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Sustentabilidade é um must-have

Tendo deixado o mundo das opções para o universo das obrigações na hora de pensar uma nova coleção, a sustentabilidade ocupa um lugar central nas sugestões lusas de tecidos e malhas, como a Riopele, Paulo de Oliveira, RDD, Adalberto, Samofil e Gierlings Velpor.

José Alexandre Oliveira (Riopele)

As marcas e casas de moda estão cada vez mais despertas para a necessidade de ter uma oferta amiga do ambiente. Acusada de ser a segunda indústria mais poluente, atrás da petrolífera, têm sido assumidos compromissos para tornar a moda mais verde. No mais recente, 32 empresas, incluindo o grupo Kering, a Adidas e a Inditex, que em conjunto representam mais de 30% do volume de negócios da moda, assinaram no passado mês de agosto um pacto onde se comprometem a combater as alterações climatéricas, restaurar a biodiversidade e evitar a poluição dos oceanos. Entre os objetivos estão atingir zero emissões de carbono até 2050, usar 100% de energia renovável e apoiar a inovação para eliminar a poluição por microfibras resultantes da lavagem de vestuário.

Reciclar e reutilizar

Do lado português, os esforços têm-se traduzido em resultados e a sustentabilidade é já, há alguns anos, um motor de inovação e criatividade. «Temos que dar muito ênfase à parte da sustentabilidade, que para nós foi um projeto que começámos há cinco anos e tem cada vez mais eco. Já faturamos milhares de metros», reconhece José Alexandre Oliveira, presidente da Riopele.

Paulo Augusto Oliveira (Paulo de Oliveira)

Da coleção para a estação fria de 2020/2021 fazem parte artigos em liocel e poliéster reciclado, que a empresa junta aos produtos desenvolvidos no âmbito da marca Tenowa, que reutiliza os restos de fios e tecidos da empresa para criar novos tecidos, que têm associados acabamentos funcionais com base em desperdícios da indústria agroalimentar. A procura tem vindo a aumentar, com clientes como a Max Mara a buscarem junto da Riopele soluções nesta área. «Há clientes para quem é importante [a sustentabilidade], há clientes para quem ainda não é importante. Mas o fundamental é estar já apto a fazer as coisas como devem ser», considera José Alexandre Oliveira.

A Paulo de Oliveira, por seu lado, lançou a nova gama de produtos Oliveira Green, que junta lã com poliéster reciclado e é a face visível da política de sustentabilidade d< empresa. «A Oliveira Green é uma sequência lógica do que temos feito em termos de sustentabilidade e também é uma resposta ao mercado, pois temos clientes que só querem produtos sustentáveis», sublinha o administrador Paulo Augusto Oliveira.

Tingir sem poluir

Na RDD, a sustentabilidade está na linha da frente e as duas grandes novidades da coleção estão centradas nesta temática. A primeira é a gama Organic & Mercerized, composta por algodão orgânico mercerizado com certificação GOTS. «Tem a ver com a recuperação da soda [cáustica] que usamos no processo», explica a diretora-geral Elsa Parente, dando conta que o processo de mercerização recupera e reutiliza praticamente todos os químicos e produz água quente que é usada no tingimento. Trata-se de «uma gama de mercerizados sempre com toque acetinado, muito clean e com utilização de algodão orgânico», acrescenta. Os países nórdicos são, atualmente, os que revelam maior apetência, enquanto «Itália ainda está pouco interessada neste tipo de produto», adianta ao Jornal Têxtil.

Elsa Parente (RDD)

A segunda novidade foi batizada mid.tone e está direcionada para o tingimento em peça. «São pigmentos extraídos de sementes, de frutos, de arbustos, que dá esta paleta», indica a diretora-geral da RDD. Atualmente limitada a tons acastanhados, como as tonalidades deserto, areia, barro e canela, «estamos a estudar outras paletas», afirma, elucidando que, ao contrário da Organic & Mercerized, «o mid.tone é transversal. É engraçado que temos clientes mais preocupados com a sustentabilidade e outros menos preocupados com isso. É o conceito mas também o efeito estético», justifica Elsa Parente.

A linha de produtos orgânicos da RDD está já a ser usada pelos clientes de gama alta, como a COS, e o projeto 360º, que está a usar desperdícios têxteis para criar novos fios, está igualmente a arrancar em força.

Mas não são apenas os clientes de gama alta que recorrem às empresas portuguesas para encontrar tecidos sustentáveis.

Paulo Ferreira (Adalberto)

«Aquelas que mais me surpreenderam nessa matéria, e na forma como reagiram, até porque em princípio não seriam aquelas que deviam ter essas preocupações na fase inicial, foram as grandes marcas de fast fashion deste mundo, quer por via da Zara, quer por via da H&M. Foram aquelas que me surpreenderam pela positiva na forma como encararam a situação e nas iniciativas que estão a ter nessa matéria», confessa Paulo Ferreira, CSO da Adalberto, que tem ambas as retalhistas como clientes. Tal como outras empresas, também a especialista em tinturaria e estamparia está com os olhos postos na inovação sustentável. «Temos uma política de sustentabilidade onde mostramos o que estamos a fazer, o que já fizemos e o que temos planeado executar nesta matéria. Temos também uma série de produtos com base na preocupação com a sustentabilidade, quer por via dos algodões BCI, quer por via dos orgânicos, quer por via de uma série de produtos reciclados», enumera.

Inspiração natural

Na Samofil, a aposta recaiu sobre matérias-primas naturais, como o 100% linho. «Tem tido muita procura», afiança Ana Sacramento, a terceira geração envolvida no negócio familiar, que direta ou indiretamente vende malhas para clientes como Gerard Darel e Zadig & Voltaire, «que em termos de linho, é para quem temos exportado mais, embora não seja nosso cliente direto», esclarece o gestor comercial Marco Vieira.

Marco Vieira, Ana, Joaquim e Hugo Sacramento (Samofil)

«Já é costume, tudo o que for associado ao “verde”, ao reciclado, às fibras naturais, tem tido muita procura e, por isso, apostamos um bocado nisso nesta coleção», assume Ana Sacramento.

A Gierlings Velpor tem também produtos 100% sustentáveis, das matérias-primas, como algodão orgânico, aos produtos químicos usados e «há uma procura crescente – todos os anos há mais clientes a pedir esse tipo de produto», afiança o diretor de vendas Pedro Lima. Outro trunfo da empresa é o facto de trabalhar peles não-naturais, que garantem o logótipo “animal friendly”.

Pedro Lima (Gierlings Velpor)

A sustentabilidade, acredita Pedro Lima, «veio para ficar. Acho que tudo o que é esse nível de incorporação de produtos que deem confiança ao consumidor é uma tendência que veio para ficar e que tem mesmo potencial de crescimento. E nós vemos, na nossa coleção e nas outras, que cada vez mais têm produtos desses, porque o mercado pede».