Início Notícias Marcas

Sustentabilidade nos jeans

A Levi Strauss quer continuar a elevar a fasquia no que diz respeito à sustentabilidade da sua cadeia de aprovisionamento, dos campos de algodão ao produto final, mantendo a liderança no sector através da promoção de novos desenvolvimentos e programas de apoio, ao mesmo tempo que impulsiona a evolução da indústria no geral.

«Somos melhores quando lideramos e somos pioneiros» é a visão que Michael Kobori, vice-presidente de sustentabilidade, tem em relação à responsabilidade da gigante do denim Levi Strauss & Co em assegurar que tem uma cadeia de aprovisionamento ética. Mas a concorrência, acredita, mais do que a colaboração, é que realmente eleva a fasquia no que diz respeito à sustentabilidade.

A Levi Strauss & Co pode dizer que desenvolveu os primeiros jeans há cerca de 142 anos. Mas foi também pioneira de outras formas, incluindo ser a primeira empresa de vestuário multinacional a estabelecer um código de conduta no local de trabalho para os fornecedores, a primeira a estabelecer diretrizes mundiais para padrões de qualidade de água nos fornecedores e a primeira a dar incentivos financeiros a fornecedores de vestuário em países em desenvolvimento.

A Levi Strauss colabora e faz parte de várias iniciativas em todos os elos da cadeia de aprovisionamento, dos campos de algodão à confeção dos jeans. A empresa de 162 anos, com vendas em mais de 110 países, participa em diversas iniciativas, como a Better Cotton Initiative (BCI), que trabalha com produtores de algodão para promover condições justas, e a partir da qual a Levi Strauss pretende aprovisionar cerca de 75% do seu algodão até 2020, em comparação com 6% atualmente.

É também membro da Sustainable Apparel Coalition, que tem como objetivo reduzir o impacto ambiental e social dos produtos de vestuário e calçado mundialmente, e do grupo de desenvolvimento da ferramenta de medição de sustentabilidade Higg Index. Mas no que diz respeito a elevar a fasquia em relação à sustentabilidade na indústria de vestuário, Kobori acredita que a concorrência tem um papel central. «Ao subir os padrões, vai levar os outros a atingir essa meta. É uma das coisas que tentamos fazer nos últimos 20 anos quando estabelecemos o nosso primeiro código de conduta e termos de compromisso. Agora, claro, toda a gente tem um», explica.

O vice-presidente de sustentabilidade destaca os padrões de qualidade relativamente às águas residuais do grupo, a sua lista de substâncias restritas e o seu programa Worker WellBeing, que exige que os principais vendedores implementem programas que melhorem a vida dos trabalhadores fora dos muros da empresa. «Literacia financeira, formação em saúde reprodutiva para mulheres, acesso a cuidados de saúde, acesso a oportunidades de educação. Este tipo de programas enriquece a vida dos trabalhadores mas também tem retorno para a empresa», enumera Kobori, que aponta um retorno de “quatro para um” no investimento. «Muitas marcas fazem coisas semelhantes, mas quando as bolsas de financiamento terminam o programa termina e o benefício perde-se. Por isso, o que temos feito com os nossos principais fornecedores, é que se autofinanciem para que seja sustentável a longo prazo, para que o benefício para os trabalhadores continue e o benefício para o fornecedor continue. Essa é a diferença com esta abordagem, chegar ao próximo nível se quiser tornar-se fornecedor da Levi Strauss», refere.

Financiamento aos fornecedores
Em dezembro do ano passado, a gigante dos jeans começou a dar empréstimos a preços baixos para ajudar os seus fornecedores de vestuário em países em desenvolvimento para melhorar os padrões ambientais, de saúde, de segurança e de trabalho, disponíveis para os que têm boa performance em termos de sustentabilidade.

