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Sustentabilidade e indústria 4.0 dominam tendências

São os temas fortes do momento e foram os protagonistas do primeiro dia da iTechStyle Summit 2019. A importância da sustentabilidade e a implementação dos princípios da indústria 4.0 vieram para ficar, juntamente com desafios exigidos pelos consumidores, como a personalização.

Olaf Schmidt, Georg Dieners, Giusy Bettoni, António Braz Costa, Isabel Furtado e David Shah

Sem o Ministro da Economia, que cancelou a presença por motivos de saúde, mas com a sala cheia de representantes das empresas e académicos, a iTechStyle Summit cumpriu o propósito do primeiro dia e apresentou as megatendências que vão influenciar a indústria têxtil e vestuário nos próximos anos.

António Amorim

«O sector têxtil e vestuário tem-se afirmado pela inovação e criatividade. O têxtil tem-se perpetuado com base nestas plataformas de discussão, de apresentação de ideias, de partilha de conhecimento», afirmou António Amorim, presidente do Citeve, na abertura do evento, que se prolonga até quinta-feira, dia 4.

«A situação do têxtil, do vestuário e, especialmente, dos têxteis técnicos a nível mundial é difícil de interpretar. São sectores verdadeiramente globalizados, onde é possível que o país mais pobre faça concorrência ao país mais rico», sublinhou António Braz Costa, CEO do Citeve e do CeNTI, na abertura do primeiro painel, dedicado às megatendências.

Por isso mesmo, a atenção à forma como o negócio está a evoluir é crucial para as empresas que se querem manter competitivas neste mundo globalizado e dois temas estiveram em foco ao longo do dia: sustentabilidade e indústria 4.0.

Sustentabilidade com design

É inegavelmente uma preocupação crescente por parte dos consumidores e das empresas, mas a sustentabilidade não pode ser pensada apenas com a proteção do meio ambiente em mente. Segundo Giusy Bettoni, CEO e fundadora da agência de marketing e comunicação C.L.A.S.S., «toda a gente está a falar de sustentabilidade e de economia circular, mas hoje queremos concentrar-nos em valores, porque os consumidores contemporâneos procuram valores». Neste sentido, é preciso abordar a questão da sustentabilidade com base em três dimensões: design, inovação e responsabilidade. «A responsabilidade é um valor adicional. O consumidor quer algo mais, mas tem de ser inovador e ter design», destacou.

Giusy Bettoni

A fundadora da C.L.A.S.S. destacou ainda que, embora 66% dos millennials estejam prontos para investir em produtos sustentáveis, só 34% compram produtos sustentáveis. Os motivos para tal são dois: «as marcas não estão a oferecer produtos alinhados com o estilo de vida do consumidor» e, «mais importante, a comunicação da marca não tem informação fiável sobre sustentabilidade», enumerou.

Para colmatar sobretudo esta segunda questão, as certificações são importantes. Foi isso mesmo que afirmou Georg Dieners, secretário-geral da Associação Oeko-Tex, para quem é impossível «fecharmos os olhos às mudanças climáticas», cujos efeitos estão já a ser sentidos. «Cada um de nós tem de dizer adeus a hábitos antigos», assegurou. As mudanças no clima estão já a impactar na indústria têxtil e vestuário, nomeadamente no que concerne à tradicional divisão das estações e, em breve, a subida dos níveis do mar poderá eliminar do mapa áreas vocacionadas para a produção de têxteis e vestuário, nomeadamente no Bangladesh. Tendo em conta o seu «enorme impacto» no ambiente, «a indústria tem a obrigação de dar o seu contributo», considera Georg Dieners. A Associação Oeko-Tex desenvolveu, por isso, o standard 100 Oeko-Tex para os produtos mas também a certificação STeP, onde são tidas em conta questões como gestão de químicos, performance ambiental, gestão da qualidade, responsabilidade social e segurança e saúde no trabalho. «A sustentabilidade é um processo. Queremos ajudar as empresas e os consumidores a tomarem decisões que ajudam o planeta», afirmou o secretário-geral da Oeko-Tex.

