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Tajiservi Talks apontam caminhos

A sustentabilidade, nas suas diferentes vertentes, dominou as primeiras Tajiservi Talks. Sob o mote “Mudanças de paradigma no consumo do têxtil”, construtores de maquinaria e produtores de linhas e acessórios mostraram que já há passos firmes na indústria têxtil e vestuário para tentar ser mais verde.

É uma mudança acelerada pelo mercado e pelos consumidores, mas o tema já não é exatamente novo para muitas das empresas que estiveram representadas na conferência promovida pela Tajiservi no passado dia 24 de janeiro.

Catarina Lopes

O filme “The True Cost” foi um dos motores do despertar de consciência dos consumidores para os problemas da indústria da moda, como referiu Marta Cerqueira, editora-executiva da Magg, a revista do grupo Observador dedicada ao público feminino, e o aumento da procura no mercado tem levado ao desenvolvimento de insígnias e projetos sustentáveis, como é o caso da marca portuguesa Nüwa, nascida da vontade de fazer a diferença de Catarina Lopes, que é também project manager nas Confecções Calvi, e do Green Circle, uma iniciativa que Paulo Gomes, diretor criativo do Manifesto Moda, cofundou e que, com o apoio do CITEVE, tem estado em diversos palcos internacionais para mostrar materiais sustentáveis, produzidos pela indústria têxtil portuguesa, que são transformados em artigos de moda por designers nacionais. «Pegamos nas melhores soluções têxteis das empresas e convidamos designers portugueses – já incluímos 34 designers e mais de 40 empresas», indicou Paulo Gomes.

Desenvolvimentos verdes

Mas se este projeto começou em 2018, outros, mais a montante, iniciaram-se há mais de uma década. É o caso da Seit Electtronica, como contou Edoardo Codello, diretor de vendas da empresa especialista em lasers para indústria têxtil. As primeiras medidas foram tomadas após Edoardo Codello ter visto, em primeira mão, o impacto da fast fashion em países emergentes como o Bangladesh, em 2009.

Edoardo Codello

«Comecei a recolher informação e a pensar como é que uma empresa pequena como a minha, da minha família, podia agir», contou Codello. A aposta da empresa passou por reduzir o seu o impacto e espelhou-se no modelo SL-10, que tem um sistema de exaustão patenteado, que é «seis vezes mais eficiente». Além disso, a Seit Electtronica trocou «para um fornecedor de energia 100% “verde”. Agora todos os nossos produtos são feitos com energia renovável. Custa um pouco mais, mas vale a pena», afirmou.

A UES Foils, por seu lado, acredita que a proximidade ao mercado e a promessa de continuidade é a sua grande mais-valia no campo da sustentabilidade, enquanto a Düzey está a trabalhar há dois anos na investigação de materiais biodegradáveis para lantejoulas. «Estamos conscientes deste tema, mas não há muitos materiais que possam substituir o plástico. Contudo, estamos a ter resultados e em alguns meses devemos ter novidades», adiantou Can Yilmaz, diretor-geral de marketing e vendas da empresa.

Martin Bohmer

Já a Madeira Garnfabrik está a produzir linhas de bordado com poliéster reciclado, com fibras orgânicas e com viscose com certificação FSC (Forest Stewardship Council) e tem implementado medidas como a renovação das máquinas de tingimento com o sistema patenteado Acquazero by Noseda «que permite reduzir em 60% o consumo de água e energia», apontou Martin Böhmer, diretor comercial da empresa, que com diversas medidas foi capaz de reduzir em 37% o consumo de água por quilo de linha, que baixou de 85 litros em 2001 para 54 litros atualmente. O consumo de energia também reduziu 96% e o de gás natural 60%. «São muitas medidas pequenas, não se consegue fazer de um dia para o outro», reconheceu.

Uma mão da indústria 4.0

A direção para uma indústria mais sustentável está também a ser apoiada por novos desenvolvimentos na própria maquinaria, como confirmaram os construtores presentes nestas primeiras Tajiservi Talks.

Hideki Tajima e Izumi Takagi

A construtora de máquinas de bordar Tajima está «sempre a olhar para o futuro», garantiu o presidente Hideki Tajima. E por isso mesmo, está a acompanhar as mudanças no mercado, nomeadamente o laboral. «No passado, os bordados eram manuais, havia muita gente a fazer bordados. Agora temos máquinas, mas ainda precisamos de operadoras. No futuro, tudo vai ser controlado por um computador», adiantou Izumi Takagi, responsável de vendas no mercado europeu.