Lançado com o International Finance Corporation (IFC) do Grupo do Banco Mundial, o investimento e programa de aconselhamento no valor de 500 milhões de dólares (cerca de 447 milhões de euros) é «o primeiro do género» e até agora, revela Kobori, integra oito fornecedores do Bangladesh e do Paquistão. «Há muitos mais interessados no programa, o que é fantástico», afirma. «Estou realmente entusiasmado com isso e o IFC recentemente alargou o programa à Puma, por isso eles estão agora a participar, o que é ótimo», acrescenta.

Kobori diz que não há limite ao número de fornecedores que pode participar no programa, mas reconhece que a taxa de financiamento disponível para os fornecedores em alguns países não é suficiente para ser um incentivo. A resposta tem sido mais positiva no Sul da Ásia, no Médio Oriente e nas Américas, mas menos no Leste da Ásia, onde há acesso a financiamento mais competitivo.

Pressão responsável
Enquanto empresa mundial com vendas de 1,05 mil milhões de dólares no último trimestre, a Levi Strauss está consciente da crescente pressão das marcas e retalhistas para terem uma cadeia de aprovisionamento mais responsável, do início ao fim. E Kobori reconhece a necessidade de haver mais transparência e responsabilidade. «A expectativa do consumidor em relação a uma marca mundial como a nossa, ou qualquer marca mundial, é que temos responsabilidade até à fase da matéria-prima e temos de fornecer ao consumidor transparência até essa fase», sustenta.

A Levi Strauss já publicou uma lista dos fornecedores, mas Kobori admite que ainda não consegue fazer a rastreabilidade até aos campos de algodão, algo que, explica, é «uma tarefa gigantesca». Através da BCI, a Levi Strauss tem estado a trabalhar na formação de agricultores para cultivarem algodão com recurso a menos água. Embora reduzir substancialmente a pegada de água da empresa seja atualmente um dos «maiores compromissos», a longo prazo, a visão passa por usar mais algodão reciclado no processo.

A empresa está focada em reduzir os cerca de 31 mil milhões de quilos de vestuário que acabam em aterros anualmente – quase 95% dos quais afirma poderem ser reciclados. Como resultado, a Levi Strauss lançou, no ano passado, o programa “clothing take-back” em lojas selecionadas nos EUA e na Europa. Através da iniciativa, os itens usáveis são revendidos e as restantes peças são recicladas em panos de limpeza e isolamento de edifícios. «O programa está a ser alargado e, este ano, todas as nossas lojas de retalho nos EUA terão o “take-back”. Uma das coisas em que estamos a trabalhar é como reciclar o denim em novas Levi’s.

Um dos desafios de fazer isso é que o máximo que podemos reciclar é cerca de 20% do denim em novo tecido porque mais do que isso as fibras de algodão são curtas. Ficam mais curtas e menos resistentes, por isso se misturarmos mais de 20%, não passa no nosso teste de resistência, e a resistência e a durabilidade são muito importantes para nós. É uma das coisas ótimas que adoramos em relação ao nosso produto, vai durar muito tempo, não é fast fashion, não é descartável», justifica o vice-presidente de sustentabilidade. Esta durabilidade no denim leva Kobori ao seu tema favorito e ao feito em termos de sustentabilidade de que mais se orgulha: o programa Water<Less. O processo tem como objetivo reduzir a água usada nos acabamentos do vestuário em 96%.

A empresa publicou recentemente o relatório Product Lifecycle Assessment, onde indica que poupou mil milhões de litros de água no processo de acabamento de vestuário nos últimos quatro anos. Em 2020, o grupo tem como objetivo fazer 80% dos seus artigos com as técnicas Water<Less, em comparação com 25% atuais. «O programa mostra o que é possível e como a sustentabilidade não só faz sentido para o ambiente mas também para o negócio. Tudo tem tido repercussão junto do consumidor e a nossa marca está associada a poupança de água», destaca.

Acima de tudo, conclui Michael Kobori, «somos melhores quando lideramos e somos pioneiros. Acreditamos na inovação e acreditamos nesse espírito pioneiro e temos de continuar a elevar a fasquia para nós próprios mas também para o resto da indústria».