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Tecidos são cruciais para o 3D

O fornecimento das características dos tecidos para integrar nos programas de design e modelação 3D deverão tornar-se a regra no futuro, num crescimento orgânico que está a tornar o negócio da moda mais digital. Mas há ainda um longo percurso a percorrer para que as empresas aproveitem todas as vantagens da tecnologia.

Embora alguns retalhistas estejam já a desfrutar dos benefícios do design 3D, ferramentas de prototipagem virtuais e software de gestão do ciclo de vida do produto, outros estão ainda a debater-se para encontrar as melhores formas de aproveitar os potenciais benefícios para os seus negócios.

«Penso que a primeira questão a fazer é qual é o objetivo da empresa», afirmou Ed Gribbin, presidente da consultora Alvanon. «Tudo se resume a isso», acrescentou. «As pessoas estão a abrandar o ritmo de compra de vestuário, calçado e acessórios e o 3D é uma das ferramentas que vai permitir envolver os clientes mais frequentemente, trazendo o produto mais rapidamente para o mercado, manter a atenção do cliente e afastar a atenção dos clientes dos outros concorrentes que andam por aí», referiu Gribbin.

Para Mary McFadden, diretora-executiva de desenvolvimento de produtos CAD na Gerber Technology, a primeira coisa antes de implementar estas tecnologias é pensar que parte do processo a empresa domina e que problemas está a tentar resolver. «É preciso ser claro e pensar nisso antes de se envolver», referiu.

Já Robin Lemstra, diretor de serviços profissionais na Lectra, acrescentou que a pergunta a fazer é simplesmente «onde é que é possível acrescentar valor?». Uma outra sugestão que deixou é fazer as coisas devagar, «perceber quais são os pontos centrais, o que é que é possível resolver inicialmente com os primeiros passos» e, assim que isso tiver sucesso, escalar. «Decida onde quer ir, de onde quer começar – quer começar pelo fit, quer começar pelo design, pelo lado do marketing? É nisso que é preciso ser muito claro porque isso determina se é preciso um avatar de fitting ou um avatar de estilo – por isso, muitas coisas são determinadas pela tomada de decisão do rumo a seguir», sublinhou.

Dar aos utilizadores a oportunidade de digerir e experimentar a nova tecnologia é fulcral para Simon Kim, diretor de estratégia da CLO Virtual Fashion. «São os utilizadores que na verdade vão usá-la, embora tenha o apoio da gestão, às vezes não funciona bem de cima para baixo, por isso é preciso ter uma medida de baixo para cima também», referiu.

Durante a sua apresentação, Simon Kim acrescentou que «a adoção bem sucedida na verdade funciona de dentro para fora, começa com as pessoas que percebem que o 3D pode beneficiar o seu processo e que são tão apaixonadas por isso que falam com os colegas. É assim que a inovação deve espalhar-se numa empresa. É a forma mais orgânica de o fazer. Por isso, deem-lhes tempo para aprender e a adoção bem sucedida vai acontecer».

Este é um ponto com o qual Gribbin concorda. «Não encorajaríamos ninguém que ainda não começou a perceber onde é que na organização haverá uma cultura de aceitação e de assumir riscos, porque vai disseminar-se assim que as pessoas percebam os benefícios», afirmou.

Acertar, claro, leva a ganhos, incluindo tempos de entrega mais rápidos e custos mais baixos através da redução do número de amostras e protótipos, acelerando o design e o processo de tomada de decisões.

Os executivos dos principais fornecedores de software 3D concordam que há outra coisa fundamental para encorajar a implementação, que é assegurar a compatibilidade em todos os formatos de software, por isso os dados podem ser usados em diferentes sistemas num ambiente aberto e colaborativo. «Durante muitos anos, esta indústria não era muito boa a partilhar», revelou Abihay Feld, sócio fundador da Browzwear. «É preciso ter a certeza que seleciona parceiros que estão prontos para jogar num jogo aberto. Não se pode começar a investir numa parte do processo e perceber mais tarde que não está ligado ao processo seguinte – de repente o PLM pode não estar a comunicar com o 3D e o 3D não está a falar com o teste de tecidos. Tenham a certeza que é suficiente aberto, ou completamente aberto, para aceitar tudo e ser capaz de partilhar tudo o que possa», explicou.

O papel dos produtores de tecidos

Outra questão abordada pelos oradores foi a necessidade de impelir os vendedores de tecidos para a ideia de uma plataforma aberta que abranja toda a indústria, para que as propriedades dos tecidos possam ser facilmente transmitidas pela tecnologia. De acordo com Harald Preuber, gestor de produto de simulação de vestuário 3D na Human Solutions, é aqui «que temos de entrar no mesmo barco e levar os vendedores de tecidos a cumprir. Há 100 empresas que usam os mesmos tecidos para medir a mesma coisa 100 vezes, no fim isso tem de vir de fora – toda a gente tem de ter a sua parte do bolo. Precisamos que outros se juntem a nós, não podemos modelar cada botão em 3D», afirmou. Mary McFadden concordou. «Além de criar tecnologia, podemos ver também quais são as barreiras à adoção da tecnologia», referiu, acrescentando que «um bom exemplo são as propriedades do tecido».

A diretora-executiva de desenvolvimento de produtos CAD da Gerber Technology explicou o esforço envolvido em perceber os valores de cada tecido, que pode ir ao ponto de testar cada amostra, e como acelerar o processo envolvendo os responsáveis de desenvolvimento de têxteis e tentar encorajá-los a fornecer valores com os seus tecidos pode ser benéfico.

Robin Lemstra acrescentou que juntar todos os componentes na tecnologia digital é uma grande mudança. «Acho que para o que estamos a olhar é para a transformação de um processo analógico para um processo digital. O 3D realmente junta alguns componentes, é a cor digital, é um tecido digital, é claramente um avatar digital e é um material digital», enumerou.

Já Gribbin destacou que é provável que seja um processo diferente «se estiver num negócio da alta moda. E exige criar confiança e pode ser um percurso mais lento por causa da complexidade dos tecidos envolvidos».

Simon Kim, contudo, acredita que a padronização do tecido vai desenvolver-se organicamente. «Tenho a certeza que será um processo natural e teremos as especificações dos tecidos a surgir e vamos estar todos numa sala a falar de qual é a forma mais eficiente. Penso que temos de nos juntar mais, falar mais e depois isso vai desenvolver-se de uma forma muito orgânica».