye.

«A coleção [apresentada no Portugal Fashion] tem alguns elementos reM’Ade [uma linha produzida com stocks parados de tecidos e materiais reciclados] e outros que não eram reM’Ade, mas que estão a seguir as diretrizes do nosso manifesto [de responsabilidade ambiental e social], portanto, já não há uso nenhum de fibras sintéticas a não ser que sejam recicladas, os algodões são todos orgânicos certificados, as viscoses são todas certificadas. É a primeira coleção que foi feita a seguir essas regras», revela Marta Marques.

Marta Marques e Paulo Almeida

À responsabilidade ecológica, junta-se uma vertente de responsabilidade social, onde a Marques’Almeida se compromete a dialogar com os produtores de forma a garantir um pagamento justo e a lançar menos coleções para o mercado, a que soma uma preocupação desde sempre de apresentar, nos seus desfiles, um «lado humano da moda», com a inclusão de pessoas diferentes, nem todas modelos profissionais, que fazem parte da comunidade da marca. «Felizmente temos a sorte de estarmos cercados por pessoas muito inspiradoras que, de forma muito natural, nos alertam para estes problemas», reconhece Paulo Almeida.

“Made in Portugal”

A produção da marca foi, como habitualmente, realizada em Portugal e com a pandemia, que “obrigou” a dupla a manter-se mais pelo seu país de origem do que pelo Reino Unido, onde tem uma equipa, essa relação foi ainda mais estreitada. «Passávamos já muitas temporadas cá mas em termos de desenvolvimento abriu-nos portas», garante Marta Marques. «Fazer reM’Ade só foi possível porque estávamos cá, porque fisicamente fomos buscar os rolos de tecido, fomos às fábricas», exemplifica. «Esta paragem um bocadinho forçada voltou-nos a dar tempo para poder ir aos fornecedores e isso foi muito bom. Portugal é muito importante para isso», admite a designer.

Menos positivo foi o impacto nas vendas. «Houve muito medo dos compradores – é normal, ninguém sabia o que ia acontecer», conta Paulo Almeida. Muitas das lojas físicas que vendem a Marques’Almeida estiveram encerradas durante meses e «temos de entender que negócios pequenos se calhar não vão conseguir investir nos próximos tempos», assume Marta Marques. «Com os negócios grandes felizmente correu muito bem e continuaram a vender. Houve uma procura porque é preciso manter um certo otimismo», assegura Paulo Almeida, adiantando ainda que «os nossos principais parceiros são online e estão com ótimos resultados».

Ainda assim, houve repercussões na estratégia da marca. «Estávamos a apostar num showroom em Xangai antes disto ter começado e numa presença maior na Ásia, que obviamente vamos cancelar», indica Marta Marques.

Já o futuro faz-se com a sustentabilidade, que inclui ainda a revista See-Through para consciencializar para a questão da transparência da moda, diversidade, racionalidade e inclusão, cujo primeiro número foi lançado em setembro. «Temos uma equipa nova que está a fazer a curadoria e a produção da revista connosco. Quando encontrarmos coisas sobre as quais valha a pena falar, de aumentar a consciencialização, vamos lançar outro número, sem obrigatoriedade, porque a obrigatoriedade vai contra a noção de sustentabilidade», sustenta a designer.

O objetivo maior «é continuar a aprender», aponta Paulo Almeida, e «continuar a caminhar neste sentido da sustentabilidade», conclui Marta Marques.