Isabel Furtado

Os consumidores, contudo, querem mais do que apenas produtos que fazem bem ao ambiente. «Não querem usar castanho, como as árvores», sublinhou, de forma enérgica, David Shah, consultor e editor da View. «As pessoas querem sensualidade na vida», apontou, acrescentando que a natureza é mais do que o castanho. «Há muitas cores», garantiu. Durante uma apresentação em ritmo acelerado, David Shah focou áreas em crescimento, como o mercado de bem-estar, o fitness, a economia da experiência e da simplicidade, mas também o poder dos dados, dando como exemplo a coleção do designer australiano Jason Grech em parceria com a IBM. «Não contratem designers, contratem técnicos de Silicon Valley para analisar dados», aconselhou.

Indústria 4.0 em curso

Olaf Schmidt

Os big data, ou megadados, são o pilar da indústria 4.0, que está a mudar a manufatura no mundo e em Portugal. Entre os benefícios, enumerou Isabel Furtado, presidente do conselho de administração da Cotec, estão o aumento a produtividade, melhor eficiência, partilha de conhecimento, maior flexibilidade, condições de trabalho mais seguras, maior satisfação do consumidor e redução dos custos. «Com tudo isto podemos aumentar a rentabilidade», admitiu.

Os desafios, no entanto, passam pela reconversão da mão de obra para responder à criação de fábricas inteligentes. «Precisamos de pessoas que trabalhem com computadores, pessoas que analisem os dados e os usem de forma adequada», reconheceu Isabel Furtado.

No têxtil, referiu a presidente do conselho de administração da Cotec ao Portugal Têxtil à margem da conferência, «como em tudo, temos estádios diferentes em diferentes empresas – não significa que sejam as pequenas empresas ou as PMEs que estão mais atrasadas que as grandes, isso é uma utopia, não é verdade. O que temos que fazer é consciencializar as pessoas de que a indústria 4.0 não é mais uma opção. E se queremos competir no mercado global, que tem os nossos parceiros talvez um pouco mais à frente do que nós, temos que andar mais depressa do que eles».

Jorgen Lindahl, João Nuno Oliveira, Rodrigo Siza Vieira, Eric Norling e José Carlos Caldeira

Neste campo da indústria 4.0 há já empresas que estão a dar passos nessa direção, nomeadamente entre os construtores de máquinas, como a Mtex, a Baldwin Technology ou a SPGPrints, e os fornecedores de soluções como a Lectra, que, como referiu Rodrigo Siza Vieira, diretor-geral para Portugal e Espanha, está a permitir às empresas responder à procura de produtos personalizados e à customização em massa. «27% das marcas e produtores oferecem já algum tipo de personalização», afirmou, adiantando que em 2017, os produtos personalizados na moda cresceram 16%. «A customização está aqui para ficar. Hoje a tecnologia e os processos como os desenhamos permitem responder a estes desafios», destacou Rodrigo Siza Vieira.

Rodrigo Siza Vieira

A personalização foi igualmente uma das tendências apontadas por Olaf Schmidt, vice-presidente de têxteis e tecnologias têxteis da Messe Frankfurt. «Tem uma grande influência no mundo ocidental e está a disseminar-se», assegurou, somando a esta a tendência da digitalização, que está a originar microfábricas «que permitem flexibilidade e produção local», acrescentou, dando o exemplo da Efka, que desenvolveu um sistema com máquinas de costura interligadas controlado por big data.

Os dados, de resto, são o pilar fundamental da indústria 4.0, seja no projeto de digitalização dos arquivos das têxteis italianas na região de Prato, promovido pelo município, seja no desenvolvimento de vestuário de segurança com recurso a scans 3D para melhorar a capacidade de movimentação, como explicou Eugenija Stradzdiene, ou na plataforma tecnológica GeniusTex, apresentado por Inga Gehrke, que pretende ligar produtores, inventores e utilizadores finais.

«Os dados estão no centro da indústria 4.0», resumiu João Nuno Oliveira, coordenador do Citeve para a transformação digital e indústria 4.0.

Eugenija Strazdienne, André Jacques, BesnikMehmeti e Inga Gehrke