É neste futuro que a empresa japonesa está a trabalhar, com a implementação nas suas máquinas da solução Intelligent Thread Management (ITM), que permite ajustar automaticamente a tensão nas linhas ou, em alternativa, ter um operador que ajusta, através de um ecrã tátil, a linha em todas as cabeças, em vez do ajuste manual em cada cabeça, como sucede agora. «Os custos da mão de obra estão a subir em todo o mundo, incluindo na Ásia. Esta máquina é muito fácil para novas operadoras», explicou Takagi ao Portugal Têxtil. Em Portugal, esta tecnologia está agora a ser apresentada e ainda não está implementada, mas «estamos certos que será popular», que «é um mercado muito grande para nós», acrescentou a responsável de vendas no mercado europeu.

Máquina Tajima com software Pulse

A Tajima tem ainda entrado no mercado do retalho, com máquinas de bordar para personalização de artigos, que utilizam software da Pulse para responder à procura imediata do consumidor. Esta solução elimina a taxa de erro de 5%, habitual nestes processos, assegurou Tas Tsonis, CEO da Pulse Microsystems, que tem como clientes a Nike, a Puma e a Adidas, entre outros. «O que oferecemos é automação e customização em massa», afirmou Tsonis, que referiu que o software pode ser usado também em unidades produtivas. «A produção customizada pode ser feita noutro sítio e enviada para o consumidor», destacou.

Inovação “made in Israel”

Já Rubén Molina esteve a representar a startup israelita Twine, que desenvolveu uma tecnologia que permite tingir a linha digitalmente consoante as necessidades. Sem consumo de água, o que reduz a poluição, a solução permitirá às empresas de bordados ou de confeção, por exemplo, não ter stock ou até trabalhar gradientes de cor na mesma linha. «Responde à procura do mercado: e-commerce, personalização e sustentabilidade», resumiu o diretor de produto da Twine para a Península Ibérica.

Israel Kenan 

A também israelita Kornit Digital acredita que o digital é o futuro da estamparia, tanto pelo lado da economia de recursos como pelo da customização. «Em 2019 e 2020 estamos a ver duas tendências: o on-demand, a produção sob encomenda, e também a substituição dos custos em processos analógicos para processos digitais a uma escala maior», explicou Israel Kenan, diretor do mercado da Península Ibérica.

As mudanças no consumo e a entrada de retalhistas como a Amazon no mercado da moda fazem com que a produção de vestuário esteja em transformação, não só para servir estes consumidores individualmente mas também para evitar o desperdício. «A Kornit permite estampar uma camisola com apenas meio copo de água, sem desperdício», alega a empresa num vídeo promocional. A sustentabilidade obtém-se ainda pela proximidade ao mercado de consumo final, com a implementação de microfábricas. «Em 2020 vamos ver este conceito mais disseminado, vai ser cada vez mais a solução», acredita Israel Kenan. «Há grandes marcas, ainda não posso dizer quais, que estão a trabalhar para colocar massivamente, de uma vez, uma rede grande de fornecimento e a Kornit está no centro disso», revelou, ao Portugal Têxtil, o diretor do mercado da Península Ibérica.

Portugal posiciona-se

Paulo Vaz

A indústria têxtil e vestuário portuguesa está a acompanhar estas transformações, nomeadamente ao nível da sustentabilidade, como deu conta Assunção Mesquita, consultora do CITEVE em processos de sustentabilidade nas empresas deste sector. «Em 2019 ajudei muitas empresas a implementarem estes rótulos [ligados à sustentabilidade]» reconheceu, admitindo que, com as novas políticas, «os bordadores agora têm que estar certificados».

Já os números do sector, revelados por Paulo Vaz, atualmente diretor das áreas de negócio da AEP – Associação Empresarial de Portugal mas até ao ano passado diretor-geral da ATP – Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, alimentam perspetivas futuras de crescimento. «A indústria têxtil e vestuário tem todas as condições para ser líder em produtos de nicho e de alto valor acrescentado», sustentou.

Júlia Petiz

«Palavras de muita esperança e conforto», como classificou Júlia Petiz no encerramento. «É uma mudança de paradigma, traz-nos muitas ameaças e por isso muitas incertezas. Senti essa insegurança e ansiedade ao longo de 2019 e essa foi a razão pela qual decidimos celebrar a inauguração das novas instalações e dos 25 anos com um evento desta natureza. Não levamos nenhuma conclusão em absoluto, porque isso não é possível. Cada um de nós vai ter que escolher o seu caminho», concluiu a CEO da Tajiservi.